“Autoconhecimento tem de ser política pública”

em Coluna por

Paulo

“Autoconhecimento tem de ser política pública”

Sri Prem Baba, líder mundial de uma das maiores e mais antigas tradições espirituais da Índia, foi entrevistado com exclusividade para o The São Paulo Times pelo colunista Paulo R. Ferreira. Prem Baba falou no último TEDxSãoPaulo.
Sri Prem Baba, líder mundial de uma das maiores e mais antigas tradições espirituais da Índia, foi entrevistado com exclusividade para o The São Paulo Times pelo colunista Paulo R. Ferreira. Prem Baba falou no último TEDxSãoPaulo.

Prem Baba chegou ao auditório do MASP no intervalo para o terceiro bloco de palestras do TEDx; no qual estava agendado para falar. Sentou-se na primeira fila; pareceu extremamente à vontade e concordou imediatamente em conceder a entrevista exclusiva após o evento, numa sala reservada. Assistiu todas as palestras e participou de todas as atividades com uma simplicidade e simpatia cativantes. O público em São Paulo não parecia particularmente consciente do fato de que estava na presença do brasileiro que mais alto chegou numa tradição religiosa milenar que tem centenas de milhares de adeptos em todo o planeta e movimenta mais de dez mil seguidores diretos.

Sri Prem Baba (Sri é um título equivalente a “senhor”; Prem significa amor e Baba significa “pai” ou seja, numa tradução livre, seu nome ou título na tradição Sacha seria algo como “Senhor Pai do Amor”) ou simplesmente  o Baba, como é chamado pelos seus seguidores, falou no último TEDx de 2015 na cidade de São Paulo, sendo precedido no palco por um trio que mistura música clássica com pop eletrônico, criando um clima tão solto e descontraído quanto agitado, muito diferente do que costuma acontecer em seus encontros (chamados Satsangs); onde costuma ter ao menos uma hora de mantras e músicas relaxantes para levar as pessoas a um estado de calma e atenção para ouvir.

De todo modo, assim que o Baba ocupou o palco e as luzes baixaram, a força de sua presença trouxe ao auditório um silêncio de uma profundidade e atenção que raras vezes se percebe num grande evento (não-meditativo). A sensação replicou o silêncio devocional que se percebe nos Satsangs do Baba (nos quais este colunista já esteve por diversas vezes).

O Baba falou sobre a necessidade de fazer nascer em cada um a honestidade e os princípios que desejamos ver no mundo, o compromisso fundamental com a transparência para realizar vidas verdadeiras, autênticas, que produzem o bem-estar e a felicidade; plantando as sementes de um mundo mais amoroso e pacífico. No silêncio da sala, era fácil perceber o quanto esses conceitos, quando colocados como Idéias Empreendedoras, mexeram profundamente com a visão tradicional do que já foi definido como “empreender”.

A seguir, a transcrição da entrevista exclusiva:

Paulo Roberto Ferreira: Baba, falar no TED, num evento com um clima tão diferente da tranqüilidade dos seus Satsangs, como é isso?

Foto: Reprodução
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Sri Prem Baba: É uma experiência nova, e eu decidi me abrir para essa experiência nova. É um momento que se faz necessário democratizar a comunicação e fazer com que o conhecimento chegue através de diferentes canais e de diferentes mídias. Sinto que é o meu sacrifício para o mundo, é o meu amor é a minha compaixão que faz com que a gente tente estar em todos os lugares , independentemente da forma; mesmo que seja diferente da minha forma de trabalhar natural…

PRF: Quem acompanha especificamente o seu trabalho, ou as tradições indianas de um modo geral, nota que ultimamente há muitos conceitos e idéias de autoconhecimento e cultura de paz que estão se incorporando ao discurso de diversos empreendedores; ideias que fazem parte da sua tradição, por exemplo, há muito tempo. Como você vê isso?

SPB: Eu fico muito feliz. Eu sinto que isso é já um florescimento da semente que eu venho plantando; eu e muitos outros mestres espirituais ao longo de tanto tempo. Eu sinto que é já um resultado desses esforços e isso me deixa muito satisfeito e muito feliz.

