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Coluna - page 127

Stand Up Crônicas: SAUDADE DE QUÊ?

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SAUDADE DE QUÊ?

Vira e mexe, a gente ouve alguém falar que tem saudade da infância. Você mesmo já deve ter dito isso uma vez ou outra, num momento de nervosismo. Mas aí eu te pergunto: tá com saudade de quê?

De andar por aí cheio de cocô, até alguém ter a boa vontade de te limpar?

De ficar horas de cara para a parede só porque falou um palavrão?

De ter que comer todos os legumes para ter direto à sobremesa?

De ter que obedecer os mais velhos, sendo que 99% da humanidade é mais velha que você?

De um tempo em que o máximo de sexualidade que você tinha era quando seu cotovelo roçava disfarçadamente no seio de alguma amiga da sua mãe? (Ou no caso das meninas, quando o Cigano Igor aparecia sem camisa na novela?)

De fazer lição de casa?

De ter que ir para a cama às dez da noite, sendo que os melhores programas da televisão sempre passaram justamente depois desse horário?

De ter que mostrar o pipi para todas as visitas que chegavam em casa?

De ter medo de fazer aniversário porque na festinha, suas oitenta tias faziam fila para apertar suas bochechas e chacoalhar sua cabeça de um lado para o outro?

De achar groselha uma delícia e cerveja muito amarga?

De suas reivindicações só serem atendidas depois de você gritar até perder o fôlego e ficar roxo?

De tomar um baita de um choque, só porque enfiou o dedo mindinho no buraco da tomada?

De acreditar que existe um velhinho de barbas brancas que te dá recompensas se você for bonzinho? (essa serve tanto para Deus, quanto para o Papai Noel)

De conseguir manter uma conversa “olhos nos olhos” apenas com outras crianças e joelhos?

De odiar e evitar convívio com qualquer indivíduo do sexo oposto?

De não poder sair de casa sozinho porque mora no 8o andar e, por causa de sua altura, só consegue apertar até o 4o no elevador?

De tirar meleca do nariz com o dedo e achar que ela pode ser um bom snack?

Por tudo isso, toda vez que alguém fala que na infância é que a vida era boa, eu respondo: Engole esse choro. Não quero ouvir mais nem um piu.

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 José Luiz Martins. Humorista, publicitário e roteirista. Sócio da empresa Pé da Letra, de criação e produção de conteúdo. © 2013.

Portrait: O amor bochechado e cuspido

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Camila

O amor bochechado e cuspido

Você sabia que tem um nigeriano processando uma marca de creme dental porque em sete anos de uso seu “bom hálito” lhe rendeu uma bofetada e nenhuma mulher em seu currículo? Ele diz que usa o produto desde a primeira propaganda que afirma que assim as mulheres se interessarão por ele. E desde então, nem um convite para um café ou um chá foram aceitos. A última tentativa de beijar alguém acabou, literalmente, com um tapa na cara.

Levando em consideração apenas esta visão utópica do consumidor (e não a oportunista de querer tirar dinheiro e vantagem da situação), o homem não comprou um produto de higiene bucal. Comprou um sonho: a solução para suas frustrações. A cada tubo que adquiria, além de flúor e bicarbonato de sódio, levava para casa a esperança de achar a mulher da sua vida.

Desentubou, bochechou e cuspiu por sete anos sua baixa autoestima, seus medos e inseguranças, mas isso não foi suficiente. A boca ficava limpa, os dentes brilhantes, o hálito fresco, mas a mente e o coração, cada vez mais incrustrados. Tamanha foi a decepção e a falta de noção de que o que interessa numa relação entre pessoas é o todo e não a parte, que levou aos tribunais, e não ao divã,  o que acreditou ser “incompetência” da empresa, que, segundo ele, vendeu sonhos inalcançáveis.

A mesma lógica cabe aos que ligam para os números em cartazes colados em postes pelas cidades, que garantem trazer o seu amor em seis horas. Se você for muito inconstante, ou tiver em dúvida de quem quer na sua vida, tem a possibilidade de mudar de opinião, de namorado, marido ou admirador, quatro vezes ao dia! Caramba, o planeta leva um ano pra passar por quatro estações e você pode mudar de amor o mesmo número de vezes em apenas um dia. Será que não tem nada de errado aí?

