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As (Muitas) Jornadas de Renata Quintella

em Entrevista/Novo Mundo por

Os processos, escolhas e desafios de fazer o bem numa sociedade egoísta.

Novo Mundo Entrevista

Um dia, Renata saiu às ruas para perguntar a completos estranhos: “O que eu posso fazer por você agora?” Começava ali a primeira jornada da “corrente do bem” que a levou a ser matéria do Fantástico, palestrante requisitada e referência de um ativismo que desperta “gente para cuidar de gente”.

O apartamento na Lapa, em São Paulo, tem uma atmosfera acolhedora e movimentada. As crianças; um jeito livre, despojado e alegre. Renata me recebeu para uma longa entrevista numa tarde comum de um dia de semana; e logo ficou claro que o mundo que ela fez para si reflete com precisão os valores sob os quais ela vive. Do lado dela, a gente sente, quase automaticamente, que pode ser uma pessoa melhor.

Nesta entrevista, concedida dias antes da palestra no TEDxSãoPaulo (marcada para dia 2 de Novembro) ela conta como suas muitas jornadas podem ser boas e, ao mesmo tempo, tremendamente desafiadoras. Logo de início começamos a falar sobre as expectativas quase “sobre-humanas” que são colocadas sobre quem resolve fazer algo diferente dos padrões; logo comecei a gravar, e o resultado você confere na entrevista abaixo.

Paulo R. R. Ferreira: Você me falou deste lugar um pouco isolado que ficamos quando resolvemos fazer algumas coisas, digamos, “diferentes” na vida. Você aprendeu a lidar com isso, alguns anos depois de começar as jornadas?

Renata Quintella: estou aprendendo, na verdade. Eu ainda estou aprendendo e eu acho que vou aprender até o meu último dia aqui na Terra a viver essa… eu acho solidão uma palavra muito pesada ainda… não sei se é só, mas na companhia de mim mesma.. eu estou desde o começo do ano numa profunda busca do autoconhecimento.. que implica ir em todos os lugares onde eu possa resgatar um pouquinho de mim. Então já fui no Vipassana (retiro de meditação no qual os participantes guardam silêncio absoluto por vários dias) umas 3 vezes, já fui em Abadiânia (cidade onde se concentra o trabalho do médium João de Deus, conhecido no mundo todo por suas curas espirituais), eu vou onde me chamam, porque é desse jeito que eu consigo, na verdade, ir me conectando um pouco comigo. E fora viver solitária assim, como a gente estava falando, às vezes as pessoas me idealizam muito… a história do Instituto (Instituto Nossa Jornada) que é o que sou também, é o que eu faço também – mas eu também sou outra coisa, eu também tenho milhares de defeitos, às vezes eu sou super ansiosa; às vezes não sei o que fazer; tenho dúvidas, eu choro… e quando as pessoas me conhecem pelo projeto é muito difícil eu tentar contar pra elas que eu também sou falha…

PRRF: O que é essa expectativa que jogam sobre você, como é essa pessoa que projetam que você é?

RQ: Isso não sou só eu; todo mundo projeta em alguém; as pessoas projetam para fora e dizem “um dia eu vou ser igual a ela” – não sou eu – é qualquer pessoa que se destaca num lugar, outro dia eu falei numa palestra: qualquer pessoa que encontrou o seu encaixe – porque eu encontrei o meu encaixe no universo; você encontrou o seu, Paulo, quando a gente encontra o nosso encaixe, a gente continua tendo as dificuldades, mas parece que a gente brilha, sabe, e as outras pessoas começam a te enxergar como um exemplo ou uma inspiração.. eu digo que eu não quero ser exemplo pra ninguém, eu gostaria de ser uma inspiração. Se você se inspirar no que eu faço e fizer alguma coisa por alguém, meu encaixe está perfeito.. mas o que eu quero dizer é que não sou “eu” – é essa vontade das pessoas olharem par ao outro e idealizarem uma vida. Porque é mais fácil olhar para o outro do que olhar para gente; essa busca pelo autoconhecimento é a coisa mais difícil do mundo; é você se olhar, é você ver que você tem uma sombra horrorosa, ver que tem uma sombra que você precisa encontrar, abraçar e falar está tudo bem… Eu tenho assistido muitos vídeos, “O efeito sombra”, que tem no YouTube é muito legal, assisti outro dia o “Data Limite”, então eu fico assistindo as pessoas e pegando delas e das religiões o que me cabe… sabe, o que me conforta e alivia; e é assim que eu consigo viver. Outro dia eu pensei que eu gostaria que as pessoas me conhecessem nessa minha bagunça do dia a dia – que você viu um pouco – que elas vissem isso primeiro… e depois elas conhecessem o trabalho.. ao contrário do que normalmente acontece, entende? Porque aí a pessoa vai conhecer a minha sombra e depois vai pro outro lado… quando as pessoas chegam pra mim e dizem: – Nossa, conheço o seu trabalho, acho incrível, fiquei horas vendo seus vídeos… eu penso: que bom, que legal.. só que isso não me seduz, entende?