PRF: Estamos no TEDxSãoPaulo e você viveu na cidade de São Paulo vários anos. Como é a sua relação com São Paulo hoje?

SPB: Hoje em dia em fico muito pouco tempo aqui em São Paulo, mas eu sinto que é um lugar muito especial; porque ao mesmo tempo em que acontecem tantas oportunidades de crescimento e de fomentação e de todo tipo de sabedoria, é um lugar que carece também de muita luz; devido exatamente a essa intensidade de emoções. A mente coletiva é muito carregada devido à própria densidade demográfica. A organização da cidade carece de amor… ela carece de suavidade; então eu tenho dado meu melhor por São Paulo. Eu gostaria até de dar mais por São Paulo, mesmo nos poucos momentos que eu passo nesta cidade.

PRF: Falando então de um lugar bastante diferente de São Paulo: como está o trabalho em Alto Paraíso; e a criação do Ashram lá? (Desde 2014 Prem Baba tem feito temporadas na cidade de Alto Paraíso de Goiás, 260km ao Nordeste de Brasília. Muito comentou-se sobre a possibilidade do Brasil tornar-se a sede mundial da Tradição Sacha. Nesta entrevista, o Baba afirma publicamente que Alto Paraíso se tornará sua sede mundial)

SPB: Nós temos um Ashram (local para retiros), em Nazaré Paulista, a 1 hora de SP aproximadamente; mas ficou pequeno; então estamos nos movendo para Alto Paraíso de Goiás, onde eu sinto que acabará sendo a sede mundial do nosso trabalho. Tem sido maravilhoso, é um lugar realmente muito especial; muito mágico. As águas, as cachoeiras, aquele cerrado, aqueles cristais… é um lugar que está realmente recebendo muito bem a minha proposta de trabalho , eu me sinto encaixado lá, me sinto totalmente em casa. Então quando estou lá eu não tenho vontade de ir para canto nenhum… (risos)… por isso que eu tenho vindo muito pouco a São Paulo e a outros lugares também. Está chegando um tempo que eu vou tentar diminuir um pouquinho as viagens e ficar um pouco mais lá em Alto Paraíso.

PRF: eu acompanhei vários Satsangs seus lá e senti muito isso, esse aspecto de sentir-se em casa

SPB: Na verdade o mundo é a minha casa, eu me sinto bem em todo lugar. Mas tem ali um lugar onde eu me sinto completamente encaixado. Eu tenho a Índia, onde eu passo de 4 a 5 meses do ano em Rishikesh; e agora, Alto Paraíso; que eu espero que seja o meu segundo lar, um dos lugares onde eu me sinto realmente completo.

PRF: Isto é bem entendido em Rishikesh, que é a sede da tradição?

SPB: Tão bem entendido que eles têm vindo me visitar, passar temporadas comigo, não é? Eles estão amando o Brasil, estão amando Alto Paraíso e tem já uma fila de pessoas querendo vir para cá passar uma temporada. Eu sinto que é natural, até mesmo em respeito à tradição. Isso foi uma transmissão passada pelo meu mestre espiritual; ele disse para eu ficar um temporada na Índia e uma temporada no Brasil; e isso está realmente se configurando

PRF: Você falou dessa transformação e no nosso papel de plantar sementes de autoconhecimento; e que este evento é um florescimento dessa transformação. Você é otimista em ver o jardim num tempo não tão longo?

SPB: Eu sou extremamente otimista (risos) … eu tenho uma fé muito grande no ser humano, uma fé inquebrantável no amor, então eu sinto que tanto quanto é possível ver esse florescimento aqui no TED; também tenho visto em muitos lugares. Ao mesmo tempo em que nós temos vivido ameaças reais de destruição e isso é um fato, estamos passando por um momento crítico da nossa jornada evolutiva, ao mesmo tempo temos oportunidades raríssimas de evolução. Oportunidades de um salto quântico na nossa jornada. Essas duas coisas estão acontecendo simultaneamente, então, eu prefiro enxergar o copo meio cheio… (risos)

PRF: Num certo sentido é uma polarização, uma parte cada vez melhor e uma parte não necessariamente tão bem?

