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Coluna - page 131

Dicas & Pepitas: Mãe Solteira

em Coluna por

Alex

Mãe Solteira

Recebi um e-mail que dizia: “Por favor, escreva sobre o preconceito que os homens têm em namorar com mulheres que já são mães. Eu tenho 32 anos, meu filho 8 e sofro muito com isso”.

Por coincidência, eu vivi boa parte da minha vida com padrasto e sei mais ou menos do que se trata o assunto. Fiz uma pesquisa e o resultado é esse:

A idade é o fator principal. Homens de até 25 anos sonham em conhecer uma mulher sem filhos para não carregar o famoso “chaveirinho” nos lugares que frequenta e, porque nessa idade, o homem quer sair com a sua companheira para diversos lugares ao mesmo tempo, que geralmente são impróprios para crianças.

Outro motivo que faz um homem não se relacionar com mães solteiras é a presença do pai na vida deles, como já disse no tema ciúme, a presença do ex provoca insegurança. E alguns homens ficam com medo de se apegar a criança e sofrer caso o relacionamento termine.

Muitos homens querem seguir o mandamento do casamento: lua de mel de 4 anos e depois ter o primeiro filho homem, com as suas características e todo esse machismo que já conhecemos. E se a mulher já tem um filho, essa etapa é pulada.

Alguns ainda ligam para a parte financeira, acham que vão ter que contribuir com a educação, brinquedos, entre outras coisas que uma criança precisa.

Mas se você é mãe solteira e pensa que tudo está perdido, eu tenho uma boa notícia.

Homens acima dos 30 anos não ligam para isso e até assumiram o filho da sua namorada, além disso, são homens estruturados financeiramente e que estão com o lado paterno no auge.

As dicas para as mães solteiras são:

Procure homens e não garotos para se relacionar.

Mostre que você procura um amor verdadeiro e não um pai para o seu filho.

Demonstre que você é uma excelente mãe, assim seu namorado também vai querer ter outros filhos com você.

Saiba separar os momentos: tem hora para o filho e hora para o namoro, conciliar os dois no começo do relacionamento pode ser constrangedor, principalmente para o seu filho.

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Alexsander Brunello. Editor-chefe do The São Paulo Times. É redator publicitário e atualiza a sua coluna Dicas & Pepitas todas as quintas-feiras. © 2014.

Portrait: Como Barbies, só que não

em Coluna por

Camila

Como Barbies, só que não

Se na semana passada falei sobre o nigeriano que achava que ao comprar o creme dental estava levando para casa a mulher dos seus sonhos, hoje vou inverter o processo. Vamos falar sobre as mulheres que ele achou que compraria. Sinto lhe informar, mas elas compram até hoje a construção de si mesmas, mas não existem.

Quem viveu sua infância a partir de 1960, quando as Barbies foram criadas, sabe do que estou falando. Se você é mulher e sua família teve condição financeira de bancar isso, provavelmente você teve uma Barbie, seu carro, sua casa, suas roupas, e, claro, seu Bob ou Ken. Sendo a boneca a representação da mulher perfeita e infalível, o óbvio aconteceria: seu homem seria o reflexo de si, a tampa da sua panela: lindo, bem vestido, com cara de bem sucedido, tão perfeito tal qual ela.

E se na infância se brincava de mamãe e filhinha e na vida adulta se tornou mãe, se brincava de lojinha e se tornou empresária, a busca por se tornar a Barbie é eterna. Que mulher a partir dos vinte e poucos anos não comprou um creminho antirrugas, não fez ao menos uma drenagem linfática para eliminar gordurinhas, não investe pesado em roupas, sapato e cabeleireiro? Quem nunca fez uma dieta, ou se matriculou na academia em busca de um corpo esbelto e definido, atrás da cinturinha irreal da boneca? Tem as que foram mais longe e recorreram ao botox, ao silicone, à lipoaspiração e à rinoplastia.

Todas, raras exceções, e às vezes sem total consciência sobre isso, buscam ser Barbies: o ícone da mulher perfeita. Campanhas publicitárias endossam o perfil. Raramente uma foto não passa por Photoshop tirando gordurinhas, eliminado manchas, papas nos olhos e espinhas, afinando coxas. Isso quando, à base de maçãs, alface e, certas vezes, bulimia, as modelos não tentam chegar por si mesmas (e algumas, infelizmente, até morrem de anorexia) no resultado que o editor de imagem consegue.

Em qualquer editorial de moda, a plasticidade das imagens, sem defeito algum, inspira o ideal, o glamour, a beleza incessante e irreal. E mais uma vez, se paga caro pelas roupas e se leva para casa a felicidade em sacolas que logo mais viram a frustração na frente do espelho. A roupa, caríssima, não ficou tão boa em você como na modelo. Claro, a vida, em movimento, não é feita de photoshop e nem de alfinetes.

Mulheres reais tem TPM, choram, ficam ansiosas por uma barra de chocolate ao mês, frequentam bares e inflam suas barrigas com chopp, caipirinha e uma porção de pastéis, enquanto discutem com as amigas suas imperfeições angustiantes e as soluções que viram na coluna de beleza da revista ou o novo tratamento que a dermatologista recomendou. Mulheres reais se decepcionam sim por não terem encontrado seus Bobs ou Kens, porque um dia, quando pequenas, sonharam em tê-los como as Barbies.

