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Coluna - page 2

O arroto

em Monocotidiano/News & Trends por

Ah, o filho tinha deixado ele assustado, ô se tinha. Não dava pra disfarçar. Desde a primeira vez que ouviu a notícia de que seria pai. E com o passar do tempo as coisas só tinham piorado. Eita moleque que ia dar trabalho. Mas se antes tinha medo do futuro, da criança ser mal educada, crescer mimada, não saber se comportar, ou outras culpas que os pais jogam sobre os pequenos, agora era um medo real e imediato.

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No escuro

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Estou numa casa no meio do mato e não há luz. Andaram caindo uns trovões brabos na redondeza e isso assustou a eletricidade. Escrevo à luz de velas como faziam Cervantes, Eça e Shakespeare, mas a iluminação dos gênios definitivamente não me alcança.

Li em algum lugar que uma das principais causas da recente descrença dos homens em Deus é a luz elétrica. Na claridade, somos racionais e céticos, temos certezas absolutas e parece não haver precisão do sagrado. No escuro, não: somos indefesos, temos pavores, vemos coisas terríveis, assombrações, fantasmas pela casa, e fica mais fácil e necessário contarmos com algum espírito superior.

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O que acontece quando você viaja

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Então o cidadão decide viajar. Está cansado do dia-a-dia, aborrecido com o trabalho e sem paciência para os colegas do trabalho, irritado com a demora do sinal em abrir, achando macaco, carro, jornal, tobogã, tudo isso um saco. Portanto, uma viagem cairia bem. Então ele decide para onde ir, compra a passagem, reserva o hotel, comunica a decisão a quem deve ser comunicada, manda uma banana para as obrigações.

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Fronteiras

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Foi algo do lado de lá que o chamou e você é curioso de dar dó. Vai até a fronteira, pleno de certezas erradas. Dá uma espiada no limite que julgava conhecido e leva um susto: aquele mundo que você achava que era, é muito maior. Atordoado, você volta, mas ficar não é mais possível. Só o tempo de arrumar a mochila para redescobrir onde aquilo vai dar.

Nove meias é o bastante? Para a água ou para o mato? É preciso olhar tanto o musgo como a onda, e que o vento decida. E ele sopra forte, você é carregado para longe, vê árvores douradas de folhas secas e águas que não molham, tão frias e impossíveis de entrar. Há coisas estranhas, como um sol que até aparece, mas não esquenta; ser noite às três da tarde; o silêncio sem passarinho e comprar banana não em cacho, mas por unidade. Sua cabeça roda, seus passos duvidam um pouco, mas caminham, sempre caminham, até chegar à próxima borda e ver que a coisas vão ainda além. As fronteiras não sossegam.

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Roupa nova

em Monocotidiano/News & Trends por

O telefone toca e ele atende já ouvindo o tom desesperado do outro lado.

– Beto?

– Fala Rafa, tudo bem?

– Não.. Vou me separar da Solange.

– O que? Mas como assim?

– Cara, não dá mais, eu não aguento mais viver isso. Preciso do telefone do seu advogado.

– Não vou te passar o telefone não.. calma lá…. A gente se viu no final de semana e tava tudo certo..

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Ele era.

em Monocotidiano/News & Trends por

Ele era o herói. O dono da capa, que voava e fazia o menino voar. Ele era o mais forte, mais alto, mais inteligente, o super.

Ele era o craque, o melhor do time, o artilheiro, que transformava qualquer bate bola em final de copa do mundo no olhar daquele garotinho. E ele era o goleiro, a muralha, o campeão, o capitão, o melhor do mundo.

Ele era o dono da história. O contador, o ator, o monstro, o príncipe, o malvado e o bonzinho, as vozes, as atuações, as risadas e a hora de dormir. Sem nunca perder o bom humor.

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A mulher que ri

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Nada de engraçado acontece numa fila de supermercado. Nada. Mesmo que você tenha tempo de sobra ou sobra no saldo do banco, a hora de pagar as compras não tem nada de impagável.

