De Maya ao Devachan: vivemos numa simulação?

em Coluna por

Paulo

De Maya ao Devachan: vivemos numa simulação?

Agora são os cientistas que argumentam a possível ilusão de realidade

XmatrixA trilogia Matrix, A Viagem, Vanilla Sky, Truman Show, A Origem (Inception). Esses são apenas alguns dos títulos Hollywoodianos de maior sucesso que lidam com a hipótese da “realidade ilusória”. Sem contar diversos contos de Phillip K. Dick, assim como os filmes baseados neles, como O Vingador do Futuro (Total Recall) ou Minority Report. O autor de Blade Runner (O Caçador de Andróides) foi especialmente fascinado pela idéia de que vivemos numa ilusão de realidade; e escreveu sobre isso a vida toda, chegando ao ponto de conceder uma coletiva de imprensa em 1977 onde deixava claro que, acreditava não ser apenas ficção a ideia de vivermos numa “ilusão” (uma simulação de realidade) mas, em seu ponto de vista, um fato consumado. Isso custou a ele ser taxado de louco ou demente por grande parte da imprensa.
Hoje, parece haver um novo grupo altamente interessado em debater essa hipótese, e curiosamente ele é composto de cientistas, físicos, especialistas em simulação e realidades virtuais. A ideia é tão antiga quanto a humanidade; faz parte dos ensinamentos básicos do hinduísmo e do budismo, por exemplo. No hinduísmo, todo o universo que vivemos faz parte do Reino de Maya – ou seja, não é real – é uma ilusão que experimentamos como real – exatamente porque seríamos feitos do mesmo “material” que compõe o sonho. A visão budista tem diversas correntes para este assunto, mas como grande parte da filosofia do Buda vem do hinduísmo, é natural que a ideia da ilusão de realidade esteja fortemente presente. Como num sonho no qual não se sabe que está sonhando; todos os problemas parecem reais, todas as dores parecem fatos; todas as alegrias são sentidas como existentes.
Isso corresponderia a uma simulação extremamente perfeita; de um tipo muito mais avançado do que somos capazes atualmente; do mesmo tipo que aparece, por exemplo, nos já citados filmes “Matrix” e “Vanilla Sky”. Se por um lado sabemos que não somos capazes, no momento, de criar uma simulação tão perfeita, o que poderia garantir que não seríamos, nós mesmos, “criações dentro de uma simulação”? Naturalmente, os criadores desta simulação na qual vivemos seriam seres muito mais avançados nesta capacidade. Esta é a hipótese apresentada, por exemplo, por George Smoot, cuja palestra no TEDx Salford tem o provocante título “Você vive numa realidade gerada por computador e a física pode provar isso”. George Smoot é astrofísico, cosmólogo e ganhou o prêmio Nobel; e ao menos até agora não foi chamado de louco ou demente. Outro que apresentou um argumento interessante é Nick Bostrom, filósofo que coloca em sua Hipótese da Simulação, o seguinte Trilema:
“Uma civilização “pós-humana” tecnologicamente madura teria enorme poder de computação. Baseado nesse fato empírico, o argumento da simulação mostra que ao menos uma das seguintes proposições é verdadeira:
1. A fração de civilizações de nível humano que alcançam um estágio pós-humano é bem próxima de zero;
2. A fração de civilizações pós-humanas que estão interessadas em executar simulações ancestrais é bem próxima de zero;
3. A fração de todas as pessoas com nosso tipo de experiências que estão vivendo em uma simulação é bem próxima de um.
Se (1) é verdadeira, então iremos quase certamente ser extintos antes de alcançar a pós-humanidade. Se (2) é verdadeira, então deve haver uma forte convergência pelos cursos de civilizações avançadas, de forma que virtualmente nenhuma contenha indivíduos relativamente ricos que desejam executar simulações ancestrais e têm a liberdade de o fazer. Se (3) é verdadeira, então nós quase certamente vivemos em uma simulação. Na escura floresta de nossa atual ignorância, parece razoável dividir a crença igualmente entre (1), (2) e (3).” A não ser que estejamos vivendo agora em uma simulação, nossos descendentes quase certamente nunca executarão simulações ancestrais.” [fonte: Wikipédia]
Como sabemos, por experiência própria, que dificilmente a hipótese 2 faria sentido, uma vez que nós mesmos criamos simulações todos os dias (dentro dos nossos limites de capacidade tecnológica), restam as hipóteses, 1 e 3, quase que igualmente inquietantes.
Eu gostaria de adicionar a este debate o termo ocultista Devachan; que foi apresentado no século dezenove por Helena P. Blavatsky em suas obras; entre elas “A Doutrina Secreta”, o livro de cabeceira de ninguém menos que Albert Einstein. Segundo Blavatsky em seu “Glossário de Teosofia”, o Devachan seria um estado de consciência de plenitude e felicidade, no qual alguns seres passariam os intervalos entre o final de uma encarnação e o início da seguinte. Para que haja um estado de plenitude e felicidade, o Devachan seria uma experiência baseada nas próprias crenças do indivíduo; ou seja, aquele que acredita que a felicidade é um céu com anjos tocando harpas, viveria exatamente isso; enquanto que outro indivíduo que acredite que a felicidade seria apenas estar com todos os seus familiares que partiram antes dele, viveria exataemnte essa outra experiência – e nada haveria de contraditório nisto; uma vez que não há um “lugar”; mas apenas um “estado subjetivo de consciência”. Embora seja claro que a nossa realidade presente; simulação ou não, está muito longe de ser um estado de “plenitude e felicidade”; permanece uma pergunta interessante: o que impediria o universo de proporcionar outros estados de simulação; talvez não “individuais” como o Devachan, mas “compartilhados”, como esta realidade presente? Neste caso, em sendo uma realidade compartilhada e experimentada por milhões de consciências simultaneamente, faria sentido que houvesse tremenda divergência de visões e um grande potencial de “dissonância” entre os participantes deste “estado de consciência coletivamente concebido”. Esta possibilidade, inclsuive, corresponde a um princípio da natureza, que é o da economia de recursos: na natureza, tudo é criado sempre utilizando o mínimo de recursos necessários; e é óbvio que criar diversos “estados de consciência” parece muito mais “econômico” do que criar inúmeros universos paralelos inteiros.
Interessante notar que, certa vez, Blavatsky foi assim questionada por um de seus estudantes:
– “A natureza completamente subjetiva da nossa experiência do mundo poderia fazer com que ele fosse, na verdade, um outro estado de consciência, diferente do Devachan, mas com muitas características semelhantes. Como poderíamos, como saberíamos distinguir entre a “realidade” e tal “estado subjetivo de consciência”?
A resposta de Blavatsky é clara e imediata: “Não poderíamos. Não saberíamos distinguir”.

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Paulo Roberto Ramos Ferreira é Coach e Terapeuta Transpessoal; Membro da ONG Terapeutas Sem Fronteiras e Conselheiro do Nikola Tesla Institute e autor do livro O Mensageiro – O Despertar para um Novo Mundo. © 2015.

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