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A professora de ioga me decepcionou

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Caminhando na avenida, vi uma pessoa conhecida à minha frente: a professora de ioga. Não é minha professora, não faço ioga, eu a conheço vagamente, é uma moça sempre sorridente e em seu andar parece ensinar o equilíbrio ao mundo. Eu a sigo a uma distância de uns 20 metros, mas na verdade é muito mais: como uma pessoa evoluída, ela está anos-luz à minha frente.

Mordo de inveja de quem pratica meditação, busca o equilíbrio interior, uma consciência mais elevada. Não me arrisco porque já cheguei uma pessoa francamente desequilibrada e o tempo só fez aumentar os vacilos. Tenho um certo pudor de algumas coisas, sentar no chão, acender incensos, repetir mantras, essas coisas. E não tenho orgulho algum dessa limitação.

O fato é que a professora de ioga me decepcionou. Primeiro, ela parou numa banca para apreciar uma revista de receitas. Não eram receitas de uma vida superior, mas de doces para festas. Fui conferir assim que ela seguiu seu caminho, que sou curioso que é um negócio. Quer dizer que nossa professora no fundo é uma festeira, dessas que comem os brigadeiros antes da hora do parabéns? O que um olho de sogra teria a ensinar a uma pessoa assim evoluída? No fundo, será que a professora de ioga de vez em quando manda às favas a meditação para se chafurdar numa bandeja de quindins?

Mas o pior vem agora: a professora de ioga passou ao lado de um grupo de pombas na calçada e as enxotou com o pé. Como se fosse dar um karatê, outra modalidade que invejo nos praticantes, mas a que nunca tive qualquer pendor. Algumas pombas se afastaram numa corridinha desajeitada e outras voaram para longe, assustadas.

Não esperava uma atitude dessa de alguém em paz com o mundo. Em defesa do gesto da professora, necessário dizer que há pombas bem desequilibradas, que insistem em sujar bancos e estátuas de heróis da Pátria nos parques. Mas estou perdendo tempo nessas confabulações e lá vai a professora de ioga à minha frente. Talvez avenidas e seus carros e fumaça e pressa não seja o ambiente da professora de ioga e isso a perturba.

Minha consciência é pobre. No máximo, percebe o vento que chacoalha os cabelos da moça ali e faz voar a folha de jornal que abraça o poste. Talvez eu fizesse bem se meditasse, em vez de ficar pensando essas bobagens. Pior: colocando-as no papel para que a humanidade fique ciente de minha seita débil, sem ritos nem sentido, que não deixará seguidores.

Eis que a professora de ioga entra num ônibus. O ônibus está lotado. A professora de ioga vai fazer seu percurso de pé e espremida. Na arrancada, o motorista dá aquela clássica ajeitada nos passageiros. Enquanto uns perdem o equilíbrio e outros se arranjam, o chacoalhão não abala a professora de ioga. Vejam como alcançar o equilíbrio tem utilidades práticas.

Talvez esteja indo para uma festa com quindins e brigadeiros e vai se regalar. Esqueceu o presente, ou não liga para essas coisas materiais. Olha fixamente pela janela, quando não está de olhos fechados, sorrindo para dentro de si.

Mas eu esperava mais da professora de ioga. Que ela num gesto acalmasse os aflitos. Ou que flutuasse no ar, sei lá. Mas tomar ônibus, filar revista na banca, enxotar pombas e aproveitar a apresentação do mágico na festa para jogar toda a bandeja de quindins na sua bolsa, francamente.

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