No entanto, a terceira mulher na fila à minha frente desembestou a rir. Não houve um crescendo, uma risada tímida que aos poucos se transformasse em gargalhada. Não: já de saída ela ria solta e despudorada. Primeiro, achei que estava vendo um filme na tela do celular. Mas não havia celular, apenas uma fila no supermercado que, sabe lá por que razão, fez a mulher rir, rir uma risada tão solta que, se ela fizesse xixi ali mesmo, formando uma poça de que a fila teria de se desviar, ninguém haveria de estranhar, muito menos censurar.

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Relâmpago de troco

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não acreditem nessa história, meu senhor e minha senhora, de que a vida é um acontecimento inocente. A danada só finge da maneira mais descarada. Fica ali, distraindo a gente com brisas, Copas do Mundo e pastéis de feira, esperando só um descuido do cidadão contribuinte para dar o bote.

Ontem, por exemplo. Fui pegar o metrô até a Paulista e comprei uma passagem ao preço de 4 reais, valor vigente no glorioso mês de junho de 2018. Dei uma nota de 5 reais e recebi de troco um relâmpago.

O troco veio em duas moedas de 25 centavos e 5 de 10 centavos. Até aí, nada de mais. Mas as 5 moedas vieram numa pilha, amarradas com durex, igualzinho a como meu pai fazia.

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Parabéns ao chato

em Cássio Zanatta/News & Trends por

É aniversário do chato. E quando ele faz aniversário, tudo vira chatice. O chato não gosta de fazer aniversário, se esconde, odeia festa e fecha a cara se alguém bate palmas ou aparece com bolo e vela.

Mesmo sendo um sujeito chato, o aniversariante ganhou alguns presentes. Duas garrafas de vinho, dois livros (de auto-ajuda), uma camiseta laranja, um par de meias verdes, uma garrafa de gim, uma de porto, de pisco (desconfio que o pessoal acha que o chato o seja menos depois de uma cangibrina).

Desculpe se a relação dos presentes ficou meio longa, mas é obrigação de um cronista descrever as coisas como elas são. E depois, se ficou meio chato, orna com o aniversariante. E se isso lhe dá uma ponta de despeito, da mais miserável inveja, não posso ser responsabilizado por isso.

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Quero morar na rua Iaiá

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Eu quero porque quero morar na rua Iaiá. Não na Professor Doutor Telêmaco Hypollito de Macedo Van Langendonck (juro que existe), esse nome aí dá muito trabalho, grande demais para uma rua que eu quero pequena. Não é o caso da Iaiá, que tem o nome que lhe cabe.

Ou então quero morar na Clarão da Lua ou na Travessa do Piquenique, tão mais aconchegantes que um nome metido a oficial. Porque esse pessoal não pode ver uma rua das Estrelas Brancas que já quer mudar para Deputado Fulano ou Governador Sicrano. Não quero dizer que as homenagens não sejam justas, mas, gentes, as estrelas brancas merecem mais, ou não?

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Gostar de alguém.

em Monocotidiano/News & Trends por

A volta da escola era sempre animada, falante e cheia de histórias.

 

Naquele dia, ela veio quietinha, sentada na cadeirinha do banco de trás, no alto dos seus 5 anos de sabedoria.

O pai achou estranho mas não quis perguntar nada.

Deixou que ela fizesse o trabalho:

 

– Pai, como você sabe que está gostando de alguém?

 

O pai ficou sem reação.

5 anos. Gostar de alguém? Só se fosse da Peppa Pig.

E logo ele, que se julgava tão moderno, se sentiu um medieval, dirigindo sua biga pelas ruas de volta pra casa.

 

– Hum….

 

– É que tem um menino…..

 

O pai voltou mais algumas centenas de anos na vida e interrompeu a filha.

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Não é possível

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não é possível que a casa da avó seja hoje apenas uma casa a mais, igual a todas as outras da cidade. Que o quarto seja tão menor do que aquele guardado na memória (cabiam 8 crianças, um cachorro, a guerra de travesseiro e as broncas das mães).

Que no quarteirão não haja um ipê, pitangueira, moita nascida sem querer ou qualquer outro pouso para passarinho que não seja um fio. Ou que o quebra-queixo esteja em extinção. Que alguém ache arco-íris a coisa mais normal do mundo.

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