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em Cássio Zanatta/News & Trends por

Foi num 12 de outubro. Como era Dia das Crianças, fomos ao cinema ver Pinóquio. Prometemos encher o que um dia seria nossa casa de relógios cuco, nunca deixar o nariz crescer e evitar o estômago de baleias. Dois anos depois estávamos juntos, num dia 2 como hoje. Bodas da cor que vão tomando os cabelos. Muita gente dizendo “nossa, coisa rara, hoje em dia” e o tom não parece muito ser de aprovação. Por isso, todos os buquês e olhares e cuidados parecem pouco. Jantar marcado no restaurante, estamos nos arrumando, dividindo o espelho do banheiro.

Os olhos se procuram e se espantam, muito impressionados. Os filhos aparecem na porta para checar se estamos indo bem. Sorriem, parecem orgulhosos desses pais que ainda comemoram. Pingo um colírio, lavo os olhos, é preciso espiar os detalhes. Beatriz experimenta um lenço, depois outro, pede minha inútil opinião, acho todos lindos. Ponho o sapato e me dou conta de que é o mesmo sapato do meu casamento. Ainda está aqui. Como o que nos uniu, resistiu ao tempo, lamas e tropeços.

É raro eu usar sapato – vamos de singular, só tenho esse mesmo. Sou uma Imelda Marcos ao contrário; uma Cinderela que, fugindo às doze badaladas, deixaria na escada um tênis. Mas aqui estamos nós, velho sapato. Sei que ele me é agradecido, já que, depois dele, comprei apenas um outro, mas que nunca se ajustou. Foi o sapato constante que me levou a outros casórios, festas, cerimônias (algumas tristes, que a vida é isso mesmo), reuniões importantes, sempre que ele se fez necessário.

Jamais foi apresentado a um engraxate. Naquele dia, brilhava tanto que refletia minha cara assustada. Hoje, é mais discreto, achou por bem não refletir as coisas com tanto entusiasmo. Naquele dia, derrapava um pouco, a sola ainda lisa não garantia firmeza alguma. Eu, que nunca fui de grande estabilidade, até hoje bambeio um tanto. Naquele dia, Beatriz me salvou do fiasco, conduzindo a valsa; depois seguiu conduzindo meus caminhos, nas danças como na vida.

Então o sentimento ainda está. 25 anos. Coisa meio fora de moda, feito esse sapato. Verdade que já fui menos gasto e o amor, menos usado. Por isso há de se polir com constância, ajeitar os cadarços, lustrar sempre a gente. O silêncio e indiferença costumam abrir buracos feios.

Foi uma bela caminhada, mais leve do que faz supor tanto tempo. Aqui estamos. Você está linda, eu não estou tão mal assim, vai. Então me dê a mão, apertemos forte. Está na hora, o táxi deve estar chegando. Você fica bem com esse lenço, já falei? Nós dois, hein?

Firmo os sapatos no chão e damos o próximo passo.

 

 

 

 

 

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