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Cássio Zanatta - page 10

O remédio ou o trem

em Cássio Zanatta/News & Trends por

É grave, doutor? Mesmo? Desse tanto? E o que eu digo ao pessoal?

Se eu estou sentindo alguma coisa? Uma dor bem aqui, outra mais ou menos aí, meio que no meinho, uns arrepios recorrentes e essa tontura que não passa – mas isso é de outra coisa que ando sentindo.

Quero a cura. Hoje. Quero sarar dessas manchas nos braços que me denunciam, dessa carência de aceitação, da total ausência de medo, da bocozice que não melhora, quero picar em 128 pedaços o caderno onde anotei seu telefone, correr até a estação, comprar uma passagem que dê direito a pegar qualquer trem, sem saber em que plataforma ele chega, se parte para a esquerda ou para a direita, e descer na primeira cidade que simpatizar, ou nem descer, ficar para sempre no vagão.

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Alguém acuda

em Cássio Zanatta/News & Trends por

E no meio da madrugada, alguém na rua gritou. Alguém na rua gritar a essa hora já causaria justa aflição. Mas para acordar a agonia, esse alguém gritou por socorro.

Um pesadelo acontecendo fora da gente. Socorro. Seguido de ao menos três exclamações, que a gente não usa por pudores literários. Assim como também não prolonga o “o” do meio, num recurso que seria mais fiel ao desespero na voz.

No silêncio da madrugada, alguém na rua ou em algum prédio da vizinhança gritou por socorro. Um apelo de tirar o sono e que não deixa dúvida: urgente pular da cama, escancarar a janela, chamar o elevador enquanto enfia as sandálias descombinadas e sair correndo só de calção, largando a porta aberta.

Pode ser que você encontre o vizinho no elevador, também assustado, decidido a acudir não sabe o quê. Mas ele veste meias verdes, chinelos de couro e um robe bordô, o que o torna incapaz de socorrer quem quer que seja.

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O que é a vida

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Pai e filho entraram em silêncio no bar e sentaram–se nessas cadeiras de ferro toscas, de dobrar. Espiaram em volta, sem cruzar os olhares. Pediram ao garçom um pingado para ele, um suco para o filho. O pai, muito sério, respirou fundo e disse, com solenidade:

– Meu filho. Sabe o que é a vida? A vida…

Pausa. Cabeça baixa. E depois de coçar o queixo:

– A vida, meu filho…

Nesse momento, houve a explosão. Parecia uma explosão, um barulho muito forte que assustou todo mundo. Era um galho que despencou da árvore em frente, amassando a capota de um carro estacionado ali. Na queda, caiu também um ninho de passarinho com um recém-nascido. Não vai sobreviver. A mãe não poderá salvá-lo, ainda mais com aquele gato no muro, espreitando, só esperando o movimento se acalmar um pouco.

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O perigo das ideias

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Melhor seria ficar quieto no canto, pitar na varanda no escuro, deitar a cabeça no cachorro, fazer palavras cruzadas enquanto a vó tricota, assistir aos três Poderoso Chefão em seguida, ler cada parágrafo do manual de instruções, praticar yoga na areia da praia. Mas não.

Você vai telefonar para ela, atravessar a rua distraído, ir ao bar, tocar a campainha, puxar prosa, sair na chuva, comer fritura, insistir no olhar, aceitar o convite, contar as estrelas, fazer a pergunta.

Ter ideia é um perigo.

Essa coisa de beber para rebater o porre de ontem é furada. Tentar subir na cachoeira para ver como é lá de cima. Abrir o carrinho de dar corda para ver como é dentro.

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Se você soubesse

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Se você soubesse o orgulho que me dá o que em outros causaria vergonha. Orgulho besta desse fascínio e falta de jeito com as mulheres, de às vezes travar sem reação,  incapaz de dizer alguma coisa diante de um encontro inesperado de tão esperado.

Orgulho de não saber dançar e ser conduzido pela mulher e filha bailarinas, e não fazer feio (na opinião delas, que é a que conta).

Orgulho de ter respirado o mesmo ar de Caymmi, Tom, Vinicius, Bandeira, Drummond, Rubem e da vó Guiomar. De ter puxado o pai e gostar de dormir 20 minutinhos depois do almoço – 40, se houver vinho. E dormir de sonhar, só com coisa boa, de fazer babar.

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O autógrafo impresso

em Cássio Zanatta por

O casal encarou com paciência a fila até chegar de braços dados. Ele aparentava uns 30 anos, vestia um paletó que não se usa desde 1980 e ela, nem saberia dizer a idade, só reparei que a bolsa estava murcha, vazia, parecia não haver nada dentro, como um adereço falso de uma peça de teatro. Ele me entregou o livro.