Ao perceber que nunca seremos como a boneca, passamos a aceitar também as imperfeições masculinas, quem sabe a barriguinha de chopp, algumas uma carequinha, um dente torto, um cara que ainda esteja correndo atrás de sua carreira e está em busca de ser bem-sucedido, o marido que demora a trocar a lâmpada e a arrumar o chuveiro, o que sai naquele dia para jogar bola quando você queria ir ao cinema.

Mulheres reais acordam cedo e vão à batalha. Colocam saia e salto alto, mas o blazer também. Elas estudam, são pós-graduadas, doutoras, tem Ph.D. São mães e assumem todas as tarefas que isso lhes compete. Cozinham, lavam, passam e trabalham fora. Quando não tem tempo para tudo isso, dividem a conta da empregada com o marido ou moram sozinhas e assumem a própria casa.

Mulheres reais são tantas em uma só que dificilmente caberiam no corpo esbelto da Barbie. Só conseguiriam manter a maquiagem como a da revista se não fossem tão ativas. Teriam cabelos perfeitos se não precisassem, rapidamente, amarrá-los em um rabo de cavalo que lhes desse agilidade de vez em quando.

Mas no mundo atual, em que assumimos papéis tão importantes nas corporações contribuindo para o desenvolvimento e a economia do país, ter a Barbie e as lindas e perfeitas modelos como referência, ainda é um alento para nós, mesmo que distantes de nossa realidade. São elas quem nos lembram de nossa delicadeza e feminilidade.

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Camila Linberger é relações públicas, sócia-diretora da Get News Comunicação, agência de comunicação corporativa e assessoria de imprensa sediada em São Paulo. © 2013.

Portrait: Como Barbies, só que não

em Coluna por

Camila

Como Barbies, só que não

Se na semana passada falei sobre o nigeriano que achava que ao comprar o creme dental estava levando para casa a mulher dos seus sonhos, hoje vou inverter o processo. Vamos falar sobre as mulheres que ele achou que compraria. Sinto lhe informar, mas elas compram até hoje a construção de si mesmas, mas não existem.

Quem viveu sua infância a partir de 1960, quando as Barbies foram criadas, sabe do que estou falando. Se você é mulher e sua família teve condição financeira de bancar isso, provavelmente você teve uma Barbie, seu carro, sua casa, suas roupas, e, claro, seu Bob ou Ken. Sendo a boneca a representação da mulher perfeita e infalível, o óbvio aconteceria: seu homem seria o reflexo de si, a tampa da sua panela: lindo, bem vestido, com cara de bem sucedido, tão perfeito tal qual ela.

E se na infância se brincava de mamãe e filhinha e na vida adulta se tornou mãe, se brincava de lojinha e se tornou empresária, a busca por se tornar a Barbie é eterna. Que mulher a partir dos vinte e poucos anos não comprou um creminho antirrugas, não fez ao menos uma drenagem linfática para eliminar gordurinhas, não investe pesado em roupas, sapato e cabeleireiro? Quem nunca fez uma dieta, ou se matriculou na academia em busca de um corpo esbelto e definido, atrás da cinturinha irreal da boneca? Tem as que foram mais longe e recorreram ao botox, ao silicone, à lipoaspiração e à rinoplastia.

Todas, raras exceções, e às vezes sem total consciência sobre isso, buscam ser Barbies: o ícone da mulher perfeita. Campanhas publicitárias endossam o perfil. Raramente uma foto não passa por Photoshop tirando gordurinhas, eliminado manchas, papas nos olhos e espinhas, afinando coxas. Isso quando, à base de maçãs, alface e, certas vezes, bulimia, as modelos não tentam chegar por si mesmas (e algumas, infelizmente, até morrem de anorexia) no resultado que o editor de imagem consegue.

Em qualquer editorial de moda, a plasticidade das imagens, sem defeito algum, inspira o ideal, o glamour, a beleza incessante e irreal. E mais uma vez, se paga caro pelas roupas e se leva para casa a felicidade em sacolas que logo mais viram a frustração na frente do espelho. A roupa, caríssima, não ficou tão boa em você como na modelo. Claro, a vida, em movimento, não é feita de photoshop e nem de alfinetes.

Mulheres reais tem TPM, choram, ficam ansiosas por uma barra de chocolate ao mês, frequentam bares e inflam suas barrigas com chopp, caipirinha e uma porção de pastéis, enquanto discutem com as amigas suas imperfeições angustiantes e as soluções que viram na coluna de beleza da revista ou o novo tratamento que a dermatologista recomendou. Mulheres reais se decepcionam sim por não terem encontrado seus Bobs ou Kens, porque um dia, quando pequenas, sonharam em tê-los como as Barbies.

Ao perceber que nunca seremos como a boneca, passamos a aceitar também as imperfeições masculinas, quem sabe a barriguinha de chopp, algumas uma carequinha, um dente torto, um cara que ainda esteja correndo atrás de sua carreira e está em busca de ser bem-sucedido, o marido que demora a trocar a lâmpada e a arrumar o chuveiro, o que sai naquele dia para jogar bola quando você queria ir ao cinema.

Mulheres reais acordam cedo e vão à batalha. Colocam saia e salto alto, mas o blazer também. Elas estudam, são pós-graduadas, doutoras, tem Ph.D. São mães e assumem todas as tarefas que isso lhes compete. Cozinham, lavam, passam e trabalham fora. Quando não tem tempo para tudo isso, dividem a conta da empregada com o marido ou moram sozinhas e assumem a própria casa.