Como podem um creme dental ou uma cartomante dar conta de sua vida e seus sentimentos? Ser a solução dos seus problemas? E ainda, transformar no outro (que muitas vezes não te conhece direito) a visão ou o interesse que tem por você? Não seria mais sensato mudar o seu comportamento? Perceber que não é a pasta de dente (embora beijar alguém com mau hálito esteja fora de cogitação) que fará alguém te enxergar e te desejar? Não serão o brilho nos olhos e nas atitudes, na sintonia do que se deseja viver e compartilhar, que chamarão mais a atenção?

E se ainda assim nada acontecer, perceber que talvez não fosse pra ser? Que outras oportunidades virão? Que a vida é dinâmica e pessoas vêm e vão? Que o creme dental poderia funcionar sim, meu caro, se você o utilizasse, além da maneira habitual, como um recurso para se transformar em alguém mais seguro – sem perder a sensatez – para as conquistas da sua vida?

Enquanto isso, a indústria de cosméticos, de produtos de higiene e a cigana com mandingas mil garantem que podem realizar em seu lugar o sonho que, por “n” motivos, você deixou de encarar, correr atrás e os desentubou, bochechou e cuspiu.

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Camila Linberger é relações públicas, sócia-diretora da Get News Comunicação, agência de comunicação corporativa e assessoria de imprensa sediada em São Paulo. © 2013.

Stand Up Crônicas: E VIVA A TECLA MUTE

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E VIVA A TECLA MUTE

Já reparou que as pessoas que mais gostam de ouvir música alta são as com o pior gosto musical? Na verdade, elas já entenderam que seus gostos não vão melhorar nunca e estão tentando ficar surdas para se livrarem dessa maldição.

O gênero que me perturba há mais tempo talvez seja o sertanejo. Para cantar sertanejo, você tem que saber fazer uma voz bem fininha e tremer cada nota como se sua garganta estivesse com Mal  de Parkinson. Mais ou menos como o Bruce Dickinson faz no Iron Maiden.

As letras dos sertanejos só falam da dor de corno. O que é perfeitamente compreensível: com maridos cantando com aquelas vozinhas, as esposas invariavelmente acabam dando para outros caras.

E quando o sertanejo começou a dar sinais de queda nas vendas, lançaram o sertanejo universitário. Quem comemorou foi o governo, que passou a computar esses artistas como sendo formados em curso superior, para tentar melhorar as estatísticas da educação no país.

Logo depois do sertanejo, mas igualmente chato, veio o pagode. O pagode nada mais é do que um samba muito, mas muito adocicado mesmo. É como se você pegasse o Adoniran Barbosa e jogasse dentro de uma piscina de marshmellow.

Os pagodeiros fazem de tudo para soarem doces e fofos – alguns quando cantam, parecem até que estão chorando. E é exatamente assim que eu ouço a música deles.

Quero deixar claro que não tenho nada contra o samba. Muito pelo contrário, gosto muito de vários estilos de samba – como por exemplo o samba de raiz. Mas para os pagodeiros, samba de raiz é só quando a dançarina do grupo está com a tintura do cabelo mal-feita.

Outro gênero que faz muito sucesso no Brasil é o axé. Outro dia, eu mesmo baixei um monte de mp3 de vários artistas de axé. Não porque eu goste, mas só pelo prazer de fazer algo ilegal contra eles.

Apesar de eu não gostar, devo reconhecer a importante contribuição do axé para a sociedade. Graças a suas letras, pessoas com QI abaixo de zero desenvolvem habilidades motoras e aprendem a “tirar o pé do chão”, “levantar a mãozinha” e “balançar a bundinha”.

Nos últimos anos surgiu o funk que, infelizmente, não guarda nenhuma semelhança com seu xará norte-americano. Aliás, se James Brown estivesse vivo e soubesse que tipo de música é chamada de funk hoje em dia, ele mudaria o nome da música que ele fazia para “Oftamologista”.

