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Cássio Zanatta - page 2

O homem que anda de ponta-cabeça

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Deu no jornal (as notícias estranhas estão sempre a postos quando andamos desanimados para os assuntos): Dirar Abohou, um etíope de 32 anos, passa seis horas por dia, três de manhã, três à tarde, de cabeça pra baixo. Ou de ponta-cabeça, como diz a matéria, e eu que pensava que era um termo usado só na minha terra. Dizemos também plantar bananeira, e não me peçam para explicar o sentido da expressão, já que não parece haver algum: duvido que bananeiras sejam plantadas numa posição tão desconfortável.

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A casa de temporada

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A casa de temporada é a maior distância entre expectativa e realidade já medida pelo homem. Em dezembro, ela estará em todos os seus sonhos e desejos de vingança. Seu Natal será mais alegre, seu Reveillon, promissor, porque breve haverá a casa de temporada.

Ao chegar, as crianças estarão impossíveis. O cachorro, ao contrário, vai estar murcho, deslocado. Mas você vai levar a bola, o que resolverá os dois casos. Sua mulher logo providenciará a lista da quitanda e supermercado – inclua na lista os itens “rede” e “cerveja”, que não vão estar lá. As árvores em volta da casa, flamboyants e acácias, estarão floridas e nem vai estar tão quente como você esperava.

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Horóscopo

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As pessoas andam muito apressadas, correndo demais da conta. Assim, é provável que nem todas tenham tido tempo de conferir o horóscopo.

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Receita

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Primeiro vem a parte mole: abrir o saco de biscoito. Erga as mãos para o céu e agradeça que essas embalagens são muito mais fáceis de abrir que suas congêneres tampas de iogurte, manteiga e palmito.

Aberto o saco, leve-o à mesa. É uma operação simples, que não exige destreza. Permite que você coma um ou outro biscoito no caminho, o que (pelo menos nunca vi) não é procedimento condenável numa dessas dezenas de programas culinários que assolam nossa TV e que são doidos para dizer se isso pode ou não.

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No caso

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No caso de chover, vou me lembrar do guarda-chuva: lembrar que o larguei no táxi. Se acaso fizer sol e a luz mais divina, a reunião jamais vai terminar: haverá defesas de pontos de vista intermináveis e, de toda maneira, as persianas não nos deixarão saber da lindeza lá fora.

No caso do encontro ser importante, você terá vestido as meias trocadas. No de ir ao jogo, o cara mais chato entre os milhares de torcedores do seu time se sentará ao seu lado e vai comentar cada jogada em voz alta, cutucando seu braço.

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Da janela da velha casa

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Da janela da velha casa da Fazenda vejo passar uma infância.

Lá estão as árvores tão cúmplices, as mangueiras que já eram velhas quando eu estava longe de ser, as jabuticabeiras boas de subir e onde a gente construiu casa de madeira, e o chapéu de sol que fornecia a sombra certa para a prosa dos adultos. Mais ao fundo, o pomar dos pés de goiaba, dos bichos de goiaba, da fruta do conde, limão e a mexerica que em nenhum lugar era azeda como aqui. A casa era fértil de felicidade, mas muito ruim de mexerica.

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Nessa Noite

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Nessa Noite, há 2018 anos, algumas cabras e burros, uma estrela particularmente brilhante, um casal já entrado em anos e um bebê num berço de palha causaram um quiproquó tipo grande no mundo.

Nesta noite, no Ceará, um homem vai entrar armado em um supermercado, roubar dinheiro, dois pacotes de lenços e disparar cinco tiros no caixa (antes de fugir, vai pegar três Chokitos). O caixa não vai resistir e isso arruinará o Natal da família por pelo menos duas gerações.

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A velha que varre a calçada

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A velha que varre a calçada já não varre mais a calçada. Costumava ficar horas na varredura, diariamente. Há semanas não a vejo. Sofreu um troço? Foi sequestrada por gente que tem alergia ao pó que a vassoura assanha? Mudou para uma clínica de repouso em Jaboticabal? Ou, depois de anos, parou para se perguntar, afinal, para que serve varrer a calçada todo dia?

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Escrevo porque

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Escrevo para ver se aprendo. Para poder conversar com você, mesmo que um dia eu não esteja mais. Para expulsar os demônios e para que os cegos sintam alguma vantagem. Escrevo para desalento dos puristas. Para desânimo dos gramáticos eu escrevo. Para os insones. Contra os insetos. Porque o professor mandou e eu me acostumei. Pela eternidade de um dia. Agradar a gregos e desagradar a troianos ou vice-versa.

Para que ao menos uma alma diga que gostou. Para esquecer e fazer esquecer. No caso da goiabada não saciar o suficiente. Para que os incapazes não se sintam sozinhos.

De teimoso, de pirraça, vingança, medo e a inútil esperança de que ela leia e se entregue. Para espanto dos amigos e desconcerto dos familiares. Porque achei mais interessante do que oito horas no escritório. E porque há estrelas demais, pelo menos umas setecentas a mais.

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Lá vai Maria

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Nenhum pio no elevador. Um breve comentário sem necessidade ecoa na garagem vazia, antes de entrarmos no carro. No caminho, passamos por 18 sinais – a maior parte, abertos. A vida, sempre em frente, não pode, não quer e nem sabe se deter. Atravessamos as ruas ainda sem as pessoas, cruzamos avenidas, mais silenciosas que de costume. Nem o rádio ligamos, vai que toca alguma música que nos faça derreter.

É o último dia de vida escolar de Maria. Hoje, eu a levo pela última vez ao Colégio. Nem seria preciso, já sabe andar sozinha, pegar ônibus, trem, metrô. Já foi a Minas, à Serra da Capivara, Amazônia, Europa, já dormiu em barco no meio do rio, rede em casa de pescador, oca de índio, no meio da floresta (aí contou que pouco dormiu, tamanho o barulho que os bichos e insetos e sabe-se lá que criaturas faziam de noite)… vê se precisa deste pai para se virar.

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Passaredo

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Bem-te-vi usa máscara para cortejar no anonimato.

Tucano só voa com aquele bico pesado porque a alma é mais leve que o ar.

As andorinhas são as maiores responsáveis por Francisco ter virado santo.

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Eis o problema

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O problema não é ficar sabendo que o mundo é milhares de vezes maior que São José (embora eu tenha minhas dúvidas). É mesmo assim a gente se afligir com algo que ficou sabendo de dia e não dormir de noite.

O enrosco não é entender que caberiam centenas e centenas de Terras no interior do Sol. É que, mesmo diante da nossa insignificância, a gente ainda ter certo pudor em tocar algumas campainhas.

Não é ser informado que, mesmo imenso, o Sol é uma coisica em comparação a outras estrelas gigantes. O grave é que o pessoal insiste em espalhar radares pela cidade como se essa fosse a prioridade do mundo.

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