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Coluna - page 2

Horóscopo

em Cássio Zanatta/News & Trends por

As pessoas andam muito apressadas, correndo demais da conta. Assim, é provável que nem todas tenham tido tempo de conferir o horóscopo.

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Receita

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Primeiro vem a parte mole: abrir o saco de biscoito. Erga as mãos para o céu e agradeça que essas embalagens são muito mais fáceis de abrir que suas congêneres tampas de iogurte, manteiga e palmito.

Aberto o saco, leve-o à mesa. É uma operação simples, que não exige destreza. Permite que você coma um ou outro biscoito no caminho, o que (pelo menos nunca vi) não é procedimento condenável numa dessas dezenas de programas culinários que assolam nossa TV e que são doidos para dizer se isso pode ou não.

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No caso

em Cássio Zanatta/News & Trends por

No caso de chover, vou me lembrar do guarda-chuva: lembrar que o larguei no táxi. Se acaso fizer sol e a luz mais divina, a reunião jamais vai terminar: haverá defesas de pontos de vista intermináveis e, de toda maneira, as persianas não nos deixarão saber da lindeza lá fora.

No caso do encontro ser importante, você terá vestido as meias trocadas. No de ir ao jogo, o cara mais chato entre os milhares de torcedores do seu time se sentará ao seu lado e vai comentar cada jogada em voz alta, cutucando seu braço.

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Da janela da velha casa

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Da janela da velha casa da Fazenda vejo passar uma infância.

Lá estão as árvores tão cúmplices, as mangueiras que já eram velhas quando eu estava longe de ser, as jabuticabeiras boas de subir e onde a gente construiu casa de madeira, e o chapéu de sol que fornecia a sombra certa para a prosa dos adultos. Mais ao fundo, o pomar dos pés de goiaba, dos bichos de goiaba, da fruta do conde, limão e a mexerica que em nenhum lugar era azeda como aqui. A casa era fértil de felicidade, mas muito ruim de mexerica.

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Nessa Noite

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Nessa Noite, há 2018 anos, algumas cabras e burros, uma estrela particularmente brilhante, um casal já entrado em anos e um bebê num berço de palha causaram um quiproquó tipo grande no mundo.

Nesta noite, no Ceará, um homem vai entrar armado em um supermercado, roubar dinheiro, dois pacotes de lenços e disparar cinco tiros no caixa (antes de fugir, vai pegar três Chokitos). O caixa não vai resistir e isso arruinará o Natal da família por pelo menos duas gerações.

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A velha que varre a calçada

em Cássio Zanatta/News & Trends por

A velha que varre a calçada já não varre mais a calçada. Costumava ficar horas na varredura, diariamente. Há semanas não a vejo. Sofreu um troço? Foi sequestrada por gente que tem alergia ao pó que a vassoura assanha? Mudou para uma clínica de repouso em Jaboticabal? Ou, depois de anos, parou para se perguntar, afinal, para que serve varrer a calçada todo dia?

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Perdemos a paciência

em Monocotidiano/News & Trends por

Perdemos a paciência.

Desaprendemos a esperar.

As respostas estão todas na mão.

Esqueceu o nome daquele ator?

Aquele, que fez aquele filme… Que era o vilão naquela série… Agora a dúvida não duraria mais que alguns segundos antes de algum smartphone trazer a solução do caso.

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Escrevo porque

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Escrevo para ver se aprendo. Para poder conversar com você, mesmo que um dia eu não esteja mais. Para expulsar os demônios e para que os cegos sintam alguma vantagem. Escrevo para desalento dos puristas. Para desânimo dos gramáticos eu escrevo. Para os insones. Contra os insetos. Porque o professor mandou e eu me acostumei. Pela eternidade de um dia. Agradar a gregos e desagradar a troianos ou vice-versa.

Para que ao menos uma alma diga que gostou. Para esquecer e fazer esquecer. No caso da goiabada não saciar o suficiente. Para que os incapazes não se sintam sozinhos.

De teimoso, de pirraça, vingança, medo e a inútil esperança de que ela leia e se entregue. Para espanto dos amigos e desconcerto dos familiares. Porque achei mais interessante do que oito horas no escritório. E porque há estrelas demais, pelo menos umas setecentas a mais.

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Lá vai Maria

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Nenhum pio no elevador. Um breve comentário sem necessidade ecoa na garagem vazia, antes de entrarmos no carro. No caminho, passamos por 18 sinais – a maior parte, abertos. A vida, sempre em frente, não pode, não quer e nem sabe se deter. Atravessamos as ruas ainda sem as pessoas, cruzamos avenidas, mais silenciosas que de costume. Nem o rádio ligamos, vai que toca alguma música que nos faça derreter.

É o último dia de vida escolar de Maria. Hoje, eu a levo pela última vez ao Colégio. Nem seria preciso, já sabe andar sozinha, pegar ônibus, trem, metrô. Já foi a Minas, à Serra da Capivara, Amazônia, Europa, já dormiu em barco no meio do rio, rede em casa de pescador, oca de índio, no meio da floresta (aí contou que pouco dormiu, tamanho o barulho que os bichos e insetos e sabe-se lá que criaturas faziam de noite)… vê se precisa deste pai para se virar.

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Passaredo

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Bem-te-vi usa máscara para cortejar no anonimato.

Tucano só voa com aquele bico pesado porque a alma é mais leve que o ar.

As andorinhas são as maiores responsáveis por Francisco ter virado santo.

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Eis o problema

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O problema não é ficar sabendo que o mundo é milhares de vezes maior que São José (embora eu tenha minhas dúvidas). É mesmo assim a gente se afligir com algo que ficou sabendo de dia e não dormir de noite.

O enrosco não é entender que caberiam centenas e centenas de Terras no interior do Sol. É que, mesmo diante da nossa insignificância, a gente ainda ter certo pudor em tocar algumas campainhas.

Não é ser informado que, mesmo imenso, o Sol é uma coisica em comparação a outras estrelas gigantes. O grave é que o pessoal insiste em espalhar radares pela cidade como se essa fosse a prioridade do mundo.

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Da hora

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Chega uma hora em que não é mais desconcertante rever o grande amor. Mais provável ser atropelado na ciclofaixa. Tempo dos cabelos irem desistindo pelo caminho, das ilusões respirarem por aparelhos e de se munir de toda a paciência que resta quando alguém discute política como se fosse a coisa mais importante.

O tempo de tudo que ainda for possível. Da urgência de experimentar  uma fruta desconhecida. Caminhar por uma cidade onde nunca se esteve. Hora de dar menos autoridade ao despertador. De ficar horas matutando, tentando se lembrar do nome do colega de Ginásio. Quando o dia resolve ter a duração de 19 horas e cada sete anos passam a caber em cinco. Da sesta mais por obrigação que por opção.

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