Os defensores do estilo argumentam que o ritmo e a sonoridade do funk são bons. Depende ao que você compará-los: perto de rolar de uma escada caracol por 20 andares e dar de cara com o goleiro Bruno, funk é bom.

O funk também teve um filho: o funk ostentação. Para fazer o estilo, basta comprar roupas de grife, relógios caros e carrões importados. Gastando tanto, obviamente não sobrará dinheiro para você comprar nem uma quitinete e a única alternativa será morar na favela. Com essa inteligência dos funkeiros, fica explicado por que não existe funk universitário.

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 José Luiz Martins. Humorista, publicitário e roteirista. Sócio da empresa Pé da Letra, de criação e produção de conteúdo. © 2013.

Portrait: A mulher que cambaleava no salto 15

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Camila

A mulher que cambaleava no salto 15

A mulher cambaleava. De um lado pro outro como se estivesse na corda bamba, enquanto comentava inconformada com as amigas: “O saltinho desta sandália caiu na semana passada”. Fui obrigada a olhar para os pés dela. O salto longo e fino compunha o figurino que tentava ser corporativo e destoava do resto de sua roupa e corpo, um pouco rechonchudo. Equilibrar-se com aquele porte, naquele salto, não é para qualquer um.

Foi então que me dei conta de que todos nós, quando nos vestimos para sair, nos olhamos no espelho antes para aprovar ou não o que escolhemos. E fazemos isso, óbvio, parados. No máximo, damos aquela voltinha básica para ver se está tudo em ordem, se tem alguma etiqueta pra fora, pra colocar a calça e as mangas no lugar. Feito o check up, rua!

Mas depois de um tempo, quando as horas passam e os pés incham, quando, na hora do almoço, o restaurante fica a três quarteirões de distância do escritório, quando o sapato começa a apertar, viramos um pouco “Valdirene” (personagem de Tatá Werneck em Amor à Vida).  Sim, eu me incluo nisso depois de horas de barzinho ou balada com meus amigos. Brinco com eles que preciso ir embora porque a Valdirene chegou. Não dá certo uma mulher se equilibrando no salto como se estivesse escalando um morro numa trilha cheia de pedras, cambaleando. Toda a elegância e feminilidade que o sapato poderia proporcionar caem por água abaixo.

É aí que se percebe que a elegância está no andar e não no sapato, no porte e não na altura, na atitude e não no vestir. Mais elegante uma rasteirinha em um andar delicado, do que um salto alto em um passo pesado. E pra isso, não precisa ter sobrepeso, basta estar com um dedinho apertado, uma bolha no pé, uma dor a mais que te incomode.

Eu sou baixinha, estilo mignon mesmo, e, apesar de já ter passado por isso inúmeras vezes, uso e abuso de saltos, principalmente à noite. Quando estamos com pessoas mais altas (o que no meu caso não é raro), ou se põe o salto, ou se senta pra conversar, ou inevitavelmente, amanhã será um dia de torcicolo. O ideal é perceber quando não dá mais e cair fora, voltar para o conforto dos pés no chão ou, no máximo, nas pantufas dentro de casa.

Cheguei ao ponto de ter que pedir ajuda: “Me dá a mão pra eu não cair nestes buracos das calçadas de São Paulo”, para não ter que virar Valdirene à luz do dia. É chato, preferia a elegância de um salto menor, que não machucasse, cansasse e inchasse os pés, que não me colocasse em perigo (sou desastrada e um entorse não pode ser descartado), mas acontece. Lógico, sempre depois de nos vermos no espelho, acreditarmos que está tudo lindo e…. rua!

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Camila Linberger é relações públicas, sócia-diretora da Get News Comunicação, agência de comunicação corporativa e assessoria de imprensa sediada em São Paulo. © 2013.

Stand Up Crônicas: PARABÉNS POR QUÊ?

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PARABÉNS POR QUÊ?

Ontem foi meu aniversário. Mas não foi um aniversário qualquer, ontem eu completei 40 anos. E existe um ritual que todo ser humano tem que passar quando chega aos 40: ouvir todas as piadinhas sem graça com sua idade. E não adianta tentar escapar, é uma tradição milenar e a você só cabe ficar calado e tentar passar por ela. Para um homem, só existe uma coisa pior que fazer 40, fazer 24.

