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Cássio Zanatta

Preciso

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Preciso ir a São José. O tempo aqui é muito apressado. Se eu tivesse ido mais vezes, teria agora 42 anos, no máximo. Longe de São José a vida é atropelo.

Preciso ir porque o céu daqui quase não tem estrela e, quando a Lua cheia nasce, não acorda os galos que cantam, pensando estar nascendo o dia. Porque foi aniversário da madrinha Rosa e eu não pude ir. Porque preciso deixar flores para os meus pais e contar a eles como vão os netos e que aprendi a passar café.

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Sobre a ponte

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Oi, ponte. Olha eu aqui de volta.

Pronto. Agora o sujeito deu para falar com pontes. Não bastasse inventar conversa com passarinho, como se falasse com o pai, agora essa.

Deve ser a emoção de estar aqui de novo. Em 91, bati o recorde mundial de ficar olhando o mundo por esta ponte. Era de noite e fazia um frio do capeta, o que é uma péssima e inadequada imagem. Mesmo assim, encontrei um canto protegido do vento e fiquei horas espiando, pensando na vida.

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No céu não tem facebook

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Certo, é um pensamento besta. Se a gente for mais besta e se embrenhar no assunto, imagina que essas modernidades não devem impressionar muito o povo de lá. Para quem tem a eternidade pela frente, algo de novo é assunto por 300, 500 anos e todos ainda estão maravilhados com a descoberta do avião. E como será que o pessoal faz para aproveitar o tempo? Se para a gente alguns domingos de chuva demoram a passar, imagina ter todo o tempo do mundo. Se ficam a conversar, que tanto assunto eles têm? Há livros no céu? Baralho? Cinema, a obra completa de Victor Hugo, Programa Silvio Santos, War?

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Bem que vocês tentaram

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Dó que eu tenho do ônibus que se esforça em ser desagradável. Faz o possível, se esmera no barulho, na cadeira quebrada, no solavanco em cada troca de marcha, até faz entrar um cidadão que vende aos berros umas capinhas para celular bem mixurucas . Passa no vermelho e quase atropela o cidadão ali que cometia (o sonso) a imprudência de atravessar na faixa de pedestre.

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A Terra do Se

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Fica lá, logo depois de Patos de Minas, e agora estou na dúvida se segue pelo Estreito de Magalhães ou pelo Canal de Suez. Uns dizem ficar na Austrália, outros, na única praia de água quentinha na Islândia, mas há muita interferência e propaganda dos Ministérios de Turismo pelo mundo, o que dificulta a localização com exata latitude e longitude. Mas que existe, ô se existe:

A Terra do Se. O lugar onde todos os “ses” que ficaram na promessa se realizam.

Eta, se aquela bola na trave tivesse entrado. Aqui, neste mundo que insiste em ser ranzinza e econômico em realizar devaneios, não entrou: foi pra fora, nem escanteio o juiz marcou, e a torcida saiu do estádio muda, olhando para o chão e ruminando amendoim. Pois na Terra do Se não só a bola entrou como estufou a rede e a galera fez uma festa de doido, que teria durado uma semana se o pessoal tivesse saúde, mas como estava na Terra do Se e tinha saúde, pique e fígado à beça, a comemoração já entrou no segundo mês.

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No escuro

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Estou numa casa no meio do mato e não há luz. Andaram caindo uns trovões brabos na redondeza e isso assustou a eletricidade. Escrevo à luz de velas como faziam Cervantes, Eça e Shakespeare, mas a iluminação dos gênios definitivamente não me alcança.

Li em algum lugar que uma das principais causas da recente descrença dos homens em Deus é a luz elétrica. Na claridade, somos racionais e céticos, temos certezas absolutas e parece não haver precisão do sagrado. No escuro, não: somos indefesos, temos pavores, vemos coisas terríveis, assombrações, fantasmas pela casa, e fica mais fácil e necessário contarmos com algum espírito superior.

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O que acontece quando você viaja

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Então o cidadão decide viajar. Está cansado do dia-a-dia, aborrecido com o trabalho e sem paciência para os colegas do trabalho, irritado com a demora do sinal em abrir, achando macaco, carro, jornal, tobogã, tudo isso um saco. Portanto, uma viagem cairia bem. Então ele decide para onde ir, compra a passagem, reserva o hotel, comunica a decisão a quem deve ser comunicada, manda uma banana para as obrigações.