SPB: É assim que eu estou vendo esse ciclo do tempo. Os contrastes estão mais nítidos e mais visíveis. O preto mais preto e o branco mais branco

PRF: Isso é de se esperar?

Foto: Reprodução
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SPB: sim, isso era esperado. Nossa tradição espiritual, chamada Sacha, vem evocando esse momento há milênios. Nós o chamamos de Parivarta. Parivarta é a grande transição planetária onde a gente procura criar uma Era de luz e de amor dentro dessa era de trevas e ignorância. Então nós forjamos os alicerces dessa era já há muito tempo; isso está completamente dentro dos planos; pelo menos dentro dos planos da nossa linhagem. Nós já esperávamos por isso.

PRF: Então apesar do sentimento de crise, você observa nisso algo a ser, praticamente, celebrado?

SPB: com certeza esperado. Porque nós entendemos a crise como sintoma da transformação. Algo velho está morrendo. Essa morte, ela é desafiadora; estamos falando de desapego de crenças e hábitos profundamente enraizados. Nós temos de dar passagem para um novo capitalismo; para uma nova economia; uma nova política; um novo sistema educacional, com base na consciência amorosa; com base em valores humanos. Se faz necessária uma profunda transformação, porque nossa mente está muito condicionada ao egoísmo; ao ódio; ao medo. Então, realmente estamos celebrando essa oportunidade de crescimento; entendemos essa crise como sintoma da transformação e ao mesmo tempo como oportunidade de um salto quântico na jornada evolutiva.

PRF: Um dos pontos citados na sua fala e também de outros palestrantes é a questão do medo; o medo como gerador e produto de um condicionamento cultural que não nos preparou para a colaboração; nos preparou apenas para a visão competitiva. Como é que se conserta isso?

SPB: Exatamente. Nós estamos falando de pelo menos 10 mil anos de história. A nossa humanidade tem sido conduzida pelo medo e conseqüentemente pelo ódio, porque onde existe medo existe ódio também; eles sempre caminham juntos. Ainda somos conduzidos pelo medo.
Se formos observar; nossa economia é conduzida pelo medo da escassez e isso gera competição, gera disputa e necessidade de acúmulo; consumo irresponsável e todos os desdobramentos disto que estamos vendo aí. Essa crise ambiental; essa crise em todos os segmentos da nossa sociedade. Eu tenho ensinado que esse medo precisa primeiramente ser conhecido. Precisa ser acolhido e compreendido, para que ele possa ser transformado. Assim como o ódio e todas as outras matrizes da natureza inferior. O mal precisa deixar de ser temido. Precisa ser olhado de frente; precisa ser compreendido. E na medida em que nos permitimos olhar e compreender; nós vamos entender que é um mecanismo de defesa criado para nos proteger de choques de dor; choques do próprio desamor; choques de humilhação; choques de exclusão; de abandono e de rejeição. Por conta disto, acabamos desenvolvendo esses mecanismos que só tem gerado destruição da nossa vida e do próprio planeta. O processo de transformação do medo em confiança; do ódio em compaixão, do estado de isolamento para a experiência da unidade; vem exatamente olhando de frente para essa sombra. Até agora nós não tivemos maturidade suficiente para realizar esse processo de transformação. Não tivemos maturidade de aceitar as nossas imperfeições, olhar para elas, encontrar de onde elas vêm e transformá-las.
Hoje eu sinto que nós estamos começando… começando a estar preparados para iniciar este processo de transformação do medo em consciência.

PRF: e nesse processo é que entra a jornada de autoconhecimento que pode transformar o que fazemos no mundo, seria isso?

