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A mulher que ri

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Nada de engraçado acontece numa fila de supermercado. Nada. Mesmo que você tenha tempo de sobra ou sobra no saldo do banco, a hora de pagar as compras não tem nada de impagável.

No entanto, a terceira mulher na fila à minha frente desembestou a rir. Não houve um crescendo, uma risada tímida que aos poucos se transformasse em gargalhada. Não: já de saída ela ria solta e despudorada. Primeiro, achei que estava vendo um filme na tela do celular. Mas não havia celular, apenas uma fila no supermercado que, sabe lá por que razão, fez a mulher rir, rir uma risada tão solta que, se ela fizesse xixi ali mesmo, formando uma poça de que a fila teria de se desviar, ninguém haveria de estranhar, muito menos censurar.

Foi uma lembrança ou algo que só ela viu?  Procurei em volta e nada percebi; sabe lá se na sua cabeça despontou uma ida ao circo, uma tarde com as primas na praia, um beijo sem paixão que lhe fez cócegas na boca, duas joaninhas que decidiram namorar no seu dedo ou o pisão no pé que seu primeiro namorado deu na valsa de debutante, vai saber.

Houve um olhar de reprovação do sujeito à minha frente, o quarto na fila. O gerente se aproximou para constatar o que havia. E a mulher não conseguia conter o riso e a verdade é que jamais saberemos ao certo do que ri uma mulher. Ela pode muito bem rir do nosso nariz batatinha, da marca de papel higiênico que escolhemos ou de nossa eterna contenção.

O que pude constatar é a dificuldade em tirar as compras do carrinho de supermercado enquanto gargalhava. A mulher bem que tentou não atrasar a fila. Quanto mais ela tentava se conter, mais se contorcia; quanto tentava o controle, mais escandalosa sua atitude. As embalagens lhe faziam cócegas; as salsichas estavam pândegas e, quando ela puxou o cartão de crédito da carteira, o fato de pagar as compras com aquela coisa de plástico quase a fez descambar no chão.

Foi quando reparei que a mulher estava grávida. Um mulher grávida acha mais graça na vida que o resto da humanidade. Ri até do papelzinho que a registradora emite. Ou de repente dispensa motivo, o tamanho da sua linda barriga já lhe é motivo para, no mínimo, sorrir lindamente.

Prefere uma mulher grávida pagar no débito ou crédito? Quer CPF na nota? Precisa de ajuda para levar as compras ao carro? Tem o ticket do estacionamento? E a mulher se estoura de rir a cada pergunta ridícula, ridículos são os homens, ridículas as filas, divina a vida que ela leva consigo e que breve será apresentada ao ridículo das coisas.

Ela pagou e tomou seu rumo, ouvimos aos poucos suas risadas se perdendo no corredor, cada vez mais e mais longe. Súbito, nosso silêncio e seriedade revelam-se mais patéticos do que nunca. Alguém dê alguma risada, por Nossa Senhora Hilariante.

Chega a minha vez na fila. Procuro manter a compostura. Assobio baixo um samba que ninguém mais sabe. A caixa pergunta se vou pagar com débito ou crédito e se quero CPF na nota. Abro um sorriso de dois segundos. É o máximo que posso oferecer.

 

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