A primeira coisa que todo mundo fala é que a vida começa aos 40. E esse clichê não vem sozinho, ele vem sempre acompanhado de uma expressão triunfal de quem fala, como se estivesse dizendo aquilo pela primeira vez na história da humanidade.

Mas se a vida realmente começa aos 40, é uma baita de uma crueldade da natureza. Veja só que desperdício, a vida só começar quando você está acima do peso, calvo e sem o apetite sexual dos 18.

É óbvio que isso tudo é só uma mentira para consolar a gente. A única coisa que comprovadamente começa aos 40 é o exame de próstata.

É, amigos: é chegada a hora da dedada. E como se trata de algo inevitável, pelo menos vou procurar um médico especialista, preparado, pós-graduado no exterior e, principalmente, que tenha a mão pequena.

Além do proctologista, agora vou ter que fazer checkups anuais – ou seja: vou ter que ir ao hospital muito mais vezes e ter que aturar o proctologista dando aquela piscadela toda vez que passar por mim na sala de espera.

Mas se a saúde já não é mais a mesma, pelo menos a memória fica uma porcaria. Lembro que, aos 25, eu costumava saber decor todas as minhas senhas, o número do cartão de crédito, CEP, RG e CPF. Hoje eu preciso consultar a identidade toda vez que me perguntam o nome da minha mãe.

Menos cabelos, menos saúde e menos memória. Alguma coisa tinha que aumentar quando você chega aos 40: o mau-humor. É natural, meu amigo: você é mais rabugento aos 30 do que era aos 20. É mais rabugento aos 40, do que era aos 30. E já fico num mau-humor desgraçado só de imaginar o quanto eu vou ser rabugento aos 50.

Como tudo tem seu lado bom, eu tenho pelo menos um motivo para comemorar. Agora, finalmente, eu posso estufar o peito com orgulho e dizer:

– No meu tempo é que era bom.

O que era bom? Sei lá: qualquer coisa. Eu passei a vida inteira ouvindo meu pai e meu avô falando isso e agora é minha vez.

Afinal, ter 40 anos é fazer parte de uma geração muito especial, que provou Dip’n Lick, usou mullets, cantarolou Engenheiros do Havaí e viu a Era Dunga dominar o nosso futebol.

Ter 40 anos é ter tido suas primeiras fantasias sexuais olhando para catálogos de lingerie, porque a porcaria de internet só chegou depois de você ter perdido a virgindade.

Ter 40 anos é não ser digno de receber um “parabéns”. No máximo um “liga não, a vida é assim”.

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José Luiz Martins. Humorista, publicitário e roteirista. Sócio da empresa Pé da Letra, de criação e produção de conteúdo. © 2013.

Portrait: “A vida revelada como foto: pode ser pra daqui a pouco, como antes, ou tem que ser pra já?”

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Camila

A vida revelada como foto: pode ser pra daqui a pouco, como antes, ou tem que ser pra já?

A coluna entrou no ar. E, entre os comentários e desejos de boa sorte dos amigos, um pedido bacana e incomum para os dias de hoje. No meu texto de abertura da coluna, onde apresentei sobre o que falaria, comentei sobre as fotos, hoje tão corriqueiras. Se tira foto do amigo, do passarinho e do mico que está na praça. Se posta, se compartilha, e pronto. Você é um ser social – pelo menos em parte.

Fui lembrada por uma amiga sobre o “modo antigo” de se clicar. Quando a gente tinha a máquina, os filmes, de 12, 24 ou 36 poses, que quando tinha festa, aniversário ou viagem, se carregava uma mala com as bobinas de filmes. E a ansiedade? Naquele tempo, não existia internet ainda, nem celular (e parece que eu estou falando de 60 anos atrás, mas não são mais de 20). Se você era criança ou pré-adolescente como eu, e a sua mãe saia para ir ao mercado e você esquecia de pedir alguma coisa, ficava sem, não tinha como pedir aquela bolacha. Tudo o que restava era se lamentar em sua volta.