Mulheres reais são tantas em uma só que dificilmente caberiam no corpo esbelto da Barbie. Só conseguiriam manter a maquiagem como a da revista se não fossem tão ativas. Teriam cabelos perfeitos se não precisassem, rapidamente, amarrá-los em um rabo de cavalo que lhes desse agilidade de vez em quando.

Mas no mundo atual, em que assumimos papéis tão importantes nas corporações contribuindo para o desenvolvimento e a economia do país, ter a Barbie e as lindas e perfeitas modelos como referência, ainda é um alento para nós, mesmo que distantes de nossa realidade. São elas quem nos lembram de nossa delicadeza e feminilidade.

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Camila Linberger é relações públicas, sócia-diretora da Get News Comunicação, agência de comunicação corporativa e assessoria de imprensa sediada em São Paulo. © 2013.

Crômicas: Castigo e Crime

em Coluna por

CarlosCastelo

Castigo e Crime

Recesso de fim de ano.

Hora de abrir os horizontes, fechar as malas e fugir da cidade.

Aos poucos, São Paulo vai ficando cheia de desvãos.

A família de Pires o esperava há uma semana numa pousada.

Ele, esposa e o pequeno Diego passariam as festas numa praia no litoral norte, velho sonho.

Homem metódico, quase jesuítico, Pires começara a se preparar para a viagem com 72 horas de antecedência.

Pagou diarista para deixar casa e roupas em ordem. Separou contas de fim de ano numa pasta. Foi à internet, agendou pagamento.

Só que, ao separar seus pertences para colocar na mala, olhou para o beiral da janela do quarto de Diego e quem estava lá?

Berry, o peixe beta.

Pires teve um sobressalto, uma quase hemiplegia, ao ver o bichinho de estimação do filho ali nadando, em sua felicidade bronca e pisciana.

Passariam uma semana fora de casa. Todos, inclusive empregada, estariam comemorando as festas.

Quem trocaria a água e colocaria aqueles farelinhos amarecelidos para Berry comer? Faltavam ainda 48 horas para a partida e nada lhe ocorria sobre o que fazer com o animalzinho.

Foi à chopada do escritório. E mesmo ali, entre os colegas, não lhe saía da mente o maldito peixe.

“Sim, talvez só restasse mesmo parar de alimentá-lo a partir dessa madrugada. Não trocar a água o forçaria a entrar em pré-coma morrendo antes da viagem. Porque se ele morre durante a semana em que estivermos na pousada o cheiro dentro de casa fica insuportável. Diego voltando no comecinho de janeiro. “Cadê o Berry, cadê o o meu peixinho lindo e querido, papai?” E o bicho podre e esfacelado dentro do aquário. Não! Tudo menos isso. É mesmo o caso de ir assassinando Berry ao poucos. Sem comida hoje, água suja amanhã e um abraço”.

Chegou embriagado em casa e foi direto ao beiral. Berry nadava alheio a tudo.

Sua cor estava ainda mais bonita, as manchas vermelhas contrastando com o lombo azul.

“Vamos ver amanhã o dia inteiro sem refeição”, pensou Pires.

Deitou-se.

Vieram direto a seu subconsciente pesadelos terríveis onde se afogava num rio barrento. Na manhã seguinte saiu direto do quarto para o escritório, sem nem olhar para o peixe.

Procurou se enfiar na rotina de final de ano, voltando apenas às suas reflexões quando estava no trânsito, já de noite, voltando do escritório.

“Deve ter morrido. Mas o que é para o universo a eliminação de um estúpido peixe beta? Um animal que vive num vidrinho diminuto de 15 X 10 centímetros? E não me venham com o discurso clássico de que o bater das asas de uma borboleta na Amazônia provoca um terremoto no Arizona. Física quântica, essa balela toda. Berry morreu, antes ele do que eu. Não mereço um castigo desses depois de ter ralado 355 dias no ano”.

Abriu a porta, correu ao beiral e, ao contrário das expectativas, Berry estava vivinho da silva. E ainda por cima com uma carinha pidona de “quero raçãozinha”.

– Desgraçadoooo! – berrou – eu vou te mostrar quem manda nessa birosca!

Pegou o aquariozinho com brutalidade e, mesmo sabendo que as trocas de água não devem ser feitas direto na torneira – para evitar um choque térmico – jogou o líquido frio sobre Berry. Este nadou em desespero até que o jorro parasse de fazer redemoinho.

Pires gritava:

– Morre! Morre! Morre!

Largou tudo sobre a pia do banheiro, caiu exausto na cama e roncou até de manhã.

Chegara o dia da partida.

Pires pegou a mala e foi até o banheiro lançar os restos mortais de Berry no lixo.

Mas… de novo a carinha de “me dá comida”, agora na água limpa e oxigenada.

Céus, só podia estar pagando um grande pecado. E o pior era que a chave se invertera. Imaginar-se jogando Berry vivo na privada, como chegara a tramar ontem, era algo que lhe dava engulhos.

Um sentimento de piedade se acercou dele. Era preciso dar o peixe, símbolo do cristianismo primitivo, a quem pudesse assegurar seu destino.

Foi o que fez.

Colocou a bagagem no porta-malas e saiu, aquário de Berry numa das mãos, caçando quem pudesse abrigá-lo.