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PRRF: você falou de palestras; você fez palestras em empresas, e muitas vezes a empresa escolhe que ser positiva; atuar patrocinando ou contratando uma palestra trazer algo da positividade para dentro; mas às vezes a corporação tem o papel inverso.. você pode falar um pouco desse problema que está acontecendo com um banco trabalhando com o teu slogan, e essa visão da corporação tentando pegar carona, surfar uma onda que não é dela?

RQ: pois é, e olha que eu resisti até entrar com um processo contra o banco Santander.. eu posso falar porque o processo está correndo, então é uma briga entre os advogados, os do banco e os meus – que são voluntários, porque eles falaram: nós vamos te ajudar porque a gente acredita nisto. Eu tentei conversar; primeiro, quando a campanha foi ao ar mais de cem pessoas entraram em contato comigo perguntando se eu tinha visto. Então, eu fiz um projeto para apresentar para eles para falar; olha, vamos nos unir, eu tenho esse projeto há três anos, que é igual à frase que vocês estão usando… se vocês querem oferecer isso para o ciente, eu posso ajudar vocês aí dentro, eu tenho um mailing, mais de 600 pedidos de pessoas que me pedem dinheiro para financiar uma casa, para ajudar o filho, faculdade; e eu não tenho meios. Eu fiz um projeto maravilhoso, gastei tempo, dinheiro, gasolina, levei lá o projeto. E a gente não teve nenhum retorno nem um comentário, nem um “que legal”, nada. Até que 2 advogados muito queridos, muito especiais, disseram: a gente está com você. Então entramos com um processo com base em várias provas que nós temos, e aí começou essa briga de gigantes que eu acho… um pouco triste; eu preferia me unir, saber que iria fazer algo mais positivo…

PRRF: Mas o que você buscou foi construir um campo em comum para trabalhar?

RQ: Sim, porque eles fazem essa pergunta enquanto banco – o que o banco pode fazer por você? E eu enquanto pessoa, o que eu posso fazer por você? Quer dizer, daria para unir essas duas coisas e a minha vontade é de entrar num acordo, fazer junto, mas eu não sei se eles tem interesse… vamos ver o que vai rolar…

PRRF: E você me disse que para além do problema, você é cliente do Santander?

RQ: Pois é, sou. E cada vez que vou à agencia tenho de ouvir eles me perguntando isso, e todas as doações para o Instituto são feitas numa conta do Santander… o Santander recebeu o estatuto, quando fui lá para abrir uma conta do Instituto, então nosso caso de amor e ódio é uma relação (risos) eu estive no banco para pegar umas provas para o processo, então precisei dos meus extratos bancários…

PRRF: Você sabe que na mesma semana em que você falou sobre o seu problema com o Santander, uma palestrante do TEDxSãoPaulo no Alianz Park, que faz aquele trabalho de fotografia com a escala pantone (escala de cores) correspondente a cada tom de pele das pessoas (Angélica Dass; fotógrafa brasileira radicada na Alemanha) estava tendo o mesmo problema na Europa com a L’óreal ? Que usou numa campanha a ideia dela, a mesma coisa de usar uma escala de cores comparando com os tons de pele das pessoas – quer dizer, me parece que essas empresas não compreenderam o mais óbvio; que ao invés de tentar se apropriar das coisas desse modo “pirata”, de usar as ideias alheias, se elas patrocinassem essas campanhas e apoiassem de fato a iniciativa que elas estão tentando copiar, seria maravilhoso para ambos os lados

RQ: Sim, sim…

PRRF: E o que falta para essas empresas entenderem como é que se colabora, ao invés de piratear uma ideia?