O mesmo acontecia com as fotos. Depois de todo o processo – limitado – sim, a gente tinha que contar quantas fotos tinham ainda no filme e “guardar” espaço para a hora do parabéns. Para se ter fotos de todos, juntava-se um monte de gente, pra não faltar ninguém, afinal, vai que o filme acaba…

E depois disso, às vezes dias, outras vezes semanas ou até meses, a gente ia numa loja e pedia para revelar as fotos. Não era um serviço muito barato. Foto não era o suprassumo, mas podia ser, de alguma forma, considerado artigo de luxo.

Aí, nos melhores lugares, dentro de uma hora você podia voltar pra pegar e… “o filme não rodou quando estava na máquina, foi impossível revelar”! Isso aconteceu com a minha família quando fomos para a Disney, em 1994. O parque pelo qual mais me encantei foi o da Universal Studios. Adivinha? Sim! Só ficou para mim a lembrança do meu encanto.

E aquela foto com os seus amigos, que você saiu de olho fechado e não sabia? Se fosse nos dias de hoje, tira outra e está resolvido. Também passei por outra situação, em que o avô de um ex-namorado, em uma formatura, ficou uns dois minutos enquadrando a gente para a foto e na hora da revelação, bem, eu sai pela metade!

Em uma das últimas vezes em que usamos a máquina mecânica, em viagens de família, foi em Maceió. Tiramos uma foto ao lado de um repentista. Quando revelamos, eu não estava lá! E pior, eu jurava que estava! Aí, vendo detalhadamente, percebemos que minha irmã tinha três pernas! Não me perguntem como, porque ela é tão pequena quanto eu, mas eu simplesmente sumi atrás dela!

E aí valem algumas reflexões para os dias de hoje: será que você manteria uma foto “mico” para depois de um tempo transformá-la em um risível momento? Ou será que o mais importante é se sentir bem com a imagem que está representando ali? Teria coragem de mostrar para as pessoas, publicá-la ou guardaria para si?

Se os tempos para se ter os resultados – hoje a foto é instantânea – voltasse a ser como o anterior, se a vida te pedisse mais calma e menos ansiedade, você estaria pronto para isso?

Será que se isso acontecesse seria um retrocesso, ou será que agiríamos de forma mais tranquila, mais pensada e menos impulsiva? Será que o relatório que seu chefe pediu realmente precisaria ser para hoje, feito às pressas, ou poderia ser feito com mais calma e cuidado? E os seus sonhos, podem ser construídos aos poucos ou também tem que ser pra já?

A gente não sabe quanto tempo cada um tem de vida, mas, independente do quanto for, como a nossa sociedade está usando este tempo? Quanto para si e quanto para parecer aos outros?

O que vale mais na sua vida, a gargalhada pela foto “mico” compartilhada ou o sorrisinho frio e calculado? A vida pode ter os dois, mas cabe a você saber qual deles tem maior valor nas suas escolhas, o que te faz se sentir bem e feliz. Reflita e vá em frente! Feliz Ano Novo!

© 2013, The São Paulo Times.

Stand Up Crônicas: Ano novo, velhos hábitos

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Stand Up Crônicas: Ano novo, velhos hábitos

O ano está acabando e a maioria das pessoas que conheço gosta de passar o ano novo comendo castanhas. Mas também há quem prefira as loiras, morenas e ruivas.

Mas o que não consigo acreditar é que dependendo do que você comer, seu ano vai ser bom ou ruim. Por exemplo, dizem que se você comer frango ou peru, sua vida vai andar para trás. E por um simples motivo: esse animais ciscam para trás. Seguindo esse raciocínio, presumo que também não se pode comer veado.

Dizem também que comer lentilha dá sorte. Sorte eu não sei, mas dá gases.

Entre as superstições, uma das mais famosas é aquela que diz que pular 7 ondinhas ajuda a ter um bom ano. Está explicado então porque o Atlético Mineiro não foi pra final do mundial. E, por via das dúvidas, o Aécio deveria passar o Reveillon em Copacabana.

Na festa de Reveillon, quase todo mundo veste roupa branca – a cor da paz. Só que se alguém passar mal, vai ser difícil saber quem é o médico para pedir ajuda. E a festa vai ter de tudo, menos paz.