SPB: exatamente. Eu compreendo que o autoconhecimento é a única possibilidade para realizar esta transformação que queremos ver no mundo. Porque a gente fala muito a respeito daquilo que queremos ver no mundo; fala muito a respeito do que pode ser feito. Nós temos até visto alguns exemplos, algumas possibilidades, algumas direções estão sendo apontadas. Porém o processo de transformação é intrincado, nem todos conseguem explicar como ele se dá. E ele se dá através de uma metodologia de autotransformação; onde o autoconhecimento é a base. Então eu tenho insistido no ponto que autoconhecimento tem de se tornar política pública! Tem de fazer parte do currículo do MEC! Precisa estar presente em todas as instituições. É meu sonho que um político passe por um processo de autoconhecimento, nem que seja fazer terapia, antes de se candidatar. Um empresário que está realmente tendo a sabedoria de empreender e prosperar, seria fabuloso se ele pudesse se conhecer para poder transformar esses valores dentro dele, para que essa prosperidade possa chegar a todos; ser um instrumento de riqueza para todos.

PRF: Esse caminho do autoconhecimento é múltiplo? Naturalmente, a sua tradição é um caminho de autoconhecimento extremamente profundo; mas existem outros caminhos e outros meios para realizar isso, para alguém que não esteja necessariamente interessado numa tradição espiritual? Como você vê isso?

SPB: Eu acho maravilhoso! Todas as formas são válidas. Eu não estou dizendo que o meu caminho é o único; não, muito pelo contrário! Eu estou apenas incentivando o autoconhecimento, independente de qual escola ou qual caminho. Independentemente de qualquer tradição; religião; classe social ou etnia, o que importa é que essa busca por aquilo que é real, por aquilo que nunca morre, possa realmente acontecer. Onde quer que você esteja, comece.
E comece da forma mais básica, mais simples que independe de qualquer tradição ou de qualquer coisa que venha de fora; que é você dedicar, nem que seja um único minuto do seu dia para o cultivo do silêncio. O silêncio é a ponte; o silêncio é completamente puro, assim como o amor, que é completamente puro. Eu realmente faço parte de uma tradição espiritual, represento uma linhagem espiritual … mas o amor não. O silêncio não! (Risos) Então, comece a se mover em direção ao amor, através do cultivo do silêncio. Nem que seja por um único minuto no seu dia; pare tudo, pare tudo; deixe o seu celular de lado, feche os olhos e fique quietinho, em silêncio, se observando. Esse é o início da jornada.

PRF: você tem tido muitos contatos com lideranças de comunidades, cidades, estados e acredito que até de países… este aspecto que você ressaltou, que o autoconhecimento tem de se tornar política pública… você enxerga isso “a caminho”?

SPB: veja bem, eu tenho até me surpreendido com a receptividade de algumas lideranças. Eu tenho sido muito bem recebido em algumas cidades pelas quais eu tenho passado e eu vou lhe dizer que eu tenho sido ouvido, eu tenho sido ouvido. Então, com isso eu tenho alimentado uma esperança que eu acredito que seja uma esperança real, com base nessa minha percepção, nessa minha intuição, com base no que eu tenho percebido nesses encontros. Pode demorar um tempo que eu não posso precisar quanto, mas eu vejo que realmente nos próximos dez ou vinte anos muita mudança vai acontecer no mundo e especialmente no Brasil.

PRF: Falando especificamente do Brasil: esse mar de lama; tanto real, quanto moral, que a gente atravessa hoje, é expressão também dessa polarização? São a escuridão e a luz nos seus extremos?

SPB: Realmente, a escuridão está vindo para fora, a lama está vindo para a superfície. É impressionante, e a cada dia nós nos chocamos mais e mais com a miséria, com o horror, com tanta mentira e tanta desonestidade, com tanta corrupção. É lamentável, é triste e ao mesmo tempo é maravilhoso, porque faz parte desse processo de cura! Como é que nós vamos iluminar uma sala, se não temos consciência de que ela está no escuro? Como é que vamos acender o interruptor para acender a luz da sala, se nós não temos consciência de que ela está escura? Essa conscientização é fundamental para o processo de cura. Ao mesmo tempo em que é horrível; é maravilhoso, é maravilhoso, é uma grande bênção.

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Paulo Roberto Ramos Ferreira é Coach e Terapeuta Transpessoal; Membro da ONG Terapeutas Sem Fronteiras e Conselheiro do Nikola Tesla Institute e autor do livro O Mensageiro – O Despertar para um Novo Mundo. © 2015.

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