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Construção pela Arte

em Incontrolável/News & Trends por

Quando era criança e percebia a porta do banheiro trancada, adorava bater e perguntar: “Tem alguém aí?”. Se a porta estava trancada, evidentemente que sim. Entretanto, queria mesmo era saber quem estava lá. E pelo som da voz que vinha do outro lado da porta, teria minha resposta. Era uma pergunta retórica e ingênua que trazia uma resposta que me confortava.

Vi uma entrevista do escritor e cineasta Arnaldo Jabor esta semana dizendo que nos seus tempos de estudante do ensino fundamental, as crianças competiam sobre quem escrevia melhor. Poderiam ser estórias, poemas, contos ou reflexões em geral. O que importava era que agradasse aqueles que se dispusessem a ler. Para escreverem cada dia melhor, precisariam ler cada vez mais. Acabava virando a atividade da moda: ler e escrever.

A geração de hoje evoluiu dos livros, canetas – ou máquinas de datilografia – para os vídeos gravados através dos telefones inteligentes. Sejam cenas reais ou fabricadas do cotidiano, indignar-se sobre algum assunto, fazerem humor ou até mesmo curtas fictícios. São os “canais no YouTube” que fazem a cabeça da garotada. A grande massa de garotos e garotas se divertem ao mostrar a própria vida – seja jogando videogame, brincando, batendo papo ou simplesmente mostrando a sua rotina. Não tenho dúvidas, é a tecnologia a serviço da arte. Sim, da arte. Essa maneira que os humanos criaram de se expressar desde os seus primórdios, quando rabiscavam aquilo que chamara sua atenção durante o dia, nas paredes das cavernas. Agora são os aplicativos de edição que trabalham depois que a noite chega.

Não pretendo falar da busca por likes ou mesmo da exploração comercial dos materiais produzidos – isso é um efeito colateral de qualquer atividade artística, que poderia render um outro texto. O ponto aqui é, seja lendo cada vez mais para escrever melhor ou passando horas à frente dos computadores para assistir vídeos que os guiem a gravarem seus próprios, a molecada não abre mão de fazer o gosta. Os adultos muitas vezes se esquecem desta simplicidade. Os escritores Rubem Alves e Fernando Sabino foram exemplos de adultos que jamais se esqueceram de enaltecer os ensinamentos das crianças em suas obras. Eles sabiam que este negócio de adulto dizer que “os brinquedos vão ficando mais caros a medida que os homens crescem” é coisa de gente pobre. Pobre de espírito. A satisfação precisa vir da descoberta daquilo que traz auto-conhecimento e benefício ao próximo. São os mais sólidos alicerces humanos para momentos legítimos de felicidade real e verdadeira.

Tenho um amigo que está fazendo aniversário esta semana. Adulto, empresário, na faixa dos trinta. Ele me disse que se deu de presente um curso de dramaturgia de três semanas: “É para buscar auto-conhecimento. Vivenciar coisas novas que só a arte propicia para a gente. Ah, e de quebra poder contribuir com um pouco mais de qualidade com o canal da minha filha no YouTube”. Na hora tive uma mesma satisfação que não tinha desde a infância, aquela voz que vinha de dentro do banheiro quando batia para saber quem estava lá dentro. Era como se descobrisse um pedaço verdadeiro do meu amigo, como ser humano. Apenas uma peça deste quebra cabeça de infinitas partes que a gente é. Completo, jamais seremos ou teremos. Mas só o fato de encontrar alguns encaixes, já é motivo de alento. Ou até de comemoração, por que não.

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