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Cássio Zanatta - page 10

O filme da vida

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Reza a lenda que, quando a gente bate as botas, embora não use botas há anos, vai para a cucuia, mesmo não sabendo se fica para os lados de Guaxupé, abotoa o paletó de madeira, mesmo achando a vestimenta e a expressão de gosto duvidoso, enfim, dizem que, quando chega nossa hora, a gente revê o filme da vida, com os melhores momentos. Meio assim, um “Vale a Pena Ver de Novo” com as coisas que valeram mesmo a pena.

Imagino a cena. Eu, Deus, meu anjo da guarda, alguns queridos que se foram, numa sessão reservada. Haverá Frumello na bomboniére? Deus faz barulho comendo pipoca? Se der vontade de ir ao banheiro no meio da seção, na volta vai ter querubim lanterninha para nos indicar o lugar? Será permitido fumar no cinema? – mal não há de fazer, já que, como dissemos no parágrafo um, a coisa já foi para o beleléu.

Quem é o Diretor do filme? Posso escolher as cenas? Posso cortar as mais constrangedoras? Será uma ficção ou um documentário tipo “É Tudo Verdade”? Se as cenas forem muito embaraçosas, posso gritar “Fogo!”, fazer todo mundo sair correndo da sala e me safar do vexame?

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Para sua idade

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Para sua idade, até que o colesterol não está tão alto. Para sua idade, bem que você encara firme uma noitada. Mas bebe muito e errado, paga imposto demais, insiste em ler com pouca luz, já repete algumas histórias e faz planos muito a longo prazo, para sua idade.

Para sua idade, você sobe com agilidade em árvore, não desaprendeu essas intimidades. Nem atrapalhou tanto assim o time na pelada. Ouve bem as confissões, respeita os segredos. Tem desenvoltura em descascar mexerica. E se lembra das coisas, embora muitas delas teria sido melhor esquecer.

Para sua idade, olha que você tem bastante cabelo. Mas esse cumprimento até os ombros, essa camisa florida, esses óculos escuros de aros de metal, essas gírias ultrapassadas, vamos combinar que são ridículos. E essas piadas que há trinta anos já não faziam rir, francamente.

Boxe, escalada e uma paixão súbita talvez não sejam para sua idade.

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A chuva de gelo

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Na Paulista para resolver umas chatices. Saio do metrô, dou de cara com um céu escuro, mais que escuro, preto, e uma ventania doida, de avacalhar composturas. Um raio fulmina a pressa, corro ao café na galeria para fugir do temporal, que há limites para a valentia nesta vida.

Desaba uma chuva de granizo, bicho feio. Pedras de gelo caem com vontade sobre a marquise, parecendo anunciar o fim dos tempos na batucada. Caem também sobre as capotas dos carros que, presos no congestionamento, não têm como se abrigar. Podia ser pior: olha aquele ali de bicicleta, levando gelo no cangote.

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Da próxima vez

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Da próxima vez, chuto rasteiro e no outro canto. Como alguma coisa antes do terceiro uísque. Não revelo, nem sob tortura, meu nome para o animador do resort. Desisto de ser engraçado com o oficial da imigração. Penso duas vezes antes de subir a serra no domingo de tarde. Resisto impávido ao ovo empanado do boteco.

Da próxima vez, prometo não dormir na cadeira do barbeiro, para só no fim dar com o estrago. Passo com mais cuidado o protetor. Checo os nomes dos pais antes de ir à reunião do colégio. Faço uma mala menos pesada. Pergunto antes para o dono se o cachorro é bonzinho.

Da próxima, não confio na inocência da pimenta e na sabedoria do GPS. Pergunto ao garçom se tem glúten, em vez de esperar meia hora, quase morrer de fome, e ver chegar o prato polvilhado de farofa de rosca. Não tento novas e ousadas posições, para ter de interromper a festa com um troço lá que deu nas costas.

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Feliz Natal, Herodes

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Não consta nas escrituras, não é um dos passos da Via Sacra, nem um versículo do Evangelho; os profetas nada anunciaram, mais eis que o Anjo do Senhor desceu dos céus e apareceu a Herodes.

– Ó, tu, Herodes, filho de Cipros, rei de toda a Judéia, dito o Grande, trago-te a boa nova.

Herodes estranhou, meio velhaco:

– Mas, Anjo, não devias estar falando à Maria, a Eleita, a Pura, Mãe de todos os homens?

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Muchos pájaros en la cabeza

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Em espanhol dizem ser uma expressão. Merecia ser um verso. Quer dizer que o cidadão(ã) está com a cabeça viajando, em algum lugar difícil de precisar, absorto no que poderia ser, não no que é – pior do que com a cabeça nas nuvens: com as nuvens na cabeça.

Sonhando com tudo o que a agenda tem enorme preguiça em pensar. O que o calendário desconsidera por considerar perda de tempo. Um pecadilho a que o inspetor faria vista grossa, mas que uma declaração jamais omitiria. Um lugar que talvez fosse poupado pelos saqueadores mas jamais seria cogitado como destino turístico pela Agaxtur.

