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Amor De Pai

em Coluna por

Marco

Amor De Pai

“Você será pai de uma menina, Pedro!” “Meu Deus, e o trabalho que isto vai dar ao longo do tempo” – era impossível dissociar a futura filha crescendo mulher das sofridas lembranças de desamores pessoais desde a adolescência: Todas as malzebas e armadilhas dos amores e paixões que corroeram a trajetória de relacionamentos amorosos de Pedro. Todos os sofrimentos que desencadeou. Era a jornada de uma vida regada a lágrimas.

Lembrou-se de Camila, o primeiro amor que findou tão logo conheceu Andrea que tinha cabelos mais modernos. Lembrou-se de Neide, que substituiu Andrea pois tinha voz linda e aveludada. Lembrou-se de Amanda, uma paixão a primeira vista que logo substituiu Neide. Na cabeça de Pedro a “Afrodite de Cnido” havia finalmente encarnado, dando vida a obra do escultor grego Praxiteles cerca de 2.300 anos após sua morte… Depois veio a Sabrina com aqueles olhos gigantes responsáveis por nutrirem um cérebro abençoado, que logo devolveria ao mundo verdadeiras joias transformadas em palavras, que fluíam hipnoticamente pela sua língua, dentes e lábios.

Pedro, inconsciente ou não, dava como certo a vinda de um herdeiro homem. Um destes primogênitos que pulsaria orgulho ao pai machista. Talvez quisesse reviver seus ébrios anos de farra na pele do filhote. Talvez tivesse receio real de ter sua pequena penando em garras de gaviões, as aves de rapina que vinham da mesma linhagem de Pedro. Mas o destino tinha outro plano para a paternidade de Pedro – vinha vestindo cor-de-rosa.

Vinte e duas semanas depois, estando a criança bem próxima a desembarcar neste mundo, Pedro degusta uma Grey Goose com nada além de gelo no Bar Baretto. É surpreendido assim: “Conhece Ana Cañas? Ela tocou por dois anos neste mesmo bar… é a mais incrivelmente fantástica mulher deste mundo…”. “O bar número 1 do mundo não poderia ter nada diferente disto” – provoca Pedro. “É sério, ela é inigualável! E sim, estamos lidando com um palco acostumado a grandes artistas…”

Pedro entra no taxi e segue de volta para casa. Com o quarto na penumbra, acomoda-se na poltrona próxima a cama e observa aquela tranquila, bela e gigante barriga adormecida de 36 semanas. Quinze minutos depois, germina a semente plantada pelo amigo no Bar Baretto: Pedro estica o braço, alcança o tablet que também descansa no criado mudo. Descobre então o vídeo clipe “Te Ver Feliz”, canção criada pela mais incrivelmente fantástica mulher deste mundo. Lentamente Pedro valida este título ao perceber todos os encantos individuais de Camila, Andrea, Neide, Amanda e Sabrina personificados em Ana Cañas. A magia então acontece, em volume de sussurro, quase silêncio para não incomodar o sono dos justos da esposa ao lado, Pedro decifra:

Eu não tenho uma letra
Eu não tenho nada que pareça
Melhor do que olhar
E ver você assim tão bem

Ficarei pra sempre perto
Espero encontrar um jeito
Sincero
Sincero

Palavras que eu não tenho
Mas às vezes o silêncio
Pode dizer mais e eu sou capaz

De deixar assim
Com completar no gesto
Dar a mão, sorrir
Porque o que eu quero
É te ver feliz

Pedro entende de imediato quão divino é ser premiado com uma filha. Como não se derreter por esta homenagem? Impossível não ir à lona quando percebe a tatuagem “Pai” na parte superior das costas de Ana Cañas. Pedro seguiria a jornada de uma vida regada a lágrimas. Entretanto, transcorreria através de um novo estímulo, e sendo endereçadas aos seus próprios olhos. Sente seu coração transbordar tão logo decifra a mais incrivelmente fantástica mulher do mundo coberta de zelo pelo pai. Desdobra-se então o nascimento do maior amor conhecido de um homem por uma mulher:
Amor de pai.

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Marco Antônio Guile escritor mineiro que retrata em crônicas fictícias, as incontroláveis sensações que acompanham descompassos cardíacos nos homens. Qualquer semelhança com histórias reais é mera coincidência… © 2014.

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