Rodou com o carro cerca de meia hora. Até encontrar um menino sujo e maltrapilho no semáforo.

– Quer esse peixinho, filho? O nome dele é Berry.

– Berry? – os olhos do pivete se encheram de alegria – Deixa eu ver?

– Toma, fica com ele – disse Pires, voz embargada.

O menino pegou o presente com enorme satisfação. E, sem perda de tempo, meteu os dedinhos na água, puxou Berry pelas nadadeiras e o comeu.

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Carlos Castelo. Escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. © 2013.

Stand Up Crônicas: SAUDADE DE QUÊ?

em Coluna por

ze

SAUDADE DE QUÊ?

Vira e mexe, a gente ouve alguém falar que tem saudade da infância. Você mesmo já deve ter dito isso uma vez ou outra, num momento de nervosismo. Mas aí eu te pergunto: tá com saudade de quê?

De andar por aí cheio de cocô, até alguém ter a boa vontade de te limpar?

De ficar horas de cara para a parede só porque falou um palavrão?

De ter que comer todos os legumes para ter direto à sobremesa?

De ter que obedecer os mais velhos, sendo que 99% da humanidade é mais velha que você?

De um tempo em que o máximo de sexualidade que você tinha era quando seu cotovelo roçava disfarçadamente no seio de alguma amiga da sua mãe? (Ou no caso das meninas, quando o Cigano Igor aparecia sem camisa na novela?)

De fazer lição de casa?

De ter que ir para a cama às dez da noite, sendo que os melhores programas da televisão sempre passaram justamente depois desse horário?

De ter que mostrar o pipi para todas as visitas que chegavam em casa?

De ter medo de fazer aniversário porque na festinha, suas oitenta tias faziam fila para apertar suas bochechas e chacoalhar sua cabeça de um lado para o outro?

De achar groselha uma delícia e cerveja muito amarga?

De suas reivindicações só serem atendidas depois de você gritar até perder o fôlego e ficar roxo?

De tomar um baita de um choque, só porque enfiou o dedo mindinho no buraco da tomada?

De acreditar que existe um velhinho de barbas brancas que te dá recompensas se você for bonzinho? (essa serve tanto para Deus, quanto para o Papai Noel)

De conseguir manter uma conversa “olhos nos olhos” apenas com outras crianças e joelhos?

De odiar e evitar convívio com qualquer indivíduo do sexo oposto?

De não poder sair de casa sozinho porque mora no 8o andar e, por causa de sua altura, só consegue apertar até o 4o no elevador?

De tirar meleca do nariz com o dedo e achar que ela pode ser um bom snack?

Por tudo isso, toda vez que alguém fala que na infância é que a vida era boa, eu respondo: Engole esse choro. Não quero ouvir mais nem um piu.

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 José Luiz Martins. Humorista, publicitário e roteirista. Sócio da empresa Pé da Letra, de criação e produção de conteúdo. © 2013.

Portrait: O amor bochechado e cuspido

em Coluna por

Camila

O amor bochechado e cuspido

Você sabia que tem um nigeriano processando uma marca de creme dental porque em sete anos de uso seu “bom hálito” lhe rendeu uma bofetada e nenhuma mulher em seu currículo? Ele diz que usa o produto desde a primeira propaganda que afirma que assim as mulheres se interessarão por ele. E desde então, nem um convite para um café ou um chá foram aceitos. A última tentativa de beijar alguém acabou, literalmente, com um tapa na cara.

Levando em consideração apenas esta visão utópica do consumidor (e não a oportunista de querer tirar dinheiro e vantagem da situação), o homem não comprou um produto de higiene bucal. Comprou um sonho: a solução para suas frustrações. A cada tubo que adquiria, além de flúor e bicarbonato de sódio, levava para casa a esperança de achar a mulher da sua vida.

Desentubou, bochechou e cuspiu por sete anos sua baixa autoestima, seus medos e inseguranças, mas isso não foi suficiente. A boca ficava limpa, os dentes brilhantes, o hálito fresco, mas a mente e o coração, cada vez mais incrustrados. Tamanha foi a decepção e a falta de noção de que o que interessa numa relação entre pessoas é o todo e não a parte, que levou aos tribunais, e não ao divã,  o que acreditou ser “incompetência” da empresa, que, segundo ele, vendeu sonhos inalcançáveis.

A mesma lógica cabe aos que ligam para os números em cartazes colados em postes pelas cidades, que garantem trazer o seu amor em seis horas. Se você for muito inconstante, ou tiver em dúvida de quem quer na sua vida, tem a possibilidade de mudar de opinião, de namorado, marido ou admirador, quatro vezes ao dia! Caramba, o planeta leva um ano pra passar por quatro estações e você pode mudar de amor o mesmo número de vezes em apenas um dia. Será que não tem nada de errado aí?

Como podem um creme dental ou uma cartomante dar conta de sua vida e seus sentimentos? Ser a solução dos seus problemas? E ainda, transformar no outro (que muitas vezes não te conhece direito) a visão ou o interesse que tem por você? Não seria mais sensato mudar o seu comportamento? Perceber que não é a pasta de dente (embora beijar alguém com mau hálito esteja fora de cogitação) que fará alguém te enxergar e te desejar? Não serão o brilho nos olhos e nas atitudes, na sintonia do que se deseja viver e compartilhar, que chamarão mais a atenção?

