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Eis o problema

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O problema não é ficar sabendo que o mundo é milhares de vezes maior que São José (embora eu tenha minhas dúvidas). É mesmo assim a gente se afligir com algo que ficou sabendo de dia e não dormir de noite.

O enrosco não é entender que caberiam centenas e centenas de Terras no interior do Sol. É que, mesmo diante da nossa insignificância, a gente ainda ter certo pudor em tocar algumas campainhas.

Não é ser informado que, mesmo imenso, o Sol é uma coisica em comparação a outras estrelas gigantes. O grave é que o pessoal insiste em espalhar radares pela cidade como se essa fosse a prioridade do mundo.

Que a estrela que a gente vê no céu pode ter explodido há milhares de anos e tudo o que a gente vê é sua luz que demorou todo esse tempo para chegar até nós. É convencer o filho de que é muito importante estudar Trigonometria.

Levar grande susto ao saber que a Lua influencia as marés, mas achar a coisa mais normal que dentro de você exista um universo de glóbulos, células e mitocôndrias tão vasto quanto o lá de fora.

Que Saturno está pouco se lixando que você seja apaixonado pelos seus anéis, pois isso não o demove da ideia de ir ao Atacama atrás de um telescópio e passar a noite acordado, namorando de longe.

Seria espantoso se fosse apenas a imensa distância entre as coisas no Universo. Mas distâncias tão próximas são mais humilhantes.

O que espanta é estar ciente (pouco, admito) das ciências e mesmo assim evitar passar por debaixo da escada para afastar o azar. Ser um sujeito minimamente esclarecido em pleno século XXI e, no entanto, fazer figa na disputa de pênaltis.

A questão está longe de saber que Netuno leva 164 anos dos nossos para contornar o Sol. É que, quando eu acendo a luz para achar o pernilongo, ele se esconde de um jeito impressionante – por nada nesse mundo eu acho o miserável.

A impossibilidade de alcançar Marte com as mãos é a mesma daquela pitanga vermelha lá no alto e você sem escada. Um buraco negro não é mais sumidor das coisas que as gavetas de casa. Não adianta gritar para alguém: “olha, uma estrela cadente!” que ela já caiu.

Enfim, Deus, Alá, Buda, Krishna ou quem estiver no comando: o problema não é Júpiter ou os glóbulos brancos, frieiras ou cantos gregorianos, galáxias ou minhocas, ou tanta grandeza e mistério. É a fala, o coração, as mãos ou o estômago trair a gente diante de certa pessoa e se apertar, descompassar e estancar. Indisfarçavelmente.

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