As mulheres acreditam que vestir roupa vermelha ou rosa traz felicidade no amor. Funciona. Principalmente se for justa e decotada.

Dizem também que roupa amarela traz dinheiro. Sei não, se isso fosse verdade, os fiscais da CET não precisariam mais trabalhar.

E quem nunca fez promessa para o ano que chega? A mais famosa é prometer parar de fumar. Infelizmente, estatísticas comprovam que apenas 10% dos fumantes cumprem a promessa: os que morrem.

Uma variante é a promessa de parar de beber. Essa, eu faço em todo Reveillon. Mas sabe como é, né? Na hora da virada, todo mundo faz um brinde e bebe uma taça de champagne num só gole. E minha promessa já vai para o saco logo nos primeiros segundos do ano.

Outra bastante popular é a promessa de emagrecer. Essa já tem um índice de sucesso maior: a maior parte dos que não cumpriram a promessa de parar de fumar emagrecem. Tem também a promessa de finalmente juntar dinheiro – essa só costuma ser cumprida lá para os lados de Brasília.

Mas estou decidido, já fiz minha promessa para 2014. E vou documentar aqui, para garantir que vou cumprir. Eu prometo passar o próximo ano inteirinho sem ouvir nenhum pagode, sertanejo, funk carioca ou axé. Podem me cobrar.

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José Luiz Martins. Humorista, publicitário e roteirista. Sócio da empresa Pé da Letra, de criação e produção de conteúdo. © 2013.

Portrait: Que moedas de ouro você quer no seu Natal?

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Camila

Que moedas de ouro você quer no seu Natal?

Hoje é Natal. E quem não pensa no bom velhinho neste dia? Segundo algumas pesquisas que fiz para escrever esta crônica, Papai Noel existiu, foi arcebispo turco no século IV, mais tarde conhecido como São Nicolau Taumaturgo. Nesta época do ano, ele costumava colocar moedas de ouro nas chaminés das casas mais humildes da cidade de Mira, onde morava. Mais tarde, ao ter alguns milagres atribuídos ao seu nome, foi considerado santo, São Nicolau. Sua imagem tornou-se um símbolo natalino na Alemanha, e de lá se espalhou para o mundo inteiro. Não importa onde more, no Polo Norte segundo os americanos, ou nas montanhas de Korvatunturi na Lapônia, Finlândia, conforme os britânicos, muito antes da famosa globalização tomar forma, Santa Klaus já era um mito universal, muito cultuado no ocidente.

Conversei com algumas pessoas para saber como foi a sua descoberta de que Papai Noel não existia. E para a minha surpresa, 80% delas não se lembravam, independente de sua classe social. Então veio a reflexão: será que o ser humano não quer se desfazer de boas lembranças? Será que quer manter dentro de si este encantamento de alguma forma? Qual o motivo de tantas pessoas não se lembrarem disso? Ele não é realmente importante, embora seja um ícone desta data, ou será que é melhor, mesmo sabendo da verdade, manter o mito?

Por que mesmo depois de saber da verdade, ainda nos encantamos com as histórias de Natal e seu entorno? São Paulo fica intransitável nas redondezas do Parque do Ibirapuera e da Avenida Paulista nesta época do ano, justamente porque as pessoas querem ver sua decoração, as comemorações que marcam a cidade. E então, manter o mito ainda é a melhor forma de se viver, de se acreditar em um mundo melhor?

Se no lugar de presentes materiais, Papai Noel pudesse trazer outros presentes, aqueles que não se compram, quais você desejaria para si, para sua família, seus amigos, para a sociedade? Será que também é mítico o desejo de uma sociedade onde não haja corrupção, onde os políticos cumpram suas funções sem quererem receber mais por isso, onde as pessoas saudáveis e jovens não estacionem nas vagas reservadas para deficientes e idosos, onde a lei de Gerson não prevaleça?

Será que é mítico fazer o bem sem se esperar o reconhecimento, um mundo com menos fome e mais alimento, com mais trabalho e trabalhadores, com mais sorrisos sinceros e não oportunistas, um trânsito com mais solidariedade e menos impaciência?

