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A Terra do Se

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Fica lá, logo depois de Patos de Minas, e agora estou na dúvida se segue pelo Estreito de Magalhães ou pelo Canal de Suez. Uns dizem ficar na Austrália, outros, na única praia de água quentinha na Islândia, mas há muita interferência e propaganda dos Ministérios de Turismo pelo mundo, o que dificulta a localização com exata latitude e longitude. Mas que existe, ô se existe:

A Terra do Se. O lugar onde todos os “ses” que ficaram na promessa se realizam.

Eta, se aquela bola na trave tivesse entrado. Aqui, neste mundo que insiste em ser ranzinza e econômico em realizar devaneios, não entrou: foi pra fora, nem escanteio o juiz marcou, e a torcida saiu do estádio muda, olhando para o chão e ruminando amendoim. Pois na Terra do Se não só a bola entrou como estufou a rede e a galera fez uma festa de doido, que teria durado uma semana se o pessoal tivesse saúde, mas como estava na Terra do Se e tinha saúde, pique e fígado à beça, a comemoração já entrou no segundo mês.

Ah, se aquela menina que era um parque temático de lindeza ao menos topasse conversar. Se? Perfeitamente: lá na Terra do dito cujo não só ela lhe deu atenção, ficou tocada, abraçou você com doçura, abriu-se como a flor do mato que com um raiozinho besta de sol se oferece toda, como achou graça nos seus defeitos e até em comer biscoito de sequilho com suco de pera assistindo ao Fantástico.

E se os seus pais ainda estivessem por aqui? Lógico que aqui eles não estão. Estão lá, na Terra do Se, papai fazendo batida de fruta enquanto assobia e mamãe, pintando seus quadros sem descuidar da composição da casa toda. Se eu fosse menos medroso, iria até lá, mas não estou na Terra do Se, estou em São Paulo e tenho dentista de tarde: um caramelo levou minha obturação e deixou esse sorriso esburacado.

Se o sábado durasse três dias e a segunda, duas horas? Se Mozart reencarnasse nos cucos dos relógios? Se mexerica desse o ano inteiro? Se hoje nascessem quatro luas cheias? Se todo mundo tivesse dez minutos por dia de direito a massagem nos pés? Nem preciso dizer onde isso acontece, o biduzão do leitor já captou.

Se todo mundo ganhasse o justo por trabalhar tanto, se ninguém jogasse porcaria no mar, se a gente pudesse levantar voo só de bater os braços, se todo semestre tivesse cometa, se os vagalumes e quebra-queixos resolvessem voltar, se as dores que mais dóem – puf – virassem vento.

E aí vem o pessoal perguntando se esse lugar existe mesmo. Evidente. É só chegar: gratidão é passaporte, polícia distribui bala de coco, o café é sempre honesto, o câmbio, favorável e nós, imigrantes, somos recebidos com flores, bandinha com tuba e acolhidos em casas com som de onda quebrando no mar. E se o sujeito preferir no meio do mato, seja realizado o seu se.

A Terra do Se. Ai, ai. Se ao menos a gente tivesse deixado a mala pronta.

 

 

 

 

 

 

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