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Fronteiras

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Foi algo do lado de lá que o chamou e você é curioso de dar dó. Vai até a fronteira, pleno de certezas erradas. Dá uma espiada no limite que julgava conhecido e leva um susto: aquele mundo que você achava que era, é muito maior. Atordoado, você volta, mas ficar não é mais possível. Só o tempo de arrumar a mochila para redescobrir onde aquilo vai dar.

Nove meias é o bastante? Para a água ou para o mato? É preciso olhar tanto o musgo como a onda, e que o vento decida. E ele sopra forte, você é carregado para longe, vê árvores douradas de folhas secas e águas que não molham, tão frias e impossíveis de entrar. Há coisas estranhas, como um sol que até aparece, mas não esquenta; ser noite às três da tarde; o silêncio sem passarinho e comprar banana não em cacho, mas por unidade. Sua cabeça roda, seus passos duvidam um pouco, mas caminham, sempre caminham, até chegar à próxima borda e ver que a coisas vão ainda além. As fronteiras não sossegam.

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A mulher que ri

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Nada de engraçado acontece numa fila de supermercado. Nada. Mesmo que você tenha tempo de sobra ou sobra no saldo do banco, a hora de pagar as compras não tem nada de impagável.

No entanto, a terceira mulher na fila à minha frente desembestou a rir. Não houve um crescendo, uma risada tímida que aos poucos se transformasse em gargalhada. Não: já de saída ela ria solta e despudorada. Primeiro, achei que estava vendo um filme na tela do celular. Mas não havia celular, apenas uma fila no supermercado que, sabe lá por que razão, fez a mulher rir, rir uma risada tão solta que, se ela fizesse xixi ali mesmo, formando uma poça de que a fila teria de se desviar, ninguém haveria de estranhar, muito menos censurar.

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Relâmpago de troco

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Não acreditem nessa história, meu senhor e minha senhora, de que a vida é um acontecimento inocente. A danada só finge da maneira mais descarada. Fica ali, distraindo a gente com brisas, Copas do Mundo e pastéis de feira, esperando só um descuido do cidadão contribuinte para dar o bote.

Ontem, por exemplo. Fui pegar o metrô até a Paulista e comprei uma passagem ao preço de 4 reais, valor vigente no glorioso mês de junho de 2018. Dei uma nota de 5 reais e recebi de troco um relâmpago.

O troco veio em duas moedas de 25 centavos e 5 de 10 centavos. Até aí, nada de mais. Mas as 5 moedas vieram numa pilha, amarradas com durex, igualzinho a como meu pai fazia.

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Parabéns ao chato

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É aniversário do chato. E quando ele faz aniversário, tudo vira chatice. O chato não gosta de fazer aniversário, se esconde, odeia festa e fecha a cara se alguém bate palmas ou aparece com bolo e vela.

Mesmo sendo um sujeito chato, o aniversariante ganhou alguns presentes. Duas garrafas de vinho, dois livros (de auto-ajuda), uma camiseta laranja, um par de meias verdes, uma garrafa de gim, uma de porto, de pisco (desconfio que o pessoal acha que o chato o seja menos depois de uma cangibrina).

Desculpe se a relação dos presentes ficou meio longa, mas é obrigação de um cronista descrever as coisas como elas são. E depois, se ficou meio chato, orna com o aniversariante. E se isso lhe dá uma ponta de despeito, da mais miserável inveja, não posso ser responsabilizado por isso.

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Quero morar na rua Iaiá

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Eu quero porque quero morar na rua Iaiá. Não na Professor Doutor Telêmaco Hypollito de Macedo Van Langendonck (juro que existe), esse nome aí dá muito trabalho, grande demais para uma rua que eu quero pequena. Não é o caso da Iaiá, que tem o nome que lhe cabe.

Ou então quero morar na Clarão da Lua ou na Travessa do Piquenique, tão mais aconchegantes que um nome metido a oficial. Porque esse pessoal não pode ver uma rua das Estrelas Brancas que já quer mudar para Deputado Fulano ou Governador Sicrano. Não quero dizer que as homenagens não sejam justas, mas, gentes, as estrelas brancas merecem mais, ou não?

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