RQ: Eu acho que falta nessas empresas um olhar para as pessoas, lá de dentro. Porque se ela não olhar para o funcionário dela, ela vai aceitar qualquer coisa que venha de fora para imitar – eu fiquei muito próxima de algumas agências que atendem o banco porque tenho várias pessoas próximas, eu trabalho com isso. Elas me contaram que quando o presidente mostrou a campanha as pessoas lá dentro entraram em pânico – porque a pergunta é “o que nós podemos fazer por você hoje?” Mas e se a pessoa me pedir um milhão? Como vai ser isso? Quer dizer ninguém dentro do banco estava confortável com essa campanha e foi muito louco tudo isso. Quando eu vou nas empresas, eu conto dessa força de gente cuidando de gente – as empresas que estão fazendo isso, tentando plagiar uma ideia de uma associação de uma instituição ou de uma pessoa física, ainda não entenderam o momento que a gente está vivendo. Teve uma palestra outro dia como é que chama aquele indiano que fez um banco social (Muhammad Yunus, na verdade nascido em Bangladesh, é o fundador do Yunus Negócios Sociais e ganhador do Nobel da Paz, pela criação do microcrédito,) e ele disse que as empresas que hoje não olharem realmente para as pessoas lá dentro não tem um futuro muito promissor e muito longo sabe? A longo prazo… e eu te digo que tem muitas pessoas olhando para as pessoas, eu fiz umas trinta palestras ou mais … é claro, todo mundo quer resultados, todo mundo quer lucro, todo mundo quer ganhar; mas tem um movimento já acontecendo para humanizar isso; e eu acredito nesse Novo Mundo, porque eu vivo nele, na base da troca, da parceria, das instituições sem fins lucrativos… aquela coisa “olha eu estou trabalhando aqui, eu preciso pagar minhas contas; mas eu não preciso ficar rico, eu quero viver…” Se eu puder, eu, Renata, no dia que não tiver de escolher a conta que eu vou pagar e a conta que eu vou deixar de pagar no mês – eu vou estar em paz, sabe? Por que eu sei que o futuro que estou deixando para meus filhos não vai ser um apartamento ou um carro, por que eu não tive nada disso.. e eu estou conseguindo fazer a diferença.. então, se eu puder deixar para eles (referindo-se aos seus filhos Gaia; Levi e Théo) uma diferença nas pessoas que vão ficar e neles mesmos, eu sei que eles vão ter muito mais substância para conseguir comprar depois seu apartamento, ou morar com um monte de gente, ou comprar uma bicicleta…

PRRF: uma das coisas que me moveu quando eu resolvi entrevistar você, é que eu comecei a ver muita gente falando sobre a coisa do empreendedorismo de palco – sabe , as vezes as pessoas vendem a coisa num show muito grande, muitas luzes, mas para algumas dessas pessoas talvez falte haver realizado algo que possa dar substancia àquilo que elas estão vendendo… e quando eu olhei para isso, pensei imediatamente “mas eu conheço algumas pessoas que foram fazer realmente as coisas, e eventualmente tiveram notoriedade porque fizeram; não porque elas buscaram a visibilidade, mas porque o trabalho delas é relevante, porque elas saíram fazendo alguma coisa.. e a primeira pessoa que eu pensei foi em você, que é exatamente isso, você literalmente saiu praticamente sozinha na rua um dia e começou a fazer, a ajudar as pessoas.. e aí essa coisa foi crescendo até se tornar um instituto e tudo mais… Você que começou fazendo e que depois teve uma grande visibilidade por conta do que fez – como é que a gente se vacina contra essa coisa de palco, de show, sem conteúdo ou consistência? Como é que a gente se vacina contra essa inteligência marqueteira sem conteúdo real?

