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Cássio Zanatta - page 8

Muchos pájaros en la cabeza

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Em espanhol dizem ser uma expressão. Merecia ser um verso. Quer dizer que o cidadão(ã) está com a cabeça viajando, em algum lugar difícil de precisar, absorto no que poderia ser, não no que é – pior do que com a cabeça nas nuvens: com as nuvens na cabeça.

Sonhando com tudo o que a agenda tem enorme preguiça em pensar. O que o calendário desconsidera por considerar perda de tempo. Um pecadilho a que o inspetor faria vista grossa, mas que uma declaração jamais omitiria. Um lugar que talvez fosse poupado pelos saqueadores mas jamais seria cogitado como destino turístico pela Agaxtur.

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Na madrugada, um pai

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Espero que tenham trancado os lobos nas jaulas, alertado os bombeiros, acalmado as cobras. Que todos os homens do mundo tenham sido infectados por uma pandemia de gentileza. Que Batman esteja a postos.

Oremos, mesmo que a fé já tenha sido maior, para que Nossa Senhora dos Pais Aflitos pouse Sua mão sobre os cabelos dela, para que o luar não atice os lobisomens, para que o ônibus lotado de torcedores incontroláveis se perca no desvio e só descubra o caminho de volta quando amanhecer. Que os hormônios dos adolescentes estejam em nível controlável e que as espinhas nos rostos lhes tirem um pouco da confiança.

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A nuvem

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Dia lindo desse, a vida de luzes acesas, combinadas, certinhas, eis que surge a nuvem. É uma bela nuvem, de volumes cheios, que mudam de forma o tempo todo. O sol traça os contornos de dourado, mas você nem repara a princípio em como é linda. Mas deixa-se atrair, à medida que ela chega, devagar, e vai mudando as cores, você repara nessas coisas.

A nuvem encobre aos poucos o sol, muda o tom da vida, uma luz diversa. Aos poucos, aos flocos, ela vai possuindo o dia e o que era azul vai ganhando branco. Tem uns cinzas no meio, mas você só vê os brancos.

O sol fica encoberto, o calor arrefece, escurece. Não chega a ficar frio, mas algo em você treme. De vez em quando, o sol fura a nuvem em raios que parecem trazer um recado: não fui embora, não se esqueça, estou sempre aqui.

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E agora, Joseclayson?

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E agora, Joseclayson? A água secou, a luz apagou, a conta subiu, a polícia sumiu, a barragem estourou, a passeata dispersou, e agora, Joseclayson?

E agora, você? Você que tem nome americanizado, que é motivo de chacota, você que posta, tira selfie, compartilha, se expõe, e agora, Joseclayson?

Está sem mulher, está sem emprego, está sem partido, já não pode beber e dirigir, já não pode fumar no trabalho, não pode sair de carro em dia de rodízio, cinema já não pode, o ingresso aumentou, o metrô não veio, o ônibus não veio, o bonde sumiu, o flanelinha surgiu, a bala se perdeu e tudo acabou, tudo se avacalhou e tudo se roubou. E agora, Joseclayson?

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O remédio ou o trem

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É grave, doutor? Mesmo? Desse tanto? E o que eu digo ao pessoal?

Se eu estou sentindo alguma coisa? Uma dor bem aqui, outra mais ou menos aí, meio que no meinho, uns arrepios recorrentes e essa tontura que não passa – mas isso é de outra coisa que ando sentindo.

Quero a cura. Hoje. Quero sarar dessas manchas nos braços que me denunciam, dessa carência de aceitação, da total ausência de medo, da bocozice que não melhora, quero picar em 128 pedaços o caderno onde anotei seu telefone, correr até a estação, comprar uma passagem que dê direito a pegar qualquer trem, sem saber em que plataforma ele chega, se parte para a esquerda ou para a direita, e descer na primeira cidade que simpatizar, ou nem descer, ficar para sempre no vagão.

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Alguém acuda

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E no meio da madrugada, alguém na rua gritou. Alguém na rua gritar a essa hora já causaria justa aflição. Mas para acordar a agonia, esse alguém gritou por socorro.

Um pesadelo acontecendo fora da gente. Socorro. Seguido de ao menos três exclamações, que a gente não usa por pudores literários. Assim como também não prolonga o “o” do meio, num recurso que seria mais fiel ao desespero na voz.

No silêncio da madrugada, alguém na rua ou em algum prédio da vizinhança gritou por socorro. Um apelo de tirar o sono e que não deixa dúvida: urgente pular da cama, escancarar a janela, chamar o elevador enquanto enfia as sandálias descombinadas e sair correndo só de calção, largando a porta aberta.

