-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-

Category archive

Cássio Zanatta - page 3

Amigo

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não está me reconhecendo?

É esse tanto de cabelo branco que dificulta um pouco. Eu já bebi com você, quer dizer, quando cheguei no bar você já estava alto, até que, lamentáveis, alguém deu a ideia de fazer uma serenata. Eu que pulei o muro, caí no barranco do outro lado e quebrei seu violão. Sim, fui eu. Mas a menina não valia a canção, vai por mim.

Lembra: eu que na boate chique enfiei os pés no espelho d’água e tive de ir embora, molhando o tapete do corredor e divertindo o porteiro com aquele som de sapato naufragado.

Continue lendo

Attenti al cane

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Era o que dizia o aviso no portão de uma casa que eu e Beatriz vimos na Itália. Do lado de dentro, um cachorro que fácil, fácil, caberia no meu bolso. Não impunha respeito algum. Claro que o pateta aqui zombou do aviso e fez gracinha em frente ao portão. Até surgir um pastor que num pulo quase leva portão, gracinha e casal brazuca no peito.

Continue lendo

No céu da nossa casa

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Minha filha pede que eu a leve à casa de uma amiga, precisam fazer um trabalho de colégio. Pergunto o endereço. Ela diz “rua Bela Cintra, não sei que número”.

A Bela Cintra é uma rua comprida, começa na Estados Unidos, sobe até atravessar a Paulista e desce até o Centro, podia muito bem ser qualquer número entre o 4 e o 2406. Mas na hora em que ela disse o nome da rua, eu soube onde era. Conheço a vida e suas tramoias.

Continue lendo

Porque existem as maritacas

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Você já sabe, foi um bom aluno, estudou direitinho, que toda coisa que existe neste mundo tem uma função. Nada está por acaso. Se uma espécie de abelha desaparecer na Etiópia, de algum jeito isso vai causar uma onda que devastará uma praia nas Ilhas Seychelles. Uma roda de caminhão que passe por cima de um lagarto deixará viúvas muitas espécies e talvez gere uma superpopulação de muriçocas. Aquela coisa de equilíbrio natural.

Continue lendo

Oito horas e um minuto

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Acordo com a explosão do Vesúvio. Caos, pânico, paredes tremendo, o barulho que o fim do mundo deve fazer. Mas não estou em 79 DC, não estou em Pompeia, e sim dormindo numa cama confortável em Santos no verão de 2018, o ar-condicionado está ligado e hoje é sábado.

Leva um tempo para a gente se dar conta de onde está, que o mundo não acabou e que o barulho vem de uma reforma no apartamento de cima. Posso imaginar o grupo de dedicados pedreiros destruindo com determinação essas paredes grossas de antigos apartamentos, e que isso exige força, martelos e marretas poderosas.

Continue lendo

A tal foto

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Na tal foto ela olha para o chão, em muitas fotos ela olha para o chão. De vergonha, timidez, ou será que ela sabe? O que carregou de sua terra, o que aprendeu na Pauliceia? Talvez não quisesse que sua luz fosse registrada, talvez seja para nos poupar, já que seu olhar carrega perigos. Não deixa de ser um alívio que ela não nos encare de frente.

Sou mais nuvem que chão. Pouco provável então que ela me encontre olhando para baixo, o que é triste. Se bem que uma chance tenho: às vezes sou caramujo, meu arrastar é lento e fechado. No mais, em geral estou no ar. Minhas chances são pequenas.

Continue lendo

Coitado do Ano Novo

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Eu não queria estar na pele de 2018. Não, eu não acho que vá ser um ano ruim não, ao contrário, sou uma mula empacada no otimismo. Mas vejo as pessoas depositando tanta esperança, exigindo tanto do pobre que ainda nem chegou direito – tenha dó, gente.

O gordo fala em perder 15 quilos (nada de pensar pequeno, achar que 3 já bastam, o ano que se vire). O endividado sonha com os números da Loteria da Virada. O torcedor há tanto tempo na fila, com o surgimento do craque. O encalhado no sentido literal, em viajar para 5 continentes, incluindo o Butão; o no sentido sentimental, em encontrar o Grande Amor, coisa que os últimos anos foram uns incompetentes ou insensíveis em arrumar.

Continue lendo

Contagem regressiva

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Vamos lá, gente! Todo mundo de taça na mão?

– O último brinde de 2017!

– Formando uma roda no quintal. Rápido, rápido.

– Criançada, aqui no meio.

Continue lendo

A resposta das ondas

em Cássio Zanatta/NY Times por

Deve haver algum sentido no trabalho das ondas. Essa sequência vagarosa há de trazer uma revelação. Uma a uma, lá vêm elas, em calma procissão, como uma passeata de águas e espumas que nada reivindica.

Fazem isso há milênios, já tentaram alertar os poderosos, minimizar as autoridades, acalmar aflitos, mas os homens, ignorantes em sua pressa e autoconfiança, não param para ouvir. Por isso às vezes estouram com mais barulho, violentas, impacientes. Se ainda ignoradas, alcançam a areia, destroem calçadas, jardins, invadem garagens e depositam areia nos bancos dos carros. Os homens, assustados, dão a isso o nome (errado mais uma vez) de ressaca e fecham os ouvidos.

Continue lendo

Pedaços colados

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Dizem que para os lados de Batatais há um especialista em juntar cacos. Aqueles, que em algum momento da vida a gente sabe que se partiram feio. Algo os quebrou: uma desilusão, um equívoco, o pouco caso. Um pedaço ficou na mesa de um bar vagabundo; outro, numa mensagem no celular; outro ainda, num encontro inesperado, desses que a vida se diverte em maquinar e disfarçar de coincidência.

Continue lendo

Estou em missão

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não se deixe enganar pelo ar avoado. Este olhar para o alto que  desequilibra fácil o cidadão, o esquecimento conveniente, a surdez que faz que não ouve o chamado – tudo fingimento.

Posso explicar. Estou aqui em missão. Não quero parecer alarmista ou me fazer de importante, mas fui convocado com alguma urgência para, vamos dizer, afrouxar o nó, aliviar a carga, dividir o peso, segurar o tranco.

Continue lendo

O silêncio

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Escuta como pesa. Era para ser nada, resolveu ser martelo. Silêncio coisa alguma, invade o ouvido e insiste num zumbido infernal de tão inexistente.

Vou interfonar para o vizinho reclamando dessa porra de silêncio. Vou sair de pijama na rua, irromper no bar e dar um esculacho nos briacos calados. Invadir a festa que não há no 31 e dizer que assim não é possível. Pular a grade do prédio vizinho, ignorar os braços agitados do porteiro dentro da guarita, subir correndo as escadas e esmurrar delicadamente a porta do sujeito que não berrou da janela no gol do adversário.

Continue lendo

Voltar p/ Capa