– Olá, Cássio.

– Oi. Agradecido por terem vindo. O autógrafo é para os dois?

– Isso. Para os dois.

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A menor importância

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Meu filho, essa apresentação não tem a menor importância. Um atraso não tem a menor importância. Essa saudade que às vezes dói, outras não dói, também não tem. Se você tem quatro ou vinte e oito troféus na estante, isso é de uma imensa desimportância.

Uma aranha não tem a menor importância, a não ser quando resolve sair do buraco da parede para passear de madrugada. Um copo de água tem importância maior na ressaca – mesmo assim, gelada. O resmungo é de uma eterna desimportância. Confundir-se todo cantando o Hino Nacional, é ou não é?

Manga tem, e muita. Menos na prateleira do supermercado, mais debaixo da árvore, na sombra, quando a gente disputa a polpa com os marimbondos.

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Feio

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Feio, feio, mas tão feio que, não contente em ser feio, enfeava tudo em volta. O pijama, o balcão do boteco, o pôster na porta do armário, o vaso na sala, a sala, não adiantava: ao seu lado, tudo ganhava feiúra.

Em noite de lua cheia, metia medo nas crianças. Pouco saía no quarto, evitando dar susto nos outros. Na última tentativa, o cachorro uivou oito noites seguidas e nunca mais que parou de tremer. Trancou-se então no quarto, escutando música e se desenhando bonito.

Feio que deixava a maior bagunça na casa, só para ouvir a faxineira dizer: “Bonito, hein?” Até aranha peluda fugia assustada do pobre. Lesma, mandruvá, morcego, moreia.

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A pedrada

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Então, era tudo isso? Ou melhor, era só isso, já que tudo foi só metade, a outra nunca que houve?

E atirou a pedra no rio, esperando pela iluminação. Seguiu com as perguntas, mas as águas só respondiam em círculos de marolas, que balançavam os reflexos e, na margem, viravam umas ondinhas bestas.

Tem que doer? Tem que sofrer? Tem que fazer assim, mesmo que nada tivesse acontecido, ele parado na esperança, metade épico, metade bobo? Senão não é?

E o rio, nada. O silêncio.

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O tempo

em Cássio Zanatta por

Vocês não vão acreditar, mas ontem de manhã mesmo, por volta das oito e quarenta, eu tinha trinta e cinco anos.

Desci para comprar pão, café que o pó tinha acabado, que sem café não se vive, parei na banca para prosear com o Hélio – prosa rápida, que o pobre já tem que aguentar muito chato descendo a lenha no governo, no juiz ladrão, na falta de vergonha da filha do vizinho e no banana do vizinho que não toma uma atitude.

Perguntei se o amolador havia passado, estou com umas facas sem fio, não cortam nem goiabada, que é outra coisa sem a qual até se vive, mas sem a mesma graça. Mas perguntei na verdade porque gosto do apito da sua gaitinha.

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O grande tema

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Eu estava crente  que  humilharia os grandes filósofos. Que desmascaria esses pensadores-celebridades que dão palestras na internet. Que iria ser entrevistado ao vivo pela CNN e impressionaria tanto o mundo, que o resto da vida desfilaria num infinito tapete vermelho, que cada cidadão da Terra se revezaria para estender à minha frente.

Pois eis que eu havia chegado ao Grande Tema.

Aquele, que responderia ao mesmo tempo as aflições dos eslovacos, diminuiria o índice de suicídios na Dinamarca, acabaria com a fome em Bangladesh, esclareceria de uma vez por todas porque certas coisas só acontecem ao Botafogo e faria o esquimó rir 3 dias e 3 noites em seu iglu, abraçado a uma foca, dizendo: “Mas esse tempo todo, era só isso?”

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No que pensa o relógio

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O relógio tem todo o tempo do mundo para pensar, mas não vê grande vantagem nisso. Sempre simpatizou mais com o tac do que com o tic. Já se atrasou de propósito, para não causar mais aflição, e se adiantou um tanto, para que a dor fosse embora logo.

O relógio de parede pensa em quanta gente já viu passar pela sala. Como pode aquela pessoa que estava todo dia, umas oitenta e quatro vezes por dia, agora não estar mais. Por isso seu badalo tem um quê de tristeza e de susto. Mas sou eternamente grato pela sua cumplicidade: quando eu chegava muito tarde, ele disfarçava e não badalava as horas que me denunciariam.

O relógio cuco suspira pelas penas que envelheceram e pelas crianças que esperavam dar a hora cheia para ver sair o cuco, mas que cresceram e agora não veem grande coisa nele.

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