E se ainda assim nada acontecer, perceber que talvez não fosse pra ser? Que outras oportunidades virão? Que a vida é dinâmica e pessoas vêm e vão? Que o creme dental poderia funcionar sim, meu caro, se você o utilizasse, além da maneira habitual, como um recurso para se transformar em alguém mais seguro – sem perder a sensatez – para as conquistas da sua vida?

Enquanto isso, a indústria de cosméticos, de produtos de higiene e a cigana com mandingas mil garantem que podem realizar em seu lugar o sonho que, por “n” motivos, você deixou de encarar, correr atrás e os desentubou, bochechou e cuspiu.

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Camila Linberger é relações públicas, sócia-diretora da Get News Comunicação, agência de comunicação corporativa e assessoria de imprensa sediada em São Paulo. © 2013.

Stand Up Crônicas: E VIVA A TECLA MUTE

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ze

E VIVA A TECLA MUTE

Já reparou que as pessoas que mais gostam de ouvir música alta são as com o pior gosto musical? Na verdade, elas já entenderam que seus gostos não vão melhorar nunca e estão tentando ficar surdas para se livrarem dessa maldição.

O gênero que me perturba há mais tempo talvez seja o sertanejo. Para cantar sertanejo, você tem que saber fazer uma voz bem fininha e tremer cada nota como se sua garganta estivesse com Mal  de Parkinson. Mais ou menos como o Bruce Dickinson faz no Iron Maiden.

As letras dos sertanejos só falam da dor de corno. O que é perfeitamente compreensível: com maridos cantando com aquelas vozinhas, as esposas invariavelmente acabam dando para outros caras.

E quando o sertanejo começou a dar sinais de queda nas vendas, lançaram o sertanejo universitário. Quem comemorou foi o governo, que passou a computar esses artistas como sendo formados em curso superior, para tentar melhorar as estatísticas da educação no país.

Logo depois do sertanejo, mas igualmente chato, veio o pagode. O pagode nada mais é do que um samba muito, mas muito adocicado mesmo. É como se você pegasse o Adoniran Barbosa e jogasse dentro de uma piscina de marshmellow.

Os pagodeiros fazem de tudo para soarem doces e fofos – alguns quando cantam, parecem até que estão chorando. E é exatamente assim que eu ouço a música deles.

Quero deixar claro que não tenho nada contra o samba. Muito pelo contrário, gosto muito de vários estilos de samba – como por exemplo o samba de raiz. Mas para os pagodeiros, samba de raiz é só quando a dançarina do grupo está com a tintura do cabelo mal-feita.

Outro gênero que faz muito sucesso no Brasil é o axé. Outro dia, eu mesmo baixei um monte de mp3 de vários artistas de axé. Não porque eu goste, mas só pelo prazer de fazer algo ilegal contra eles.

Apesar de eu não gostar, devo reconhecer a importante contribuição do axé para a sociedade. Graças a suas letras, pessoas com QI abaixo de zero desenvolvem habilidades motoras e aprendem a “tirar o pé do chão”, “levantar a mãozinha” e “balançar a bundinha”.

Nos últimos anos surgiu o funk que, infelizmente, não guarda nenhuma semelhança com seu xará norte-americano. Aliás, se James Brown estivesse vivo e soubesse que tipo de música é chamada de funk hoje em dia, ele mudaria o nome da música que ele fazia para “Oftamologista”.

Os defensores do estilo argumentam que o ritmo e a sonoridade do funk são bons. Depende ao que você compará-los: perto de rolar de uma escada caracol por 20 andares e dar de cara com o goleiro Bruno, funk é bom.

O funk também teve um filho: o funk ostentação. Para fazer o estilo, basta comprar roupas de grife, relógios caros e carrões importados. Gastando tanto, obviamente não sobrará dinheiro para você comprar nem uma quitinete e a única alternativa será morar na favela. Com essa inteligência dos funkeiros, fica explicado por que não existe funk universitário.

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 José Luiz Martins. Humorista, publicitário e roteirista. Sócio da empresa Pé da Letra, de criação e produção de conteúdo. © 2013.

Portrait: A mulher que cambaleava no salto 15

em Coluna por

Camila

A mulher que cambaleava no salto 15

A mulher cambaleava. De um lado pro outro como se estivesse na corda bamba, enquanto comentava inconformada com as amigas: “O saltinho desta sandália caiu na semana passada”. Fui obrigada a olhar para os pés dela. O salto longo e fino compunha o figurino que tentava ser corporativo e destoava do resto de sua roupa e corpo, um pouco rechonchudo. Equilibrar-se com aquele porte, naquele salto, não é para qualquer um.

Foi então que me dei conta de que todos nós, quando nos vestimos para sair, nos olhamos no espelho antes para aprovar ou não o que escolhemos. E fazemos isso, óbvio, parados. No máximo, damos aquela voltinha básica para ver se está tudo em ordem, se tem alguma etiqueta pra fora, pra colocar a calça e as mangas no lugar. Feito o check up, rua!

Mas depois de um tempo, quando as horas passam e os pés incham, quando, na hora do almoço, o restaurante fica a três quarteirões de distância do escritório, quando o sapato começa a apertar, viramos um pouco “Valdirene” (personagem de Tatá Werneck em Amor à Vida).  Sim, eu me incluo nisso depois de horas de barzinho ou balada com meus amigos. Brinco com eles que preciso ir embora porque a Valdirene chegou. Não dá certo uma mulher se equilibrando no salto como se estivesse escalando um morro numa trilha cheia de pedras, cambaleando. Toda a elegância e feminilidade que o sapato poderia proporcionar caem por água abaixo.

