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Cássio Zanatta

Cássio Zanatta has 132 articles published.

Badalando

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Cinco horas da madrugada, dizem as badaladas do sino da Matriz. Então acontece do cidadão abrir o olho, tão somente um, e se perguntar: espera aí, bateu cinco ou seis horas? O vento levou o som de um ou outro toque e dificultou o entendimento. Ainda está escuro. Mas como é inverno, seis da manhã costuma ainda ser noite. E agora? Continuar sonhando ou pegar o caminho da roça? Voltar a me enfiar nas cobertas ou lavar o rosto com a água gelada de doer que sai da torneira nessa época?

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Onde mora o sabiá

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Cinco da manhã, o dia nem nasceu e um sabiá desandou a cantar nas redondezas.

Pronto. Cronista deve ter fixação por sabiá. Vira e mexe, catapimba: lá vem o bicho na história. Por que sabiá e não tico-tico? Ou gambá, muriçoca? Discriminação pura. Fora que vira tudo pastiche do velho Braga. É muito descaramento. Mas o que eu vou fazer se na verdade um sabiá desandou a cantar, ué?

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Vai fazer frio

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Estão prevendo muito frio para o fim de semana. Mínima de 6 graus, chuva, ventos e o escambau. Preciso checar minha provisão de porto, conhaque, meias grossas, livros e se meu cachecol não está com cheiro de mofo.

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Sem banana

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– Sua salada de frutas, senhor.

– Obrigado, que mara… mas péra aí: cadê a banana?

– Como, senhor?

– A banana, não tem banana? Estou vendo algumas frutas aqui (aliás, não muitas), mas não estou vendo banana.

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Por você

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Por você eu largaria os vícios, deixaria essa preguiça aperfeiçoada por décadas, meus troféus inúteis e até minhas camisetas que já eram velhas há vinte anos.

Por você eu decepcionaria o horóscopo, mudaria meu destino e faria o pessoal descrer de vez das cartomantes. Minha determinação seria maior do que tudo que o amor na casa em Saturno reservava aos librianos.

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A professora de ioga me decepcionou

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Caminhando na avenida, vi uma pessoa conhecida à minha frente: a professora de ioga. Não é minha professora, não faço ioga, eu a conheço vagamente, é uma moça sempre sorridente e em seu andar parece ensinar o equilíbrio ao mundo. Eu a sigo a uma distância de uns 20 metros, mas na verdade é muito mais: como uma pessoa evoluída, ela está anos-luz à minha frente.

Mordo de inveja de quem pratica meditação, busca o equilíbrio interior, uma consciência mais elevada. Não me arrisco porque já cheguei uma pessoa francamente desequilibrada e o tempo só fez aumentar os vacilos. Tenho um certo pudor de algumas coisas, sentar no chão, acender incensos, repetir mantras, essas coisas. E não tenho orgulho algum dessa limitação.

O fato é que a professora de ioga me decepcionou. Primeiro, ela parou numa banca para apreciar uma revista de receitas. Não eram receitas de uma vida superior, mas de doces para festas. Fui conferir assim que ela seguiu seu caminho, que sou curioso que é um negócio. Quer dizer que nossa professora no fundo é uma festeira, dessas que comem os brigadeiros antes da hora do parabéns? O que um olho de sogra teria a ensinar a uma pessoa assim evoluída? No fundo, será que a professora de ioga de vez em quando manda às favas a meditação para se chafurdar numa bandeja de quindins?

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Ninguém trabalha, não?

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A agência está bombando. Faço uma pausa no trabalho e vou até a janela. Espio a avenida, centenas e centenas de pessoas passam pela calçada. Sério: é uma multidão andando pra lá e pra cá. São três e vinte da tarde. Como é que tem tanta gente andando na rua a essa hora?

Esse povo não tem nada o que fazer? Por que veste uniforme, avental, terno e gravata, roupas de trabalho? Não devia estar nas salas de aula, nos escritórios, em reuniões, firmas, repartições públicas, hospitais ou até em casa, que tocar uma casa dá um trabalho danado?

Não. Parece estar todo mundo na rua. Fazendo o quê? Vamos lá: compras. É preciso comprar o guarda-chuva que vai chover, alface e tomate para o jantar, a pasta de dentes, o pó de café, a aspirina, o presente para o aniversariante. E depois, alguém tem que pôr o dinheiro para circular e a economia para funcionar. Justo. Mas e aquele ali, paradão, nem andar ele anda, fica só ali, mirando o movimento. A desculpa das compras não cola no moço.