RQ: É, as vezes eu vou nos eventos, passo o dia todo ouvindo, ouvindo; e saio de lá completamente vazia… porque você ouve montes de palavras difíceis – e é uma coisa que é tão simples; uma coisa que poderia ser resumida em 3 palavras. Eu ouvi muito sobre meritocracia e aí as pessoas falam sobre isso, falam sobre isso.. eu não acredito no discurso, eu acredito muito na ação. Porque é a ação que faz a diferença… mas não sei.. tirando esses eventos que a gente tem se encontrado, que são os TEDx, que tem conteúdo real, que é a própria experiência de vida… como que a gente se vacina? Com o que eu toco as pessoas? Eu conto a minha história… e quando eu conto você se reconhece na minha história porque somos humanos, porque fazemos parte de uma mesma família, então você se reconhece nas coisas que aconteceram, nos sentimentos, porque temos os mesmos, então é só a pessoa compartilhar o que ela é… não sei como você se vacina, eu saio às vezes vazia e às vezes vou a eventos dos quais saio outra pessoa, que reverbera. Hoje mesmo eu acordei pensando numa das falas de uma das mulheres que eu ouvi no TEDxSãoPaulo, isso vai enriquecendo a gente… e olha que eu vim desse mundo corporativo. Quer dizer, como aconteceu a história do instituto? bom, antes até; do dia em que eu saí nas ruas: porque eu estava trabalhando muito, fazendo eventos corporativos, lançamentos de carros com shows sabe, megalomaníacos, carro que sobe a parede e desce com bailarinos e convenção de agrotóxicos – quer dizer, não pode mais falar agrotóxicos, não é?

PRRF: Agrotóxicos! Mas claro; eu faço questão absoluta de escrever exatamente essa palavra: agrotóxico! E na minha coluna vai se chamar sempre agrotóxico, isso quando eu não chamar de “veneno”. Absolutamente…

RQ: (risos) … eu me sentia muito desconfortável naquela situação; porque eu que só compro comida orgânica para os meus filhos estava lá, ganhando dinheiro e assinando contrato de confidencialidade; que eu não podia falar o que eles estavam dizendo lá dentro… e aí eu comecei a entrar numa crise comigo… que mundo é esse que vou deixar para os meus filhos?
E eu falei eu quero mostrar para as pessoas quem eu sou – eu precisava da ação. Eu não sei o que vai acontecer, mas eu sempre ajudei as pessoas e eu quero contar isso para as pessoas, porque eu entendi que quanto mais eu contar, mais as outras pessoas vão me ver fazendo e vão fazer pelo outro também; porque eu sempre fiz isso para os meus amigos… Quebrou os óculos? Vamos lá, vamos fazer outro e depois você me paga.. eu parava no ponto de ônibus e pegava as senhoras – Quem vai pra Lapa? Vamos, que eu dou uma carona… e aí, claro, algumas pessoas disseram “você é louca, eu não vou com você nas ruas, as pessoas vão te pedir dinheiro; e eu falei: Não; eu vou encontrar uma pessoa que vai comigo.. e aí fui…

PRRF: Eu acho que tem um resgate na tua pergunta, no teu trabalho; tem um resgate de uma coisa extremamente importante que é esta lealdade do humano com o humano. Porque a nossa lealdade foi corrompida e comprada; no sentido de que a lealdade seja devida à corporação primeiro; que é uma pessoa jurídica, fictícia, que não é gente! Então eu acho que este é o aspecto, desde o primeiro momento, que mais me tocou no seu trabalho: essa recolocação deste ponto de lealdade; olhar o ser humano e ver que este é o seu semelhante, antes de qualquer outra coisa.