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Na madrugada, um pai

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Espero que tenham trancado os lobos nas jaulas, alertado os bombeiros, acalmado as cobras. Que todos os homens do mundo tenham sido infectados por uma pandemia de gentileza. Que Batman esteja a postos.

Oremos, mesmo que a fé já tenha sido maior, para que Nossa Senhora dos Pais Aflitos pouse Sua mão sobre os cabelos dela, para que o luar não atice os lobisomens, para que o ônibus lotado de torcedores incontroláveis se perca no desvio e só descubra o caminho de volta quando amanhecer. Que os hormônios dos adolescentes estejam em nível controlável e que as espinhas nos rostos lhes tirem um pouco da confiança.

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A nuvem

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Dia lindo desse, a vida de luzes acesas, combinadas, certinhas, eis que surge a nuvem. É uma bela nuvem, de volumes cheios, que mudam de forma o tempo todo. O sol traça os contornos de dourado, mas você nem repara a princípio em como é linda. Mas deixa-se atrair, à medida que ela chega, devagar, e vai mudando as cores, você repara nessas coisas.

A nuvem encobre aos poucos o sol, muda o tom da vida, uma luz diversa. Aos poucos, aos flocos, ela vai possuindo o dia e o que era azul vai ganhando branco. Tem uns cinzas no meio, mas você só vê os brancos.

O sol fica encoberto, o calor arrefece, escurece. Não chega a ficar frio, mas algo em você treme. De vez em quando, o sol fura a nuvem em raios que parecem trazer um recado: não fui embora, não se esqueça, estou sempre aqui.

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E agora, Joseclayson?

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E agora, Joseclayson? A água secou, a luz apagou, a conta subiu, a polícia sumiu, a barragem estourou, a passeata dispersou, e agora, Joseclayson?

E agora, você? Você que tem nome americanizado, que é motivo de chacota, você que posta, tira selfie, compartilha, se expõe, e agora, Joseclayson?

Está sem mulher, está sem emprego, está sem partido, já não pode beber e dirigir, já não pode fumar no trabalho, não pode sair de carro em dia de rodízio, cinema já não pode, o ingresso aumentou, o metrô não veio, o ônibus não veio, o bonde sumiu, o flanelinha surgiu, a bala se perdeu e tudo acabou, tudo se avacalhou e tudo se roubou. E agora, Joseclayson?

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O remédio ou o trem

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É grave, doutor? Mesmo? Desse tanto? E o que eu digo ao pessoal?

Se eu estou sentindo alguma coisa? Uma dor bem aqui, outra mais ou menos aí, meio que no meinho, uns arrepios recorrentes e essa tontura que não passa – mas isso é de outra coisa que ando sentindo.

Quero a cura. Hoje. Quero sarar dessas manchas nos braços que me denunciam, dessa carência de aceitação, da total ausência de medo, da bocozice que não melhora, quero picar em 128 pedaços o caderno onde anotei seu telefone, correr até a estação, comprar uma passagem que dê direito a pegar qualquer trem, sem saber em que plataforma ele chega, se parte para a esquerda ou para a direita, e descer na primeira cidade que simpatizar, ou nem descer, ficar para sempre no vagão.

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Alguém acuda

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E no meio da madrugada, alguém na rua gritou. Alguém na rua gritar a essa hora já causaria justa aflição. Mas para acordar a agonia, esse alguém gritou por socorro.

Um pesadelo acontecendo fora da gente. Socorro. Seguido de ao menos três exclamações, que a gente não usa por pudores literários. Assim como também não prolonga o “o” do meio, num recurso que seria mais fiel ao desespero na voz.

No silêncio da madrugada, alguém na rua ou em algum prédio da vizinhança gritou por socorro. Um apelo de tirar o sono e que não deixa dúvida: urgente pular da cama, escancarar a janela, chamar o elevador enquanto enfia as sandálias descombinadas e sair correndo só de calção, largando a porta aberta.

Pode ser que você encontre o vizinho no elevador, também assustado, decidido a acudir não sabe o quê. Mas ele veste meias verdes, chinelos de couro e um robe bordô, o que o torna incapaz de socorrer quem quer que seja.

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O que é a vida

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Pai e filho entraram em silêncio no bar e sentaram–se nessas cadeiras de ferro toscas, de dobrar. Espiaram em volta, sem cruzar os olhares. Pediram ao garçom um pingado para ele, um suco para o filho. O pai, muito sério, respirou fundo e disse, com solenidade:

– Meu filho. Sabe o que é a vida? A vida…

Pausa. Cabeça baixa. E depois de coçar o queixo:

– A vida, meu filho…

Nesse momento, houve a explosão. Parecia uma explosão, um barulho muito forte que assustou todo mundo. Era um galho que despencou da árvore em frente, amassando a capota de um carro estacionado ali. Na queda, caiu também um ninho de passarinho com um recém-nascido. Não vai sobreviver. A mãe não poderá salvá-lo, ainda mais com aquele gato no muro, espreitando, só esperando o movimento se acalmar um pouco.

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