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A velha que varre a calçada

em Cássio Zanatta/News & Trends por

A velha que varre a calçada já não varre mais a calçada. Costumava ficar horas na varredura, diariamente. Há semanas não a vejo. Sofreu um troço? Foi sequestrada por gente que tem alergia ao pó que a vassoura assanha? Mudou para uma clínica de repouso em Jaboticabal? Ou, depois de anos, parou para se perguntar, afinal, para que serve varrer a calçada todo dia?

Nem todo mundo gosta da velha que varre a calçada. Dizem que é fofoqueira, chegada numa intriga, passa duas horas por dia fingindo varrer só para bisbilhotar a vida alheia. Uma amiga até atravessa a rua para não passar em frente ao portão onde a velha todo dia varre a calçada.

Uma verdade deve ser dita: ela nunca gastou água na função. Limpava os restos de cigarro, comida, os papéis, a sujeira das folhas e dos homens, com sua fiel vassoura, que sabia mais dela do que qualquer ser humano. Nada de mangueira, vapt-vupt, a água é preciosa, ponto para a consciência ambiental da velha que varre a calçada.

Quem deve estar sentindo falta dela é aquele gato que ficava em cima do muro só observando, e com quem ela, na falta de pessoas, batia altos papos. E o dono do bar vizinho, que proseava um bom tempo com a velha, quando não havia fregueses.

Fato é que a calçada está suja sem a velha que varre a calçada. Cinco bitucas, dois palitos de sorvete, um folheto de empreendimento imobiliário que levanta voo e aterrissa conforme o vento, e aquela coisa que o cachorro faz e que o dono fez que não era com ele recolher. Mesmo o ar, parece que está meio pesado com sua ausência. Ou é invenção minha, sinto falta de algumas cenas quando me acostumo a elas.

Como se chamará? Deve ter aqueles nomes que ninguém tem mais, como Guiomar, Dorali, Emília, Consuelo. Terá filhos, amigos? Ou seu grande confidente é o abajur lilás ao lado da cama? Diz segredos para as panelas? Comenta com as almofadas que tal calouro na TV já devia ter sido desclassificado no primeiro minuto? As pessoas sozinhas não se conformam facilmente com a solidão.

Não tenho opinião sobre se gosto ou não da velha que varre a calçada. Pouquíssimo a conheço, para dizer a verdade. Só sei que sem ela algo se perdeu, as coisas não são mais as mesmas, falta um cotidiano no dia a dia. Fora o medo que nos assalta: o do grande mistério de um dia as pessoas estarem e no outro, não.

Amanhã passarei por aqui novamente. Na torcida de encontrar a velha que varre a calçada. Celebraremos juntos: o dono do bar, um ou outro freguês, gato, vassoura, uma farra de pó que só vendo. Talvez joguemos os papeis e a sujeira para o alto, como se faz com confete ou papel picado nas festas e comemorações. Talvez ela deixe um minuto de varrer a calçada para dançar rumba com a vassoura.

Aceito até que ela só finja varrer para falar mal de mim pelas costas. Ando merecendo.

 

 

 

 

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