Será que é mítico o desejo de um relacionamento em que a lealdade e a fidelidade sejam intrínsecas à escolha que se fez quando se optou por assumir o outro como namorado ou marido, namorada ou esposa? Será que é mítica uma amizade sincera, sem se olhar para o que o outro possa te dar, mas para o que você pode oferecer a ele?

Será mítico um sistema público de saúde que funcione e realmente cuide de sua população? Uma escola pública que ensine e não dê ao aluno o ano sem repetência, mas com formação? Será mítico um inverno sem pessoas morrendo de frio, com crianças cobertas e dentro de um abrigo em noites gélidas?

Será que conseguiremos um dia transformar as tais moedas de ouro que aquele São Nicolau Taumaturgo, arcebispo turco, depositava nas chaminés, em valores palpáveis para uma sociedade melhor? E não estou falando de se subsidiar a pobreza e nem os pobres, mas de dar a toda população condições de saúde, trabalho e educação de forma real e semelhante.

São Nicolau se tornou um mito universal de amor, paz e alegria. Será que um dia, ao contrário do arcebispo turco, estes valores deixarão de ser mito e se tornarão realidade?

Enquanto me indago, a sociedade continua sendo a mesma. Um ou outro fazem a diferença. É hora de pararmos apenas de refletir e pegarmos nas mãos nossas moedas de ouro: transformá-las em sorrisos e vidas de ouro, a começar por nós mesmos. Sem a pretensão de nos tornarmos santos, mas com o desejo natalino – e que este perdure pelo ano inteiro – de realmente transformarmos e vivermos em um mundo melhor.

© 2013, The São Paulo Times.

Stand Up Crônicas: O Barba

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O Barba

No Natal, todo mundo quer saber de presentes, de comer muito, de beber muito, mas ninguém se lembra do mais importante. Natal é o nascimento daquela pessoa que sofreu muito, que levou uma vida de sacrifícios: meu primo Osvaldo. Sim, o pobre Osvaldinho  faz aniversário no dia de Natal e passou a vida ganhando um presente só. E quando eram dois, no máximo eram dois sapatos. Não dois pares, mas um par mesmo. Imagine o Papai Noel entregando só um pé do sapato para ele:

– Toma, Osvaldo. O outro pé é de aniversário, vai pedir pra sua mãe.

Eu, particularmente, nunca acreditei no Barba. Mas meus irmãos acreditaram. Lembro que em uma certa idade, eles já estavam desconfiando que o Papai Noel e nosso pai eram a mesma pessoa, pois nunca um aparecia ao lado do outro – tipo Clark Kent e Superman, Bruce Wayne e Batman, eu e o Brad Pitt.

Então meus pais tiveram a brilhante idéia de naquele ano o Papai Noel ser encarnado por minha mãe. Tá certo, nós vimos os dois papais juntos: aquele que vivia de saco cheio e o Noel. Mas lembro que a certa altura, meu irmão de cinco anos, chegou com cara de assustado para mim:

– Cê não acredita: o Papai Noel é viado.

– Que isso, Ricardo?

– Juro. Ele tá de brinco e tem voz fina.

Tudo fez sentido na cabeça do meu irmão, alguns anos depois na aula de inglês, quando ele descobriu que os americanos chamam o Papai Noel de Santa.

Dentre as coisas que me fizeram não acreditar no Barba, a principal era uma dúvida: como o Papai Noel, velhinho daquele jeito, aguentaria levar presente para tantas crianças do mundo todo? Só com ajuda de muito Viagra. Taí, o Viagra poderia usar o Papai Noel em uma campanha de Natal: ele estaria na cama com uma mulher bem mais nova. E ela, exausta, falaria:

– Você é bom, velhinho.

Isso sem contar nas inúmeras rimas sugestivas, que o nome Nicolau proporcionaria – seria um sucesso.

Outra coisa que sempre me intrigou é o fato de o Papai Noel ter sempre a mesma aparência. Estou com 40 anos e, desde que me lembro, o Noel não envelheceu nada. Ou ele tem alguma síndrome do tipo Peter Pan e Benjamim Button ou tem alguma coisa errada aí. Vejamos: a expectativa de vida de um ser humano na Lapônia é de 80,7 anos. Quando eu tinha 5, o Noel aparentava uns 65. Hoje, deveria estar morto – ou ao menos com a cara da Dercy Gonçalves.

