-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-

Badalando

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Cinco horas da madrugada, dizem as badaladas do sino da Matriz. Então acontece do cidadão abrir o olho, tão somente um, e se perguntar: espera aí, bateu cinco ou seis horas? O vento levou o som de um ou outro toque e dificultou o entendimento. Ainda está escuro. Mas como é inverno, seis da manhã costuma ainda ser noite. E agora? Continuar sonhando ou pegar o caminho da roça? Voltar a me enfiar nas cobertas ou lavar o rosto com a água gelada de doer que sai da torneira nessa época?

Mas, como sempre faz para tirar de vez qualquer dúvida, após alguns segundos o sino repete as badaladas. E esclarece: cinco horas. É o que classificamos como uma informação precisa quando mais precisamos dela, uma das contribuições de São José para o sossego e bem-estar do mundo. Então o cidadão vira para o outro lado, encosta no travesseiro um pequeno sorriso e volta a babar que ainda falta uma hora.

Isso se algum galo entusiasmado não desandar a cantar nas redondezas. Ou um curiango na goiabeira do quintal não insistir nos últimos cantos da noite, na esperança de conseguir uma fêmea – deveria saber que, à essa hora, as curiangas de bem não estão mais na rua, dando bola para cantorias e cantadas, o goiabão.

Talvez o carroceiro, que às quatro já está de pé, passe cantando debaixo da janela. Em mais uma prova da superioridade de São José, o carroceiro vai montado na carroça. Quem faz força para puxar é um cavalo meio pangaré, diferentemente das grandes cidades, em que é comum a gente ver a desumanidade de gente puxando carroças.

Há ainda o som ritmado e metálico das patas do cavalo no asfalto. Que é extremamente útil para valorizar o silêncio que volta quando ele passa.

Alguém raspa a porta da cozinha. A primeira coisa que isso quer dizer é que seu ouvido é bom, para do quarto escutar som tão discreto. Muito cedo para a empregada chegar ao trabalho. Mais provável que seja o cachorro querendo entrar. Se for a empregada, logo o cheiro de café vai penetrar no quarto. Se for o cachorro, quanto mais demorar, maior a festa. Motivos decisivos para não ter pressa de levantar.

Os primeiros carros já sobem sua rua. É uma ladeira razoável, e exatamente em frente à casa os motoristas são obrigados a reduzir a marcha e acelerar para vencer a subida. Para alguns, esse barulho seria motivo de exasperação. Ele não: é o progresso, a roda do mundo tem pressa e é preciso pôr tudo em marcha. Mas não sabia se pensava mesmo nisso, se era parte do enredo de um sonho ou a opinião do travesseiro.

Porque quem perdera o sono e, acordado, pensava bobagem era o cronista, o sujeito não: dormia seu sono de paz. O pessoal aí que se sacudisse e pusesse a coisa para andar.

Até o sino da Matriz dar as seis horas. Para alguns segundos depois, repetir a informação.

loading...
Tags:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

*

Últimos de Cássio Zanatta

A Terra é cinza

– A Terra é verde! Revelou ao mundo Yuri Gagarin, há quase

Bouchonné

– Não está bom. E devolveu com uma careta a taça sob

Aqui se faz

O preço a pagar pelas coisas anda alto demais. Dizem os entendidos
Voltar p/ Capa