É aí que se percebe que a elegância está no andar e não no sapato, no porte e não na altura, na atitude e não no vestir. Mais elegante uma rasteirinha em um andar delicado, do que um salto alto em um passo pesado. E pra isso, não precisa ter sobrepeso, basta estar com um dedinho apertado, uma bolha no pé, uma dor a mais que te incomode.

Eu sou baixinha, estilo mignon mesmo, e, apesar de já ter passado por isso inúmeras vezes, uso e abuso de saltos, principalmente à noite. Quando estamos com pessoas mais altas (o que no meu caso não é raro), ou se põe o salto, ou se senta pra conversar, ou inevitavelmente, amanhã será um dia de torcicolo. O ideal é perceber quando não dá mais e cair fora, voltar para o conforto dos pés no chão ou, no máximo, nas pantufas dentro de casa.

Cheguei ao ponto de ter que pedir ajuda: “Me dá a mão pra eu não cair nestes buracos das calçadas de São Paulo”, para não ter que virar Valdirene à luz do dia. É chato, preferia a elegância de um salto menor, que não machucasse, cansasse e inchasse os pés, que não me colocasse em perigo (sou desastrada e um entorse não pode ser descartado), mas acontece. Lógico, sempre depois de nos vermos no espelho, acreditarmos que está tudo lindo e…. rua!

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Camila Linberger é relações públicas, sócia-diretora da Get News Comunicação, agência de comunicação corporativa e assessoria de imprensa sediada em São Paulo. © 2013.

Stand Up Crônicas: PARABÉNS POR QUÊ?

em Coluna por

ze

PARABÉNS POR QUÊ?

Ontem foi meu aniversário. Mas não foi um aniversário qualquer, ontem eu completei 40 anos. E existe um ritual que todo ser humano tem que passar quando chega aos 40: ouvir todas as piadinhas sem graça com sua idade. E não adianta tentar escapar, é uma tradição milenar e a você só cabe ficar calado e tentar passar por ela. Para um homem, só existe uma coisa pior que fazer 40, fazer 24.

A primeira coisa que todo mundo fala é que a vida começa aos 40. E esse clichê não vem sozinho, ele vem sempre acompanhado de uma expressão triunfal de quem fala, como se estivesse dizendo aquilo pela primeira vez na história da humanidade.

Mas se a vida realmente começa aos 40, é uma baita de uma crueldade da natureza. Veja só que desperdício, a vida só começar quando você está acima do peso, calvo e sem o apetite sexual dos 18.

É óbvio que isso tudo é só uma mentira para consolar a gente. A única coisa que comprovadamente começa aos 40 é o exame de próstata.

É, amigos: é chegada a hora da dedada. E como se trata de algo inevitável, pelo menos vou procurar um médico especialista, preparado, pós-graduado no exterior e, principalmente, que tenha a mão pequena.

Além do proctologista, agora vou ter que fazer checkups anuais – ou seja: vou ter que ir ao hospital muito mais vezes e ter que aturar o proctologista dando aquela piscadela toda vez que passar por mim na sala de espera.

Mas se a saúde já não é mais a mesma, pelo menos a memória fica uma porcaria. Lembro que, aos 25, eu costumava saber decor todas as minhas senhas, o número do cartão de crédito, CEP, RG e CPF. Hoje eu preciso consultar a identidade toda vez que me perguntam o nome da minha mãe.

Menos cabelos, menos saúde e menos memória. Alguma coisa tinha que aumentar quando você chega aos 40: o mau-humor. É natural, meu amigo: você é mais rabugento aos 30 do que era aos 20. É mais rabugento aos 40, do que era aos 30. E já fico num mau-humor desgraçado só de imaginar o quanto eu vou ser rabugento aos 50.

Como tudo tem seu lado bom, eu tenho pelo menos um motivo para comemorar. Agora, finalmente, eu posso estufar o peito com orgulho e dizer:

– No meu tempo é que era bom.

O que era bom? Sei lá: qualquer coisa. Eu passei a vida inteira ouvindo meu pai e meu avô falando isso e agora é minha vez.

Afinal, ter 40 anos é fazer parte de uma geração muito especial, que provou Dip’n Lick, usou mullets, cantarolou Engenheiros do Havaí e viu a Era Dunga dominar o nosso futebol.

Ter 40 anos é ter tido suas primeiras fantasias sexuais olhando para catálogos de lingerie, porque a porcaria de internet só chegou depois de você ter perdido a virgindade.

Ter 40 anos é não ser digno de receber um “parabéns”. No máximo um “liga não, a vida é assim”.

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José Luiz Martins. Humorista, publicitário e roteirista. Sócio da empresa Pé da Letra, de criação e produção de conteúdo. © 2013.

Portrait: “A vida revelada como foto: pode ser pra daqui a pouco, como antes, ou tem que ser pra já?”

em Coluna por

Camila

A vida revelada como foto: pode ser pra daqui a pouco, como antes, ou tem que ser pra já?

A coluna entrou no ar. E, entre os comentários e desejos de boa sorte dos amigos, um pedido bacana e incomum para os dias de hoje. No meu texto de abertura da coluna, onde apresentei sobre o que falaria, comentei sobre as fotos, hoje tão corriqueiras. Se tira foto do amigo, do passarinho e do mico que está na praça. Se posta, se compartilha, e pronto. Você é um ser social – pelo menos em parte.

