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Da janela da velha casa

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Da janela da velha casa da Fazenda vejo passar uma infância.

Lá estão as árvores tão cúmplices, as mangueiras que já eram velhas quando eu estava longe de ser, as jabuticabeiras boas de subir e onde a gente construiu casa de madeira, e o chapéu de sol que fornecia a sombra certa para a prosa dos adultos. Mais ao fundo, o pomar dos pés de goiaba, dos bichos de goiaba, da fruta do conde, limão e a mexerica que em nenhum lugar era azeda como aqui. A casa era fértil de felicidade, mas muito ruim de mexerica.

Vejo o caminho de pedrinhas afiadas que, menino, eu corria sem ferir os pés, tão grosso era o cascão nas solas de tanto andar descalço, e ainda melecados de pisar nas centenas de mangas espalhadas pelo chão. Sempre achei que no vão dos dedos sujos ainda ia brotar alguma coisa.

Há pouco fui ao banheiro e a cadeira branca de ferro permanece lá. Quarenta anos nada puderam fazer com relação a isso.

Passam alguns cachorros, fantasmas mansos e festeiros. Alguns célebres, como o Apagão, do tempo em que a luz faltava demais. Téo e sua brancura que nunca era realmente branca, ele que adorava se esbaldar no pó em dias de sol ou chafudar no barro nos chuvosos. Vejo ciscar galos e galinhas, que a gente deixava soltos em volta da casa para afastar cobras, escorpiões e aranhas. O ganso que me deu um carreirão e depois virou almoço. Nossos cavalos, tão pangarés: Valete, Duque, Marquesa, Baio e Abaré, o único de raça, que era do tio Nano e a gente não podia arrear, arisco e meio indomável (meio um pouco como tio Nano).

Não posso ver o quartinho anexo à casa, encoberto pelas ficheiras que em terras mais instruídas chamam de flamboyant, mas posso sentir o cheiro da goiabada que madrinha Rosa preparava nos tachos de cobre, os colonos e os homens da casa se revezando em longas pás para mexer as borbulhas que espirravam e queimavam nossa pele curiosa.

Antes do sol nascer, íamos ao estábulo tomar leite saído dos úberes das vacas, ainda quentinho e espumoso. Eu achava um troço ruim pra burro, mas adorava o ritual de sair ainda escuro, de pijama e caneca na mão. De manhã, marimbondos bitelos, a procissão paciente do gado, minhocas para a pesca das tilápias e lambaris, as cigarras que estouravam seu canto ao meio-dia, anunciando a preguiça da tarde; no pôr do sol, mil passarinhos e suas músicas repetidas, siriema, saci, coró-coró e tanto vaga-lume que a gente perdia a conta; de noite, nos quartos, os besouros que batiam nas paredes no escuro, quebrando o ritmo da respiração forte dos meninos cansados das brincadeiras do dia. E de madrugada, o canto do curiango e sapos de que só os pais eram testemunhas.

(Eu querendo falar disso, e as pessoas na sala discutindo receitas.)

Dessa janela, o vô nos dava bronca por jogar bola enlameada no gramado e carimbar as paredes da casa. A vó batia palma chamando a gente para o almoço – tão fraquinho, mas que a gente escutava de longe. Lembranças à toa, mas que guardo numa caixinha mágica que mantém esse povo vivo.

A Lua em quarto crescente que nasceu tão acesa que deu para ver sua parte apagada. O susto que a gente sabia que iam dar e mesmo assim se assustava. E as estrelas e suas constelações, que papai ensinava para a gente nas noites frias. As fogueiras. Os balões.

Se eu voltar a cabeça para a sala, verei à esquerda a mesa onde eram discutidos assuntos sérios que a gente nem queria saber; à direita, os quadros dos meus tataravôs que me assustavam quando menino: toda vez que eu passava em frente a eles (especialmente de noite), eles me seguiam com os olhos severos. E se a luz fosse de vela, os olhares perturbavam ainda mais. Do lado, o quarto de Neno e Cela. Entrei um pouquinho, deitei na cama deles, olhei para o teto, para tudo, como para comprovar, e rezei uma gratidão.

Volto à janela. Uma ou outra nuvem passou, um vento vagabundo mexe nove folhas e deixa o resto em paz; no mais, tudo está ali. E assim me ponho, pensativo, num tempo fora do tempo. Só volto quando prima Tetê (que ficou com a casa) traz café e biscoito. Os cotovelos apoiados no batente aprenderam onde encaixar. Meu filho fotografou minha ausência. Estou possuído, Beatriz olha para mim, sorri e reconhece o estado. Desses olhos parados vai sair crônica boa, ela diz.

Não sei se saiu boa. Mas dentro não deu para conter.

 

 

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