Com ou sem Papai Noel, deixo aqui meus votos de Feliz Natal a todos os leitores. E que você ganhe mais presentes que meu primo Osvaldo.

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José Luiz Martins. Humorista, publicitário e roteirista. Sócio da empresa Pé da Letra, de criação e produção de conteúdo. © 2013.

 

Por seis segundos em cada esquina de São Paulo

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Camila

Por seis segundos em cada esquina de São Paulo

Quarta maior aglomeração urbana do planeta. Mais de 11 milhões de habitantes disputando espaço, emprego, atenção e, no fim de ano, presentes de Natal. Para satisfazê-los, milhões de reais são investidos em decoração, enfeites e contratação de Papais Noéis. É isso mesmo. O fim do ano chega e você não parou pra pensar que os velhinhos, que passam o ano inteiro colocando as barbas pra crescer, as tiram do molho e pegam firme no batente. Existem books em agências especializadas para se contratar Papais Noéis. E a disputa começa ainda no fim do primeiro semestre, para que se escolha aquele com mais cara de “bom velhinho” e sente no trono do seu shopping e leve mais crianças e dinheiro ao comércio paulistano.

Como toda grande metrópole mundial, a cidade começa a se enfeitar e se encher de luz. Passei ao lado do Parque do Ibirapuera na semana passada e a grande árvore de Natal já está preparada. As fachadas de shoppings e bancos recebem mais luzes. Em alguns lugares, corais emprestam suas vozes às melodias que embalam as noites de dezembro.

Na decoração deste ano, outros valores, não só os financeiros, fazem parte desta data, considerada a mais lucrativa para o varejo. A novidade está espalhada em letras: palavras como amor, paz, união e amizade foram distribuídas por suas esquinas, bem grandes, para lembrar às pessoas, em meio ao caos do trânsito causado pelas tempestades (e pelo excesso de carros, claro), os valores que devem ser lembrados o ano inteiro e que são reforçados nesta época, independente da sua religião.

Sim, sei que o Natal é uma data cristã, que comemora o nascimento do menino Jesus. Mas os tais valores cristãos deveriam ser chamados de “valores humanos”. Não cabe a eles raça, cor, classe social e se quer, religião. Carregam em si a incumbência de lembrar à sociedade sua importância para o bom convívio, para uma vida conjunta melhor. E não só no fim do ano, mas no ano inteiro, pela vida inteira.

Infelizmente, tragédias continuarão a acontecer. Desabamentos, acidentes, assassinatos. Gente ruim continuará a transitar entre nós, não tem como ser diferente, faz parte da vida! Mas se todos os dias, ao levantarmos, lembrarmos de fazer algo bom por nós e pelos outros – a começar por nossas famílias – já geramos uma grande mudança.

Dizem que para a gente se contaminar por uma situação que nos cause mau humor, como uma fechada no trânsito, por exemplo, e mudar o rumo do nosso dia para algo pior, basta vivenciá-la e “ficar dentro dela”, pensando e se consumindo por seis segundos. Seis míseros segundos.

Então, que em 2014, você consiga levar para a sua vida esta pequena grande mudança: a dos seis segundos. Transforme isso. Respire fundo quando algo de ruim te acontecer. Situações chatas e negativas são inevitáveis. Mas lembre-se que rir ou berrar está em suas mãos. A grande transformação de um dia mais ou menos em um dia bom ou ruim pertence a você. Você pode mudar a sua vida em 2014. Você pode mudar a vida de quem está perto de você. Você pode mudar a vida da sua cidade!

Que São Paulo, mesmo depois que o novo ano entrar, continue a encontrar em suas esquinas, amor, união, paz, alegria e amizade. Mais do que a cidade, seus cidadãos precisam disso para uma vida melhor. Construa um ano novo feliz. E se precisar, (você vai precisar), conte comigo: 1,2,3,4,5,6. Respire fundo e vá em frente!

© 2013, The São Paulo Times.

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