Fui lembrada por uma amiga sobre o “modo antigo” de se clicar. Quando a gente tinha a máquina, os filmes, de 12, 24 ou 36 poses, que quando tinha festa, aniversário ou viagem, se carregava uma mala com as bobinas de filmes. E a ansiedade? Naquele tempo, não existia internet ainda, nem celular (e parece que eu estou falando de 60 anos atrás, mas não são mais de 20). Se você era criança ou pré-adolescente como eu, e a sua mãe saia para ir ao mercado e você esquecia de pedir alguma coisa, ficava sem, não tinha como pedir aquela bolacha. Tudo o que restava era se lamentar em sua volta.

O mesmo acontecia com as fotos. Depois de todo o processo – limitado – sim, a gente tinha que contar quantas fotos tinham ainda no filme e “guardar” espaço para a hora do parabéns. Para se ter fotos de todos, juntava-se um monte de gente, pra não faltar ninguém, afinal, vai que o filme acaba…

E depois disso, às vezes dias, outras vezes semanas ou até meses, a gente ia numa loja e pedia para revelar as fotos. Não era um serviço muito barato. Foto não era o suprassumo, mas podia ser, de alguma forma, considerado artigo de luxo.

Aí, nos melhores lugares, dentro de uma hora você podia voltar pra pegar e… “o filme não rodou quando estava na máquina, foi impossível revelar”! Isso aconteceu com a minha família quando fomos para a Disney, em 1994. O parque pelo qual mais me encantei foi o da Universal Studios. Adivinha? Sim! Só ficou para mim a lembrança do meu encanto.

E aquela foto com os seus amigos, que você saiu de olho fechado e não sabia? Se fosse nos dias de hoje, tira outra e está resolvido. Também passei por outra situação, em que o avô de um ex-namorado, em uma formatura, ficou uns dois minutos enquadrando a gente para a foto e na hora da revelação, bem, eu sai pela metade!

Em uma das últimas vezes em que usamos a máquina mecânica, em viagens de família, foi em Maceió. Tiramos uma foto ao lado de um repentista. Quando revelamos, eu não estava lá! E pior, eu jurava que estava! Aí, vendo detalhadamente, percebemos que minha irmã tinha três pernas! Não me perguntem como, porque ela é tão pequena quanto eu, mas eu simplesmente sumi atrás dela!

E aí valem algumas reflexões para os dias de hoje: será que você manteria uma foto “mico” para depois de um tempo transformá-la em um risível momento? Ou será que o mais importante é se sentir bem com a imagem que está representando ali? Teria coragem de mostrar para as pessoas, publicá-la ou guardaria para si?

Se os tempos para se ter os resultados – hoje a foto é instantânea – voltasse a ser como o anterior, se a vida te pedisse mais calma e menos ansiedade, você estaria pronto para isso?

Será que se isso acontecesse seria um retrocesso, ou será que agiríamos de forma mais tranquila, mais pensada e menos impulsiva? Será que o relatório que seu chefe pediu realmente precisaria ser para hoje, feito às pressas, ou poderia ser feito com mais calma e cuidado? E os seus sonhos, podem ser construídos aos poucos ou também tem que ser pra já?

A gente não sabe quanto tempo cada um tem de vida, mas, independente do quanto for, como a nossa sociedade está usando este tempo? Quanto para si e quanto para parecer aos outros?

O que vale mais na sua vida, a gargalhada pela foto “mico” compartilhada ou o sorrisinho frio e calculado? A vida pode ter os dois, mas cabe a você saber qual deles tem maior valor nas suas escolhas, o que te faz se sentir bem e feliz. Reflita e vá em frente! Feliz Ano Novo!

© 2013, The São Paulo Times.

Stand Up Crônicas: Ano novo, velhos hábitos

em Coluna por

ze

Stand Up Crônicas: Ano novo, velhos hábitos

O ano está acabando e a maioria das pessoas que conheço gosta de passar o ano novo comendo castanhas. Mas também há quem prefira as loiras, morenas e ruivas.

Mas o que não consigo acreditar é que dependendo do que você comer, seu ano vai ser bom ou ruim. Por exemplo, dizem que se você comer frango ou peru, sua vida vai andar para trás. E por um simples motivo: esse animais ciscam para trás. Seguindo esse raciocínio, presumo que também não se pode comer veado.

Dizem também que comer lentilha dá sorte. Sorte eu não sei, mas dá gases.

Entre as superstições, uma das mais famosas é aquela que diz que pular 7 ondinhas ajuda a ter um bom ano. Está explicado então porque o Atlético Mineiro não foi pra final do mundial. E, por via das dúvidas, o Aécio deveria passar o Reveillon em Copacabana.

Na festa de Reveillon, quase todo mundo veste roupa branca – a cor da paz. Só que se alguém passar mal, vai ser difícil saber quem é o médico para pedir ajuda. E a festa vai ter de tudo, menos paz.

As mulheres acreditam que vestir roupa vermelha ou rosa traz felicidade no amor. Funciona. Principalmente se for justa e decotada.

Dizem também que roupa amarela traz dinheiro. Sei não, se isso fosse verdade, os fiscais da CET não precisariam mais trabalhar.

