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Cássio Zanatta - page 8

A menor importância

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Meu filho, essa apresentação não tem a menor importância. Um atraso não tem a menor importância. Essa saudade que às vezes dói, outras não dói, também não tem. Se você tem quatro ou vinte e oito troféus na estante, isso é de uma imensa desimportância.

Uma aranha não tem a menor importância, a não ser quando resolve sair do buraco da parede para passear de madrugada. Um copo de água tem importância maior na ressaca – mesmo assim, gelada. O resmungo é de uma eterna desimportância. Confundir-se todo cantando o Hino Nacional, é ou não é?

Manga tem, e muita. Menos na prateleira do supermercado, mais debaixo da árvore, na sombra, quando a gente disputa a polpa com os marimbondos.

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Feio

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Feio, feio, mas tão feio que, não contente em ser feio, enfeava tudo em volta. O pijama, o balcão do boteco, o pôster na porta do armário, o vaso na sala, a sala, não adiantava: ao seu lado, tudo ganhava feiúra.

Em noite de lua cheia, metia medo nas crianças. Pouco saía no quarto, evitando dar susto nos outros. Na última tentativa, o cachorro uivou oito noites seguidas e nunca mais que parou de tremer. Trancou-se então no quarto, escutando música e se desenhando bonito.

Feio que deixava a maior bagunça na casa, só para ouvir a faxineira dizer: “Bonito, hein?” Até aranha peluda fugia assustada do pobre. Lesma, mandruvá, morcego, moreia.

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A pedrada

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Então, era tudo isso? Ou melhor, era só isso, já que tudo foi só metade, a outra nunca que houve?

E atirou a pedra no rio, esperando pela iluminação. Seguiu com as perguntas, mas as águas só respondiam em círculos de marolas, que balançavam os reflexos e, na margem, viravam umas ondinhas bestas.

Tem que doer? Tem que sofrer? Tem que fazer assim, mesmo que nada tivesse acontecido, ele parado na esperança, metade épico, metade bobo? Senão não é?

E o rio, nada. O silêncio.

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O tempo

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Vocês não vão acreditar, mas ontem de manhã mesmo, por volta das oito e quarenta, eu tinha trinta e cinco anos.

Desci para comprar pão, café que o pó tinha acabado, que sem café não se vive, parei na banca para prosear com o Hélio – prosa rápida, que o pobre já tem que aguentar muito chato descendo a lenha no governo, no juiz ladrão, na falta de vergonha da filha do vizinho e no banana do vizinho que não toma uma atitude.

Perguntei se o amolador havia passado, estou com umas facas sem fio, não cortam nem goiabada, que é outra coisa sem a qual até se vive, mas sem a mesma graça. Mas perguntei na verdade porque gosto do apito da sua gaitinha.

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O grande tema

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Eu estava crente  que  humilharia os grandes filósofos. Que desmascaria esses pensadores-celebridades que dão palestras na internet. Que iria ser entrevistado ao vivo pela CNN e impressionaria tanto o mundo, que o resto da vida desfilaria num infinito tapete vermelho, que cada cidadão da Terra se revezaria para estender à minha frente.

Pois eis que eu havia chegado ao Grande Tema.

Aquele, que responderia ao mesmo tempo as aflições dos eslovacos, diminuiria o índice de suicídios na Dinamarca, acabaria com a fome em Bangladesh, esclareceria de uma vez por todas porque certas coisas só acontecem ao Botafogo e faria o esquimó rir 3 dias e 3 noites em seu iglu, abraçado a uma foca, dizendo: “Mas esse tempo todo, era só isso?”

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No que pensa o relógio

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O relógio tem todo o tempo do mundo para pensar, mas não vê grande vantagem nisso. Sempre simpatizou mais com o tac do que com o tic. Já se atrasou de propósito, para não causar mais aflição, e se adiantou um tanto, para que a dor fosse embora logo.

O relógio de parede pensa em quanta gente já viu passar pela sala. Como pode aquela pessoa que estava todo dia, umas oitenta e quatro vezes por dia, agora não estar mais. Por isso seu badalo tem um quê de tristeza e de susto. Mas sou eternamente grato pela sua cumplicidade: quando eu chegava muito tarde, ele disfarçava e não badalava as horas que me denunciariam.

O relógio cuco suspira pelas penas que envelheceram e pelas crianças que esperavam dar a hora cheia para ver sair o cuco, mas que cresceram e agora não veem grande coisa nele.

