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Bouchonné

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Não está bom.

E devolveu com uma careta a taça sob a mesa. O garçom, atônito, congelado com a garrafa na mão:

– C-como?

Sem se alterar, o homem diz:

– Está alterado. Bouchonné.

O garçom, segurando a garrafa como se segurasse uma granada que perdera o pino, só consegue dizer:

– Vou chamar o sommelier, senhor.

O vinho não era caro. Um vinho caro está na faixa dos 120, 180 reais. Também não era um muito caro. Um muito caro custaria uns 300, 400 reais. Aquela garrafa passava dos 1.000. Daí o efeito que a frase do cliente causou no restaurante, como se alguém tivesse irrompido à porta, gritando: “Corram! O meteoro está próximo!” Como um meteoro verdadeiro, o sommelier logo se apresentou à mesa, procurando se manter cortês:

– Pois não, cavalheiro.

– Sinto muito, mas o vinho está alterado.

– Às vezes os borgonhas mais velhos são tão complexos que parecem estar alterados – tentou um sorrisinho superior.

– Desculpe, senhor, mas estou familiarizado com borgonhas mais velhos, não é o caso deste. Este passou, está intomável. Bouchonné.

O sorrisinho superior murchou: o cliente não só parecia um conhecedor, como lascava um francês. Tentou não perder a pose:

– O senhor permite que eu experimente?

– Claro. Vá em frente. O senhor é um profissional sério. Verá que o vinho está intomável. Vraiment bouchonné.

O homem serviu cuidadosamente o vinho na taça, examinou-o contra a luz, agitou a taça suavemente, fez lá uns salamaleques, levou-o ao nariz, aspirou o vinho, voltou a girar a taça, aspirou novamente, encheu a boca com um gole, fez uns estranhos movimentos envolvendo lábios e bochechas enquanto aspirava o ar, bebeu e, após segundos de expectativa, deu seu veredito:

– Me parece perfeitamente normal. Um pouco translúcido devido à idade, mas com taninos firmes, retrogosto acentuado e com todas as características de um típico pinot. Talvez se o decantarmos, deixando descansar um pouco…

– Não acredito que vá se salvar. A rolha foi vazada. Está úmida. O vinho vinagrou. Bouchonné.

O dono do restaurante, percebedo a tensão e o impasse, se aproximou da mesa e calmamente disse ao cliente:

– Lamento pelo transtorno, cavalheiro. Sua palavra é a última. O vinho não está do seu agrado e isso é tudo. Não se preocupe: vamos providenciar outra garrafa ou, se quiser pedir outro vinho, esteja à vontade.

O homem olhou para o sommelier, com a expressão segura de quem venceu a batalha. E, como que agradecendo a decisão do proprietário, pediu outro vinho, ainda mais caro que o primeiro. Vejam: um vinho caríssimo passa dos 1.000 reais. O preço desse novo não vamos revelar em respeito às almas sensíveis.

O ritual foi refeito com toda a pompa e respeito, e o vinho foi servido. Mas agora, o homem o provou e, depois de fazer o universo parar por alguns segundos, cravou:

– Excelente.

A vida seguiu em paz no Hemisfério Sul. O homem bebeu seu vinho e comeu sua comida. Aliás, demorou para fazê-lo, na verdade foi o último cliente a deixar o restaurante.

Pagou a conta (já dissemos que não vamos revelar os valores) e já se preparava para sair, quando ouviu tintins e risadas altas. Olhou pela janela que dava para a cozinha e viu: o sommelier, o proprietário, o chef, todo o staff da casa, brindando e bebendo para celebrar o dia de trabalho. A expressão deles era de deleite absoluto com a bebida. Reconheceu a garrafa do borgonha recusado na mão do sommelier.

Levantou-se, vestiu o casaco discretamente e saiu de fininho do restaurante. Um tanto bouchonné.

 

 

 

 

 

 

 

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