Competição x Empatia: como fica essa equação?

em Coluna por

Paulo

Competição x Empatia: como fica essa equação?

Semana passada fui convidado pela querida Cristiane Anselmo, do Instituto Alana, para o evento “A Empatia na Educação de Crianças e Jovens”, promovido pela iniciativa Escolas Transformadoras (do Instituto Ashoka) em parceria com o Alana. O evento aconteceu na ótima Sala Crisantempo, na Vila Madalena, em São Paulo. Despretensiosamente chamado de “roda de conversa”; o evento tinha participantes de uma relevância e conhecimento que valeram por muitas aulas.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Mas, primeiro, vamos ao próprio tema em si: EMPATIA. Dependendo da fonte, pode ser definida como “a capacidade de compreender o sentimento ou reação da outra pessoa imaginando-se nas mesmas circunstâncias” ou ainda segundo Hoffman (1981), “uma resposta afetiva apropriada à situação de outra pessoa.” Naturalmente as definições reduzem o sentimento; mas de todo modo tem-se a noção da importância da empatia; e da falta que ela faz em na sociedade hoje; tempos de acirradas divisões e intolerância às opiniões divergentes. Não apenas o tema é fundamental, mas é também fundamental que se fale dele na educação dos jovens e das crianças: a capacidade de se “sentir” na pele do outro é indispensável para que escolhas humanas sejam éticas, respeitosas e construtivas. Independentemente do quanto se possa discordar nas teses, a empatia deveria manter saudáveis as relações entre os seres.

Já na abertura do evento, Ana Lúcia Vilela, educadora que fundou o Instituto Alana, começou com uma pergunta inquietante: será que empatia é algo que perdemos na vida adulta; ao nos “apaixonarmos pela razão”? Alguns especialistas presentes ao encontro garantem que a empatia é algo “construído” pelo meio, aprendido pela via do exemplo. Crianças no início da vida seriam (ainda que tenham a centelha humana da capacidade empática) incapazes de real empatia porque para elas “o outro” ainda não existiria; existe apenas o reconhecimento de “si mesmo e suas necessidades e vontades”. Curioso notar como essa frase parece perfeita, infelizmente, também para definir o comportamento de indivíduos de a uma faixa ETÁRIA bem superior aos 0-5 anos.

Independente de inata ou aprendida, a empatia encontra hoje um desafio muito grande para sua real promoção na maioria dos ambientes educacionais; como identificaram vários debatedores, entre eles a diretora da Escola Amigos do Verde Silvia Carneiro e a psicóloga e consultora educacional Rosely Sayão: “ao educar para a competição e o mercado, como muitas escolas fazem hoje, que espécie de empatia poderia ser ensinada?” “Que tipo de empatia pode ser promovida por uma escola que estimula que se veja o outro como “seu oponente, seu antagonista, aquele que vai disputar o mesmo espaço? ”

Apesar disso, o ex-ministro da educação Renato Janine Ribeiro mostrou o quanto a empatia cresceu na sociedade atual, quando comparada a outros momentos históricos que ilustram com extrema clareza o quanto havia uma absoluta falta de empatia num passado relativamente recente: a execução de criminosos condenados à pena de morte só deixou de ser evento público em 1930; e bem sabemos que no passado, e por milhares de anos, o oposto da empatia foi a própria essência do espetáculo que acontecia “no coliseu e em outros palcos menos famosos, pelo mundo todo”.

Se esta visão de competição e de alienação em relação ao outro parece ser a precisa identificação do que mais dificulta o estímulo à empatia; o fundador da ONG Doutores da Alegria, Wellington Nogueira, foi a própria empatia no encontro (penso que a capacidade de alegrar crianças doentes em leitos hospitalares seja talvez a maior credencial de empatia que alguém possa ter). Ao contar histórias sobre os desafios que ele mesmo viveu na jornada de desenvolver seu talento, deu uma importante indicação: “Antes que possa haver empatia, é preciso aprender a ouvir, a ver, a dar atenção. Para ver e sentir o outro, a gente precisa ser capaz de ver a si mesmo. E antes que alguém fale que eu estou sugerindo algum tipo de disciplina: não é disciplina, nem esforço! É pausa. É respirar! É se dar o tempo de olhar para dentro e para perceber o que você sente…”

Saí do evento com a sensação de que algo de importante acontece cada vez que educadores se reúnem para discutir um tema humano, real e importante como a empatia. Quanto mais cresce esse debate, mais próximo torna-se o dia em que os meus filhos e os seus filhos deixarão de ir a uma sala criada para “escolarizar” num paradigma do século dezessete, inspirado em regras militares para formar guerreiros com objetivo de derrotar, conquistar ou aniquilar o outro.

Como perfeitamente definiu Anamaria Schindler, presidente emérita do Instituto Ashoka, como um dos aspectos mais relevantes do evento: mobilizar os transformadores, para que sejamos cada vez mais, em número e em princípios; indivíduos transformadores.

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Paulo Roberto Ramos Ferreira é Coach e Terapeuta Transpessoal; Membro da ONG Terapeutas Sem Fronteiras e Conselheiro do Nikola Tesla Institute e autor do livro O Mensageiro – O Despertar para um Novo Mundo. © 2015.

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