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Cássio Zanatta - page 3

Redondamente enganado

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Posso estar redondamente enganado. O que explicaria a teimosia, essa insistência num círculo que sempre leva a um recomeço sem saída. Como se um deus girasse um compasso enferrujado e me pusesse no meio da circunferência, recitando poemas que não saem do lugar para ninguém ler, carrossel sem fim nem sossego.

Ou posso estar triangularmente enganado. Nesse caso, qual lado mediria mais? Equilátero ele não seria, sempre haveria uma dor ou um gozo para contrabalançar. Seria um engano desengonçado, desproporcional. Um lado teria metros; o outro, centímetros e o terceiro teria ido morar em Bombinhas. Com ângulos sem sentido, de uns 37,582°. Um triângulo que irritasse profundamente um matemático, mas inspirasse alguém sem certezas a brincar de gangorra na hipotenusa.

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Essa coisa

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O nome é tão feio que melhor é chamá-la de coisa. Essa coisa que nasceu aqui dentro e quer viver minha vida: roubar minha comida, meus músculos e taras para seu sustento. Uma visita que chega de mala e cuia quando você estava de saída para o cinema. A sensação quando a roda gigante enguiça, sua cadeira para no alto e você fica balangando no ar. Um prato que o garçom traz por engano e insiste em que é seu.

Essa coisa brincando de Pollock no meu cérebro fez da calçada uma pinguela. Das paredes, sustos e alguns roxos. Encheu os pés de formigas e agora toda noite acontece da perna querer sair da perna.

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Claro que a gente pode ir morar no Exterior, amor, mas

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Nesse caso, quem vai colher pitanga no quintal – vai ficar tudo para os tico-ticos e sanhaços? Quem é que vai secar o Corinthians? Onde mais ver casas com parede cor de rosa, terraço amarelo e janela verde, de onde uma senhora com cabelo roxinho fica espiando? Como viver sem Yakult e os lactobacilos vivos? Como resolver a fome atrevida que não respeita horário nem continente, se nas esquinas de lá não tem padaria nem pão na chapa nem broa nem média nem pão de queijo com café de coador, e como é que se vive sem pão de queijo, meu amor?

Dá pra viver sem assistir a uma pelada na praia em que o goleiro foi dar um mergulho e deixou o gol vazio e ninguém chuta no gol enquanto ele não volta, porque há limites para a falta de esportividade?

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Crônica boa é no Rio

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 Todo mundo conhece um carioca bairrista. Certo, eles já foram em maior número, hoje a coisa anda meio contida, talvez pelo tanto que a cidade anda judiando de sua gente. Quando eu era garoto, a coisa era feia. Não só para eles o Rio de Janeiro era o melhor lugar do mundo (e era quase verdade), como São Paulo era o que havia de ruim e sem graça (e isso não era não).

Para os cariocas da gema fechada numa casca dura de fanatismo, chopp bom era no Rio, vista bonita era no Rio, time bom, idem. Mulher bonita era a carioca, o resto, tudo canhão. Músico, escritor, artista, para ser grande tinha que acontecer por lá. Não adiantava vir com Bandeira, Drummond, Rosa, Graciliano, Jorge Amado, Caymmi, Elis, Adoniran, Lupicinio, Guiomar Novaes, Pelé, Rivelino, Tostão, Portinari, Tarsila, Anita, Carybé: se não fosse carioca ou naturalizado, não prestava.

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Madrugada

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Claro que o vizinho foi ao banheiro. Você pode estar dormindo em um loft em São Francisco, numa espelunca no Irajá, na suite real do Negresco em Nice ou na casa da madrinha Rosa em São José, que o vizinho irá ao banheiro.

Particularmente de madrugada, o vizinho sempre vai ao banheiro – uma, duas, três vezes. Como se, horas antes, tivesse encarado seis xícaras de chá de hortelã ou quinze rodadas de chopp, o que mexe um pouco com seu equilíbrio, já que no caminho o vizinho chuta cadeiras, que arrastam no assoalho, e ainda derruba vasos da dinastia Richter.

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Assim, de repente

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De uma hora pra outra, me vi emocionado numa queima de fogos. Disfarcei um choro sentido e sem sentido, particularmente quando explodia algo azul. Foi pouco depois de perceber que agora ficaria meio ridículo fazer tatuagem.

Comecei então a ter de fazer conta para lembrar a idade. A me atrapalhar para pagar uma conta pelo celular, como meus pais se atrapalhavam com o controle remoto da televisão. Cada vez mais inconformado com o sumiço dos coletes.

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Tudo o que aconteceu

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Então direi a vocês o que vou fazer. Vou me sentar neste banco de uma rua em São Paulo, às 16 horas e 11 minutos de uma quarta-feira, 7 de março de 2018, bloquinho em punho. Pela próxima meia hora, vou anotar tudo o que acontecer em volta. Sem inventar lhufas. Se não houver nada, se for de uma sem-gracice sem fim, a culpa não é minha, apenas vou registrar os fatos. Começando agora.

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O sumiço dos telhados

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Erguem um prédio aqui, outro mais adiante e quando a gente vê, a quadra virou que é só prédio. Ou edifício, que parecer ser mais chique, ainda mais precedendo algum nome bacana como Avignon, Positano Palace ou Golden Garden (ai como somos jecas).

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Que maçada

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Não sei se na sua família havia o “que maçada”. Na minha, ô se tinha.

Geralmente, acompanhado de um balançar de cabeça ou de um leve muxoxo nos lábios. E era coisa de tia falar, muito raro que fosse um homem, maçada era palavra tão feminina que só aceitou “a” de vogal.

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O que dizem e não dizem as estatísticas

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Deu no Estadão: 71% das fotos do Cristo Redentor postadas no Instagram repetem apenas 3 ângulos. Olha isso: quase ¾ das fotos procuram um único enquadramento. É muita coisa, vamos admitir. É turista estrangeiro, família do interior de Goiás, colegas já meio briacos comemorando a formatura, ninguém em busca de originalidade, e sim tão somente registrar que lá estiveram.

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