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Dúvida existencial na sorveteria

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O sujeito chegou no balcão da sorveteria, dessas que oferecem mais de 100 sabores, olhando para o painel, saboreando sua dúvida. O atendente veio com aquela animação toda e perguntou: “Oba. Já escolheu?” Foi quando ele empacou como uma mula velha diante de tantos sabores.

Caju ou cajá? Ameixa ou lixia? Milho verde ou passas ao rum? Pronto: sua vida chegara a uma encruzilhada onde toda prudência e humildade se impunham. O que significaria optar pelo de limão em detrimento do de coco? Que ele no fundo é uma pessoa ácida, cítrica por vezes, com tendências ao azedo no decorrer do período? Como pedir o de creme ou chocolate sem parecer um sujeito fraco, sem imaginação, previsível? Ou o de nata sem pôr em questão sua masculinidade? Como pedir o de creme holandês, se não há garantias de que ele exista na Holanda?

Quem estava sendo julgado, afinal? Ele ou o sabor?

Afinal, optou pelo de framboesa. Quem criticaria um cidadão que, além de pagar seus impostos e estar em dia com a Justiça Eleitoral, escolhe framboesa entre tantos sabores, tão mais polêmicos?

Está certo que não vinha com aquelas sementinhas gostosas que, um dia, lhe disseram serem na verdade de figo. Mas sementes de figo ou framboesa, tanto faz, fazem barulhinho ao serem mordidas. E só isso já é um motivo para fugir de uma reunião.

Mas o atendente, sempre animadão, volta à carga e acaba com sua paz: “No copo ou na casquinha?” Ainda pensava na resposta quando vieram outros questionamentos existenciais: “Para agora ou para viagem? Débito ou crédito? CPF na nota?”

Segurando firme o sorvete, lá ficou, imóvel, olhos fazendo o que seria de se supor que a língua fizesse – corresse de cá pra lá, ora para o vivaz atendente, ora para a porta. E o sorvete escorrendo, já melecando os dedos. Pensou em coisas. Por exemplo, em pedir uma cobertura. Sair correndo levando consigo o porta-guardanapos. Levantar a casquinha para o alto, no gesto que Dom Pedro I consagrou bradando a independência.

Ou atirar sorvete, meleca, mula empacada e tudo o mais na careca daquele hare krishna passando na calçada. O mundo anda muito complicado. Tipo assim meio pistache, meio banana.

 

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