RQ: Sim… no final de algumas palestras eu abro para perguntas; uma vez uma moça perguntou: “Aconteceu alguma coisa na sua vida para você ser assim? Porque as pesos as não são assim…”
Eu respirei, olhei para ela e disse: “As pessoas são assim. Em algum momento da vida alguém fala para você que você não é assim, que você tem de ser egoísta, tem de ser competitivo, passar em primeiro lugar, conseguir aquela vaga. E aí você vai começando a parar de olhar para o outro e passando a olhar só para você. E aí você se perde no caminho e começa a fazer só por você. E porque que isso mexe tanto? Porque na hora a pessoa pensa “nossa, eu me reconheço em algum lugar aí dentro, porque eu também tenho essa vontade de ajudar o outro.. mas me falaram que eu não posso ajudar, porque eu tenho que ME ajudar… Quando a pessoa entende que quando ela ajuda o outro ela se ajuda, profundamente, a roda começa a girar..
Eu faço tudo que eu faço, Paulo, por mim; porque eu preciso ser uma pessoa melhor, só que eu faço pelo mais profundo eu. Quando eu faço por mim, profundamente, eu faço por você, profundamente. E assim a gente se torna um. entende? Porque se eu fizer só por você, não funciona… eu já fiz trabalho voluntário em outras organizações, não durou dois meses. Eu começo a achar que você não merece, perguntar o que você fez com o aquilo que eu te dei? Eu começo a te julgar… mas se eu começo a fazer por mim, eu quero fazer aquilo, eu quero acordar cedo e ir lá te ajudar no meu mais profundo eu; e do meu amor eu vou acessar o seu amor, o que você vai fazer com que eu te dei, pra mim, de verdade, não importa. O que importa é o que eu fiz, eu te entreguei, e se isso te tocou, você pode fazer isso por alguém também, e tocar o mais profundo eu; e desse jeito que a gente se torna uma pessoa só … porque todo mundo fala: Somos todos um, mas é quando você olha para você que consegue acessar o outro, sabe? Isso é a primeira coisa que digo quando um voluntário chega no instituto: não faça pelo outro, faça por você mesmo. Não faça pela pessoa – faça por você. Primeiro a pessoa se assusta, porque é muito mais bonito e mais fácil dizer “olha o que eu estou fazendo por ele..” não, não…

PRRF: porque é heróico…

RQ: É, é bonito.. não, não: eu estou fazendo por mim,… se é por mim que eu vou lá na África buscar uma pessoa para eu cuidar, então é por mim… entende? E quanto à pergunta… eu queria uma coisa que eu realmente pudesse fazer.. eu ficava pensando.. que pergunta que vou fazer? Qual é o teu sonho? Mas eu não vou conseguir realizar um sonho… O que eu posso fazer por você? Mas quando? E aí eu pensei “O que eu posso fazer por você AGORA?” Aí fechou. Foi o dia em que eu falei é isso… E eu tento, tento tudo, tudo que as pessoas me pedem eu tento muito, te digo que 98% das coisas eu consigo…

PRRF: o que você não conseguiu e te deu maior frustração?

RQ: nossa eu estou pensando porque … a gente consegue… (risos) quando não consigo, automaticamente eu entendo que aquela pessoa não estava preparada para receber… pedir é muito difícil, né… eu estou aprendendo a receber… mas sabe, às vezes me dá a ira do movimento, porque o que faz o projeto é a ira do movimento, eu vou atrás, eu descubro, eu movimento tudo e nunca pensei em desistir.. dezenas de pessoas já disseram “eu vou te ajudar, me paga quando você puder”.. aí me ajuda, e em seguida vem “olha, estou precisando receber” … mas então.. eu ainda não tenho.. enfim, são muitas decepções pelo caminho sabe, muitas. Só que desistir nunca foi uma opção – não tem. Sabe, nas jornadas as pessoas me ajudam, tem 10 voluntárias hoje; eu recebo o pedido, defino que a gente vai fazer primeiro, então eu posto para uma das pessoas que são as minhas companheiras do caminho… e ela toca. E eu ainda acho que eu faço pouco, a gente precisa fazer mais. Enfim, tem outros projetos de maior impacto social que vão acontecer, porque hoje tudo que a gente pede nas redes sociais, a gente consegue… a história da Deusa, que há 20 anos procurava a mãe dela – na verdade ela nem procurava porque nem sabia por onde começar – então falei – bom, vamos começar! Mandei três mensagens, as pessoas começaram a se conectar e aí aquele post se chamou 5 graus de separação… na verdade, para mim os 5 graus de separação não é mais uma teoria, é a prática; é a pratica que eu vejo no meu dia a dia.