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Vou morar aqui

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Será preciso combinar com Beatriz, claro. Pesar as coisas, contornar os contras (que serão poucos) e tomar uma boa leva de providências. Não digo que será para sempre, mas em minha vida algo vai ficar faltando se eu não vier morar aqui.

Certo que sentirei falta dos irmãos e amigos próximos. Mas minha casa estará sempre aberta para que eles venham. Maria e Pedro não estão na idade dos refúgios, mas das descobertas, querem se lançar, não se recolher, por isso talvez venham apenas umas três vezes por ano. Eu os entendo. Encontrarão camas prontas.

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O helicóptero sobre o cemitério

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 Não tinha qualquer intimidade com o falecido. Beatriz, sim, e estava mais silenciosa que de costume. Acompanhei-a ao enterro, programinha para lá de divertido. Sei que estou parecendo um tanto frio, mas estar nesse lugar já me doeu tanto, deixa eu descontar um pouco.

Eis que surge o helicóptero sobre o cemitério. Um helicóptero sobrevoando o cemitério, vale repetir. Paira no ar, como é próprio desses bichões, levantando uma nuvem de poeira e um barulho dos diabos. Desculpem se eu ofendi alguma alma sensível falando em diabo. Aliás, não melhorou muito falar de alma em cemitério – mas hoje vocês estão um poço de sensibilidade, hein?

Algum amigo do falecido começou um sermão. Já não se ouvia bem antes, com o helicóptero barulhando ficou pior. Não que ele estivesse parado bem em cima da gente, não. Mas, mesmo longe, queria ser ouvido, o danado.

Penso na abertura de Apocalipse Now, um filmaço do Francis F. Coppolla. Aquela fusão do som do helicóptero com as pás do ventilador no teto do hospital. Você assistiu a ele, não, irmão falecido? Não? Já acho que deveria ter havido um dia a mais para que você o fizesse.

Poucos contrastes são maiores do que um choro sentido versus o som de um helicóptero. O que faria ele ali? Haveria uma chuva de pétalas de rosa em homenagem ao morto e ele errou o local do túmulo? Estaria só esperando o fim do sermão para uma panorâmica? Por que rosas e não margaridas? Questões vitais (estou impossível hoje). O falecido desconhecido que não se ofenda e me venha puxar minha perna de noite, morro de medo dessas coisas.

Falando em medo: é o helicóptero da polícia. Estaria atrás de algum bandido, que depois de roubar um banco veio se esconder no cemitério? E toda essa gente compungida, correndo risco de vida – tirando o falecido, parece óbvio. Imagine o estrago que o meliante faria, fingindo emoção, abraçando um por um, só para bater suas carteiras? O falecido que vá de noite puxar a perna dele, ora essa.

O helicóptero sobre o cemitério. Estranho. É desses cemitérios gramados, não há túmulo ou capela onde um ladrão possa se esconder. E se for a polícia que está se protegendo, buscando no silêncio do cemitério abrigo contra os perigos da vida lá fora?

Os coveiros terminam seu trabalho, há as despedidas, vamos embora, os convictos, teimosos, insistindo na vida. O helicóptero fica no ar, imóvel. Uma hora ele também há de partir. Todos temos que ir um dia, como o falecido desconhecido.

No fundo, tenho pena dele. Justo seria que todos deixássemos esta vida numa hora quieta, calma, no máximo, com uma sonata ao piano tocada mansamente, e não ao som metálico de um helicóptero. Merecemos partir no silêncio, no recolhimento, só quebrado por alguns suspiros, algum choro, sem ao menos ouvir nem temer o zumbido de um marimbondo.

Dúvida existencial na sorveteria

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O sujeito chegou no balcão da sorveteria, dessas que oferecem mais de 100 sabores, olhando para o painel, saboreando sua dúvida. O atendente veio com aquela animação toda e perguntou: “Oba. Já escolheu?” Foi quando ele empacou como uma mula velha diante de tantos sabores.

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Sou um idiota

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Idiota, do grego idiótes. Uma pessoa leiga, despreparada, sem habilidade. Com o passar dos tempos e o espalhar dos continentes, seu significado passou a designar uma pessoa tola, parva, tapada, estúpida. Eu não faria feio em qualquer dos significados.

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