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Que remédio?

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Plim, plim, plim, plim, diz o remédio a conta-gotas. Eu digo: mais depressa, por favor. O pessoal do setor é simpático, cuida bem de mim, diz as coisas mais assustadoras no diminutivo, ajeita o travesseiro, até suco trouxe. Mas é que eu quero sair daqui, preciso, a vida é lá fora.

Preciso sair para sentir a disputa do calor com o vento. Porque já tem jacarandá vestido de roxo. Sair para buscar Maria e Pedro no colégio, me faz mais bem que o remédio. Que pinga tão devagar e eu preciso sair logo, porque é tempo de tico-tico cantar “eu vi teu tio, tio” e ele precisa de plateia, o pessoal tem prestado atenção a outros assuntos. Sei que ele trocaria facinho minha audiência por uma namorada jeitosa, mas insisto na pretensão de pensar que é para a gente que ele canta.

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O cara que toca tímpanos na orquestra

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Já se foram dois movimentos e o cara que toca tímpanos na orquestra ainda não fez nada. A não ser ficar esperando sua hora na última fila da orquestra, um espectador privilegiado, paralisado naquele fraque, fingindo concentração.

Em que pensa esse tempo todo?

Seu olhar é fixo na partitura, mas quem garante que, enquanto espera sua hora de brilhar, ele não pensa nas chances do time no Brasileiro, se pagou mesmo o seguro do carro ou, coisa mais séria, na boca e cabelos daquela morena sumida.

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Um pé no céu, outro no inferno

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Uma vez por semana, viro o Deus de um mundo que, não sendo Deus, levei não seis dias, mas cinquenta anos para criar. Um criador confuso, que vira e mexe se espanta com a criatura; ela tem vida própria, o orgulha, o humilha, ri de sua condição ridícula, tentando criar um mundo aos tropeções, sem sentido nem método: quando começa, nunca sabe onde vai parar.

Uma vez por semana, viro abóbora. Dessas orgulhosas, que se enfiam na terra e muito de vez em quando põem a cabeça para fora para ver se alguém está reparando. E nunca aconteceu de aparecer alguma fada que me transformasse em carruagem. No máximo, doce, misturada com coco, mas que ninguém lambe os beiços e pede a receita.

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A árvore de passarinho

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Estou no lugar a que pertenço. Vejo as árvores, nuvens e morros que me moldaram. Longe dos muros pichados, da luta por tudo, onde vale até dedo no olho, e da violência que não é só do assaltante, mas da menina que mendiga e todo mundo acha normal, do ônibus que fecha, do ronco da avenida. Estou longe e quero ficar assim, enquanto der. Tenho consciência da minha alienação e talvez seja uma ridícula defesa.

Nessa época do ano, venta muito de manhã. Um sopro forte e descoordenado, que assanha cabelos e composturas. Mas às dez horas, ele para, misteriosa e pontualmente às dez, o ar sossega. Como se São Pedro tivesse acertado o despertador para saber a hora de desligar o interruptor dos ventos da manhã na divisa de São Paulo com Minas Gerais, e fosse então cuidar de uma chuva no Nepal ou um pôr do sol em Caiscais.

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Confesso

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O padre disse que não era para fazer, mas não só eu fiz, como desconfiava que ele também fazia. Roubei marzipã da loja sem saber o que era, para depois descobrir que não gosto de marzipã nem levo jeito para o crime.

Não matei passarinho com estilingue – não por bondade, porque era míope feito uma porta e ruim de pontaria. A campanha dizia para não dirigir depois de beber e não lembro qual das duas coisas fiz primeiro. O suco estava vencido e eu o servi às visitas. Só respeitei o limite de velocidade perto do radar.

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Só sei que é em julho

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Não sei se o seu aniversário é hoje mesmo. Não sei onde procurar e me dá um pudorzinho besta de sair perguntando. Só me lembro de que é por agora. Está um sol lindo lá fora, mas se você se empolga e sai de camiseta, bate uma brisinha fria e dá aquele tremelique que, não se ofenda, me faz pensar que é seu aniversário.

Se eu soubesse quando é, apareceria para um abraço. Poria nele um benquerer sincero. Talvez nada dissesse, você já deve ter se acostumado com essa pavorosa caipirice. Mas não tenho ideia de onde lhe encontrar. Quer dizer, até tenho, mas não sei se é o caso. Não sei sequer se você gosta de que lembrem do seu aniversário. Muita gente não gosta.

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