PRRF: Você tem uma relação com a televisão; com a mídia, a pergunta é a seguinte: como é que a gente ajuda – porque a mídia é feita de gente, existe gente por trás da mídia – como é que agente ajuda a mídia a parar de atrapalhar o ser humano? A parar de dizer para o ser humano que ele é ruim, parar de mostrar só o pior dos seres humanos o tempo inteiro? Parar de estimular que o ser humano não tenha lealdade por ele mesmo? O que eu procuro fazer é sempre dizer olha: pare de vender essa ideia tão ruim sobre o ser humano para ele mesmo… nessa tua vivencia, como você vê isso?

RQ: Sim, bom, sabe que eu não tenho mais televisão em casa, não tenho TV a cabo, eu quis sair um pouco. Mas é a ação, é o exemplo, a inspiração. Eu sou muito mais de agir que falar. É a pessoa olhar para o que eu faço e que milhares de pessoas estão fazendo. Quando eu vejo pessoas fazendo coisas positivas por outras pessoas eu agradeço. Eu falo que bom que você está aqui fazendo isso…assim, somos todos mesmo um. Eu estou vivendo nesse mundo, este mundo onde as pessoas olham e as pessoas querem fazer o bem. Como eu não tenho TV, eu não sei o que eles estão mostrando, eu sei o que eu estou fazendo, tanto que é muito curioso, porque não me importa também a pessoa me julgar, para mim não importa.. eu continuo.. pessoas chegam pra me ajudar, saem, chegam, saem.. eu continuo no meu caminho. E eu não tenho tempo a perder. Com relação a mídia, eu não sei o que te dizer, porque não estou nesse mundo. Eu quero movimentar a ira do agir e hoje a gente tem a internet e os youtubbers que hoje são as grandes estrelas; eu estou um pouco fora, de verdade, desse mundo. Eu fiquei muito traumatizada porque fiz novela… outro dia um caraa me perguntou “você pensa em voltar a atuar? “Eu disse não, pelo bem da humanidade não, eu era uma péssima atriz … eu fiz uma peça muito boa porque as pessoas que estavam comigo eram muito boas e muito generosas, o Marcos Caruso, a Regina Duarte e a Gabriela Duarte – por eles, a peça foi muito boa e a gente se uniu ali; mas eu não gostava de mim como atriz, principalmente na televisão. Mas tudo isso que eu fiz, a vida estava me preparando para algumas coisas que eu tinha de fazer. Ela prepara a gente todos os dias para alguma coisa; e ela continua me preparando para alguma coisa que eu não sei o que é… mas eu movimento, eu vou, sem pensar.

PRRF: como a vida tem te preparado agora?

RQ: Com uma certa dose de dor, na verdade. Umas porradas às vezes, que eu levo. Tem dias que eu só queria colo, sabe? Para dar uma deitadinha e chorar. Mas isso de aprender comigo mesmo, isso de chegar em casa e ser eu, eu com 3 crianças pequenas que você viu, eles demandam muito; eles te preenchem também, de alguma forma; mas eles demandam muito… essa solidão de viver com eles e com o projeto e com muitas porradas, sabe, os processos que estou vivendo, processos judiciais e processos de autoconhecimento… deve estar vindo alguma coisa bem grande por aí.. porque a dor está … bom, às vezes dá uma canseirinha.. sabe?

Dias depois desta entrevista, Renata recebeu o convite para apresentar-se no TEDxSãoPaulo; fechou algumas participações importantes em grandes eventos e foi convidada para gravar um especial que vai ao ar no Dia de Natal pela Rede Globo. Ao que parece, a vida a segue preparando grandes surpresas para ela.

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