E quem nunca fez promessa para o ano que chega? A mais famosa é prometer parar de fumar. Infelizmente, estatísticas comprovam que apenas 10% dos fumantes cumprem a promessa: os que morrem.

Uma variante é a promessa de parar de beber. Essa, eu faço em todo Reveillon. Mas sabe como é, né? Na hora da virada, todo mundo faz um brinde e bebe uma taça de champagne num só gole. E minha promessa já vai para o saco logo nos primeiros segundos do ano.

Outra bastante popular é a promessa de emagrecer. Essa já tem um índice de sucesso maior: a maior parte dos que não cumpriram a promessa de parar de fumar emagrecem. Tem também a promessa de finalmente juntar dinheiro – essa só costuma ser cumprida lá para os lados de Brasília.

Mas estou decidido, já fiz minha promessa para 2014. E vou documentar aqui, para garantir que vou cumprir. Eu prometo passar o próximo ano inteirinho sem ouvir nenhum pagode, sertanejo, funk carioca ou axé. Podem me cobrar.

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José Luiz Martins. Humorista, publicitário e roteirista. Sócio da empresa Pé da Letra, de criação e produção de conteúdo. © 2013.

Portrait: Que moedas de ouro você quer no seu Natal?

em Coluna por

Camila

Que moedas de ouro você quer no seu Natal?

Hoje é Natal. E quem não pensa no bom velhinho neste dia? Segundo algumas pesquisas que fiz para escrever esta crônica, Papai Noel existiu, foi arcebispo turco no século IV, mais tarde conhecido como São Nicolau Taumaturgo. Nesta época do ano, ele costumava colocar moedas de ouro nas chaminés das casas mais humildes da cidade de Mira, onde morava. Mais tarde, ao ter alguns milagres atribuídos ao seu nome, foi considerado santo, São Nicolau. Sua imagem tornou-se um símbolo natalino na Alemanha, e de lá se espalhou para o mundo inteiro. Não importa onde more, no Polo Norte segundo os americanos, ou nas montanhas de Korvatunturi na Lapônia, Finlândia, conforme os britânicos, muito antes da famosa globalização tomar forma, Santa Klaus já era um mito universal, muito cultuado no ocidente.

Conversei com algumas pessoas para saber como foi a sua descoberta de que Papai Noel não existia. E para a minha surpresa, 80% delas não se lembravam, independente de sua classe social. Então veio a reflexão: será que o ser humano não quer se desfazer de boas lembranças? Será que quer manter dentro de si este encantamento de alguma forma? Qual o motivo de tantas pessoas não se lembrarem disso? Ele não é realmente importante, embora seja um ícone desta data, ou será que é melhor, mesmo sabendo da verdade, manter o mito?

Por que mesmo depois de saber da verdade, ainda nos encantamos com as histórias de Natal e seu entorno? São Paulo fica intransitável nas redondezas do Parque do Ibirapuera e da Avenida Paulista nesta época do ano, justamente porque as pessoas querem ver sua decoração, as comemorações que marcam a cidade. E então, manter o mito ainda é a melhor forma de se viver, de se acreditar em um mundo melhor?

Se no lugar de presentes materiais, Papai Noel pudesse trazer outros presentes, aqueles que não se compram, quais você desejaria para si, para sua família, seus amigos, para a sociedade? Será que também é mítico o desejo de uma sociedade onde não haja corrupção, onde os políticos cumpram suas funções sem quererem receber mais por isso, onde as pessoas saudáveis e jovens não estacionem nas vagas reservadas para deficientes e idosos, onde a lei de Gerson não prevaleça?

Será que é mítico fazer o bem sem se esperar o reconhecimento, um mundo com menos fome e mais alimento, com mais trabalho e trabalhadores, com mais sorrisos sinceros e não oportunistas, um trânsito com mais solidariedade e menos impaciência?

Será que é mítico o desejo de um relacionamento em que a lealdade e a fidelidade sejam intrínsecas à escolha que se fez quando se optou por assumir o outro como namorado ou marido, namorada ou esposa? Será que é mítica uma amizade sincera, sem se olhar para o que o outro possa te dar, mas para o que você pode oferecer a ele?

Será mítico um sistema público de saúde que funcione e realmente cuide de sua população? Uma escola pública que ensine e não dê ao aluno o ano sem repetência, mas com formação? Será mítico um inverno sem pessoas morrendo de frio, com crianças cobertas e dentro de um abrigo em noites gélidas?

Será que conseguiremos um dia transformar as tais moedas de ouro que aquele São Nicolau Taumaturgo, arcebispo turco, depositava nas chaminés, em valores palpáveis para uma sociedade melhor? E não estou falando de se subsidiar a pobreza e nem os pobres, mas de dar a toda população condições de saúde, trabalho e educação de forma real e semelhante.

São Nicolau se tornou um mito universal de amor, paz e alegria. Será que um dia, ao contrário do arcebispo turco, estes valores deixarão de ser mito e se tornarão realidade?

Enquanto me indago, a sociedade continua sendo a mesma. Um ou outro fazem a diferença. É hora de pararmos apenas de refletir e pegarmos nas mãos nossas moedas de ouro: transformá-las em sorrisos e vidas de ouro, a começar por nós mesmos. Sem a pretensão de nos tornarmos santos, mas com o desejo natalino – e que este perdure pelo ano inteiro – de realmente transformarmos e vivermos em um mundo melhor.

© 2013, The São Paulo Times.

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