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Curto Woody Allen, mas posso explicar

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Nessa semana uma amiga comentou que, nos cursos de cinema de São Paulo afora, os professores têm o hábito de perguntar aos alunos na primeira aula quais são seus diretores favoritos. Pra quem responde Woody Allen o professor diz que já pode ir embora.

Noutra oportunidade, outra amiga disse que ouviu falar que o Woody Allen era o Didi Mocó brasileiro, ela achou isso bem pertinente. E noutro dia ainda um texto criticava pessoas que consomem cultura de forma rasa, apenas pra se gabar socialmente: tem gente que enche as prateleiras de livros bonitos, mas não conhece o conteúdo de nenhum deles, é o mesmo tipinho que diz ter ido ao cinema pra “ver o último do Woody Allen”.

Woody Allen virou sinônimo de kitsch. Se você tá batendo um papo com uma galera que “gosta de cinema” e cita Woody Allen, deus o livre, eles te olham como se você estivesse sugerindo armar uma bomba numa creche de crianças superdotadas.

Às vezes o problema não é nem o próprio diretor, mas toda a mitologia criada em torno dele. Talvez tenha ele se tornado uma espécie de diretor favorito de quem não manja de cinema, mas quer fingir que manja. Nem por isso, contudo, ele deixa de ser bom. Então, vamos falar francamente.

Pra mim, Woody Allen é um grande diretor, um gênio do cinema, ou no mínimo um cara muito talentoso e apaixonado pelo que faz. Do contrário não teria lançado tantos filmes com um nível de qualidade tão alto, transitando por vários gêneros diferentes.

Didi Mocó brasileiro? Talvez, se você tenha assistido apenas os primeiros filmes do cara, como Bananas, Take the Money and Run, Everything You Always Wanted to Know About Sex ou Sleeper. São filmes lotados de piadas, mas, se o que abriu as portas do cinema para ele foi o Stand Up Comedy, você esperava o quê? Ah, e também não é por serem comédia que são ruins – eles inclusive começam a demonstrar a versatilidade do homem. Enquanto Take The Money and Run é um mocumentário (documentário falso, estilo The Office e Modern Family), Sleeper é cheio de comédia física, e Everything You Always Wanted to Know About Sex, por sua vez, é uma sequência de esquetes humorísticas recheadas de cenas impagáveis.

A partir de 1977 tudo mudou, quando Annie Hall levou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Diretor e Melhor Atriz para Diane Keaton. Sua comédia ganhou um traço mais sensível e deu-lhe oportunidade para lançar dois filmes maravilhosos na sequência: Interiors e Manhattan, sendo o primeiro, de acordo com o diretor, o seu “primeiro filme importante”.

Interiors é um drama puro e Manhattan tem comédia, mas não apenas. A partir de então Woody Allen navegou por muitas águas: alguns suspenses (Shadows and Fog, Crimes and Misdemeanors, Cassandra’s Dream, Match Point, Bullets Over Broadway, Manhattan Murder Mistery), fantasia (The Purple Rose of Cairo e alguns outros que não me recordo), musical (Everyone Says I Love You), várias experimentações (Melinda and Melinda, Mighty Aphrodite) e muitos outros dramas e comédias – com um toque, entretanto, totalmente diferente do início.

Tudo bem, há filmes ruins. Mas, de 50, há pelo menos 10 filmes ótimos, então por que não se concentrar nisso? Small Time Crooks é uma comédia engraçadíssima e com uma boa história: uma quadrilha aluga uma sala comercial ao lado de um banco a fim de cavar um buraco até o cofre. Para fingir que estão usando a sala, decidem abrir uma confeitaria de fachada. Só que a confeitaria começa a dar certo e eles não sabem mais o que fazer.

Vicky Cristina Barcelona é outro drama puro sangue, assim como Blue Jasmine, dois roteiros primorosos sem vícios woodyallanescos.

Whatever Works e Anything Else são duas comédias deliciosas falando sobre leveza, sobre o absurdo da vida, cada um com as suas características e experimentações próprias.

Midnight in Paris também é um filme lindo, uma ode a Paris e ao mundo da literatura e da arte, passando uma mensagem interessante sobre a nostalgia – “no tempo dos meus avós era melhor…”

As outras críticas ao diretor ficam entre “falar apenas de relacionamentos fúteis da classe média alta americana”, o que não está de todo errado, de fato a maioria dos filmes se prendem nisso. Se for esse o problema, existe uma coisa chamada sinopse e trailer, que você pode dar uma espiada antes de assistir. Há também o ato comum de criticá-lo como ator, “ele faz sempre o mesmo papel autobiográfico”, o que está certo e errado ao mesmo tempo. É verdade: ele faz sempre o mesmo papel, inclusive diz ter sido um problema durante um tempo. Os produtores sempre exigiam que ele estivesse no elenco, então Woody passou anos criando personagens iguais, porque assumia não saber interpretar nada além disso. Foi, assumidamente, um ator medíocre. Não é, contudo, um papel autobiográfico, pois ele não é uma pessoa hipocondríaca, gaga e neurótica na vida pessoal. E, de novo, se esse for o problema, conferir o elenco antes de dar play também resolve.

Agora, vida pessoal é um assunto controverso. Não se pode provar e nem contraprovar os boatos. E, realmente, o diretor ser casado com a filha adotiva é no mínimo esquisito. Uma pena: mais um grande talento com a carreira manchada por causa das horas extra-curriculares. Se isso vai ficar para a história ou não, só o tempo vai dizer. Lembrando que Charles Chaplin era confirmadamente um pedófilo, Picasso um misógino e que um queridinho da mídia contemporâneo de Woody também tem supostamente um romance com a neta adotiva: Morgan Freeman.

Enfim, há certas personalidades cujo trabalho admiramos, mas a vida pessoal não. Se vamos deixar isso estragar tudo, é escolha nossa.

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