Pode ser que você encontre o vizinho no elevador, também assustado, decidido a acudir não sabe o quê. Mas ele veste meias verdes, chinelos de couro e um robe bordô, o que o torna incapaz de socorrer quem quer que seja.

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O que é a vida

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Pai e filho entraram em silêncio no bar e sentaram–se nessas cadeiras de ferro toscas, de dobrar. Espiaram em volta, sem cruzar os olhares. Pediram ao garçom um pingado para ele, um suco para o filho. O pai, muito sério, respirou fundo e disse, com solenidade:

– Meu filho. Sabe o que é a vida? A vida…

Pausa. Cabeça baixa. E depois de coçar o queixo:

– A vida, meu filho…

Nesse momento, houve a explosão. Parecia uma explosão, um barulho muito forte que assustou todo mundo. Era um galho que despencou da árvore em frente, amassando a capota de um carro estacionado ali. Na queda, caiu também um ninho de passarinho com um recém-nascido. Não vai sobreviver. A mãe não poderá salvá-lo, ainda mais com aquele gato no muro, espreitando, só esperando o movimento se acalmar um pouco.

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O perigo das ideias

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Melhor seria ficar quieto no canto, pitar na varanda no escuro, deitar a cabeça no cachorro, fazer palavras cruzadas enquanto a vó tricota, assistir aos três Poderoso Chefão em seguida, ler cada parágrafo do manual de instruções, praticar yoga na areia da praia. Mas não.

Você vai telefonar para ela, atravessar a rua distraído, ir ao bar, tocar a campainha, puxar prosa, sair na chuva, comer fritura, insistir no olhar, aceitar o convite, contar as estrelas, fazer a pergunta.

Ter ideia é um perigo.

Essa coisa de beber para rebater o porre de ontem é furada. Tentar subir na cachoeira para ver como é lá de cima. Abrir o carrinho de dar corda para ver como é dentro.

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Se você soubesse

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Se você soubesse o orgulho que me dá o que em outros causaria vergonha. Orgulho besta desse fascínio e falta de jeito com as mulheres, de às vezes travar sem reação,  incapaz de dizer alguma coisa diante de um encontro inesperado de tão esperado.

Orgulho de não saber dançar e ser conduzido pela mulher e filha bailarinas, e não fazer feio (na opinião delas, que é a que conta).

Orgulho de ter respirado o mesmo ar de Caymmi, Tom, Vinicius, Bandeira, Drummond, Rubem e da vó Guiomar. De ter puxado o pai e gostar de dormir 20 minutinhos depois do almoço – 40, se houver vinho. E dormir de sonhar, só com coisa boa, de fazer babar.

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O autógrafo impresso

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O casal encarou com paciência a fila até chegar de braços dados. Ele aparentava uns 30 anos, vestia um paletó que não se usa desde 1980 e ela, nem saberia dizer a idade, só reparei que a bolsa estava murcha, vazia, parecia não haver nada dentro, como um adereço falso de uma peça de teatro. Ele me entregou o livro.

– Olá, Cássio.

– Oi. Agradecido por terem vindo. O autógrafo é para os dois?

– Isso. Para os dois.

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A menor importância

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Meu filho, essa apresentação não tem a menor importância. Um atraso não tem a menor importância. Essa saudade que às vezes dói, outras não dói, também não tem. Se você tem quatro ou vinte e oito troféus na estante, isso é de uma imensa desimportância.

Uma aranha não tem a menor importância, a não ser quando resolve sair do buraco da parede para passear de madrugada. Um copo de água tem importância maior na ressaca – mesmo assim, gelada. O resmungo é de uma eterna desimportância. Confundir-se todo cantando o Hino Nacional, é ou não é?

Manga tem, e muita. Menos na prateleira do supermercado, mais debaixo da árvore, na sombra, quando a gente disputa a polpa com os marimbondos.

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Feio

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Feio, feio, mas tão feio que, não contente em ser feio, enfeava tudo em volta. O pijama, o balcão do boteco, o pôster na porta do armário, o vaso na sala, a sala, não adiantava: ao seu lado, tudo ganhava feiúra.

Em noite de lua cheia, metia medo nas crianças. Pouco saía no quarto, evitando dar susto nos outros. Na última tentativa, o cachorro uivou oito noites seguidas e nunca mais que parou de tremer. Trancou-se então no quarto, escutando música e se desenhando bonito.

Feio que deixava a maior bagunça na casa, só para ouvir a faxineira dizer: “Bonito, hein?” Até aranha peluda fugia assustada do pobre. Lesma, mandruvá, morcego, moreia.

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