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Coluna

Bouchonné

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Não está bom.

E devolveu com uma careta a taça sob a mesa. O garçom, atônito, congelado com a garrafa na mão:

– C-como?

Sem se alterar, o homem diz:

– Está alterado. Bouchonné.

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O cronista alienado

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Ah, tenha dó: é atentado a bomba no metrô de Madrid, sequestro de avião em Moscou, tiroteio em hospital no centro de Bagdá… Nem precisa ir tão longe: aqui mesmo, um garoto entrou na sua escola e matou oito colegas. A tiros de espingarda, golpes de martelo e facadas. Enquanto ria. Me diga: como é que em meio a isso alguém pode escrever sobre ondas, conchas e ventos?

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O menino, o velho e o mar

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Para Zilda Maria da Silva (Dona Nega)

André contou sua história de menino. Teve quem chorou, teve quem duvidou.

André é de Recife. “Do Recife”, como ele diz. Cresceu nas areias da Praia do Janga, de manhã a correr descalço, catando concha, tomando vento, mergulhando nas ondas verdes e bravas; de noite, a aprender com os adultos as danças nas rodas de coco nas noites de lua.

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Aqui se faz

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O preço a pagar pelas coisas anda alto demais. Dizem os entendidos que é a inflação. Mas nossa carência também sofre de carestia?

Alguns dias de férias custam 11 meses de sangue. O coração pode ter que pagar pelo excesso de sustos, cigarro e torresmo. O preço de se apaixonar pode ser um desasossego sem fim. A vergonha onerou o desatino.

Tenho a impressão de estar pagando excesso de culpa, não era para tanto. Caro demais pelos pecados, mereço um desconto por certa gagazice. Mas quando já acho muito, vem alguém e ainda remarca na calada da noite.

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Badalando

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Cinco horas da madrugada, dizem as badaladas do sino da Matriz. Então acontece do cidadão abrir o olho, tão somente um, e se perguntar: espera aí, bateu cinco ou seis horas? O vento levou o som de um ou outro toque e dificultou o entendimento. Ainda está escuro. Mas como é inverno, seis da manhã costuma ainda ser noite. E agora? Continuar sonhando ou pegar o caminho da roça? Voltar a me enfiar nas cobertas ou lavar o rosto com a água gelada de doer que sai da torneira nessa época?

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Onde mora o sabiá

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Cinco da manhã, o dia nem nasceu e um sabiá desandou a cantar nas redondezas.

Pronto. Cronista deve ter fixação por sabiá. Vira e mexe, catapimba: lá vem o bicho na história. Por que sabiá e não tico-tico? Ou gambá, muriçoca? Discriminação pura. Fora que vira tudo pastiche do velho Braga. É muito descaramento. Mas o que eu vou fazer se na verdade um sabiá desandou a cantar, ué?

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Vai fazer frio

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Estão prevendo muito frio para o fim de semana. Mínima de 6 graus, chuva, ventos e o escambau. Preciso checar minha provisão de porto, conhaque, meias grossas, livros e se meu cachecol não está com cheiro de mofo.

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Sem banana

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Sua salada de frutas, senhor.

– Obrigado, que mara… mas péra aí: cadê a banana?

– Como, senhor?

– A banana, não tem banana? Estou vendo algumas frutas aqui (aliás, não muitas), mas não estou vendo banana.

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Por você

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Por você eu largaria os vícios, deixaria essa preguiça aperfeiçoada por décadas, meus troféus inúteis e até minhas camisetas que já eram velhas há vinte anos.

Por você eu decepcionaria o horóscopo, mudaria meu destino e faria o pessoal descrer de vez das cartomantes. Minha determinação seria maior do que tudo que o amor na casa em Saturno reservava aos librianos.

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A professora de ioga me decepcionou

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Caminhando na avenida, vi uma pessoa conhecida à minha frente: a professora de ioga. Não é minha professora, não faço ioga, eu a conheço vagamente, é uma moça sempre sorridente e em seu andar parece ensinar o equilíbrio ao mundo. Eu a sigo a uma distância de uns 20 metros, mas na verdade é muito mais: como uma pessoa evoluída, ela está anos-luz à minha frente.

Mordo de inveja de quem pratica meditação, busca o equilíbrio interior, uma consciência mais elevada. Não me arrisco porque já cheguei uma pessoa francamente desequilibrada e o tempo só fez aumentar os vacilos. Tenho um certo pudor de algumas coisas, sentar no chão, acender incensos, repetir mantras, essas coisas. E não tenho orgulho algum dessa limitação.

O fato é que a professora de ioga me decepcionou. Primeiro, ela parou numa banca para apreciar uma revista de receitas. Não eram receitas de uma vida superior, mas de doces para festas. Fui conferir assim que ela seguiu seu caminho, que sou curioso que é um negócio. Quer dizer que nossa professora no fundo é uma festeira, dessas que comem os brigadeiros antes da hora do parabéns? O que um olho de sogra teria a ensinar a uma pessoa assim evoluída? No fundo, será que a professora de ioga de vez em quando manda às favas a meditação para se chafurdar numa bandeja de quindins?

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Ninguém trabalha, não?

em Cássio Zanatta/News & Trends por

A agência está bombando. Faço uma pausa no trabalho e vou até a janela. Espio a avenida, centenas e centenas de pessoas passam pela calçada. Sério: é uma multidão andando pra lá e pra cá. São três e vinte da tarde. Como é que tem tanta gente andando na rua a essa hora?

Esse povo não tem nada o que fazer? Por que veste uniforme, avental, terno e gravata, roupas de trabalho? Não devia estar nas salas de aula, nos escritórios, em reuniões, firmas, repartições públicas, hospitais ou até em casa, que tocar uma casa dá um trabalho danado?

Não. Parece estar todo mundo na rua. Fazendo o quê? Vamos lá: compras. É preciso comprar o guarda-chuva que vai chover, alface e tomate para o jantar, a pasta de dentes, o pó de café, a aspirina, o presente para o aniversariante. E depois, alguém tem que pôr o dinheiro para circular e a economia para funcionar. Justo. Mas e aquele ali, paradão, nem andar ele anda, fica só ali, mirando o movimento. A desculpa das compras não cola no moço.

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