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Coluna

Tudo inventado

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O que a gente não inventa nesta vida. Inventa conquistas improváveis, feitos de matar herói de inveja, amores que jamais serão, arranca aplausos e suspiros; assim como é protagonista de derrotas vexatórias, dessas de vaias, tomates e safanões – o inventor dentro da gente ora é um hiperbólico, ora um masoquista.

Já marquei gol de placa na decisão do campeonato e só fui abraçado por alguns travesseiros. Tomei impulso com os braços e levantei voo, impressionando todos na calçada. Assim como tropecei na festa chique e caí no espelho d’água, tudo para que ela me desse atenção (o que prova que o inventor dentro da gente também tem suas vezes de idiota).

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Redondamente enganado

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Posso estar redondamente enganado. O que explicaria a teimosia, essa insistência num círculo que sempre leva a um recomeço sem saída. Como se um deus girasse um compasso enferrujado e me pusesse no meio da circunferência, recitando poemas que não saem do lugar para ninguém ler, carrossel sem fim nem sossego.

Ou posso estar triangularmente enganado. Nesse caso, qual lado mediria mais? Equilátero ele não seria, sempre haveria uma dor ou um gozo para contrabalançar. Seria um engano desengonçado, desproporcional. Um lado teria metros; o outro, centímetros e o terceiro teria ido morar em Bombinhas. Com ângulos sem sentido, de uns 37,582°. Um triângulo que irritasse profundamente um matemático, mas inspirasse alguém sem certezas a brincar de gangorra na hipotenusa.

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Essa coisa

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O nome é tão feio que melhor é chamá-la de coisa. Essa coisa que nasceu aqui dentro e quer viver minha vida: roubar minha comida, meus músculos e taras para seu sustento. Uma visita que chega de mala e cuia quando você estava de saída para o cinema. A sensação quando a roda gigante enguiça, sua cadeira para no alto e você fica balangando no ar. Um prato que o garçom traz por engano e insiste em que é seu.

Essa coisa brincando de Pollock no meu cérebro fez da calçada uma pinguela. Das paredes, sustos e alguns roxos. Encheu os pés de formigas e agora toda noite acontece da perna querer sair da perna.

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Claro que a gente pode ir morar no Exterior, amor, mas

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Nesse caso, quem vai colher pitanga no quintal – vai ficar tudo para os tico-ticos e sanhaços? Quem é que vai secar o Corinthians? Onde mais ver casas com parede cor de rosa, terraço amarelo e janela verde, de onde uma senhora com cabelo roxinho fica espiando? Como viver sem Yakult e os lactobacilos vivos? Como resolver a fome atrevida que não respeita horário nem continente, se nas esquinas de lá não tem padaria nem pão na chapa nem broa nem média nem pão de queijo com café de coador, e como é que se vive sem pão de queijo, meu amor?

Dá pra viver sem assistir a uma pelada na praia em que o goleiro foi dar um mergulho e deixou o gol vazio e ninguém chuta no gol enquanto ele não volta, porque há limites para a falta de esportividade?

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A festa de 15 anos

em Monocotidiano/News & Trends por

Monique, que não era boba, mas sabia muito bem fingir quando interessava, entrou na loja logo atrás de sua mãe.

A vendedora, que também não era boba, mas sabia muito bem fingir quando convinha, logo se aproximou com aquele charme peculiar que toda vendedora em fim de mês tem quando quer bater sua meta.

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Crônica boa é no Rio

em Cássio Zanatta/News & Trends por

 Todo mundo conhece um carioca bairrista. Certo, eles já foram em maior número, hoje a coisa anda meio contida, talvez pelo tanto que a cidade anda judiando de sua gente. Quando eu era garoto, a coisa era feia. Não só para eles o Rio de Janeiro era o melhor lugar do mundo (e era quase verdade), como São Paulo era o que havia de ruim e sem graça (e isso não era não).

Para os cariocas da gema fechada numa casca dura de fanatismo, chopp bom era no Rio, vista bonita era no Rio, time bom, idem. Mulher bonita era a carioca, o resto, tudo canhão. Músico, escritor, artista, para ser grande tinha que acontecer por lá. Não adiantava vir com Bandeira, Drummond, Rosa, Graciliano, Jorge Amado, Caymmi, Elis, Adoniran, Lupicinio, Guiomar Novaes, Pelé, Rivelino, Tostão, Portinari, Tarsila, Anita, Carybé: se não fosse carioca ou naturalizado, não prestava.

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A menina comum

em Monocotidiano/News & Trends por

A ideia da Tia Luísa era boa. A brincadeira era simples: cada grupo de crianças deveria escolher uma palavra, ir até a frente da sala e pronunciar a palavra sem emitir som, apenas mexendo a boca.

Aos outros grupos cabia a tarefa de descobrir a palavra escolhida.

Diversão garantida, lá foram os meninos para um lado, as meninas para outro, e as escolhas começaram.

Verdadeiros dicionários mentais sendo revirados na busca da palavra mais dificilmente compreensível.

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Madrugada

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Claro que o vizinho foi ao banheiro. Você pode estar dormindo em um loft em São Francisco, numa espelunca no Irajá, na suite real do Negresco em Nice ou na casa da madrinha Rosa em São José, que o vizinho irá ao banheiro.

Particularmente de madrugada, o vizinho sempre vai ao banheiro – uma, duas, três vezes. Como se, horas antes, tivesse encarado seis xícaras de chá de hortelã ou quinze rodadas de chopp, o que mexe um pouco com seu equilíbrio, já que no caminho o vizinho chuta cadeiras, que arrastam no assoalho, e ainda derruba vasos da dinastia Richter.

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