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Essa coisa

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O nome é tão feio que melhor é chamá-la de coisa. Essa coisa que nasceu aqui dentro e quer viver minha vida: roubar minha comida, meus músculos e taras para seu sustento. Uma visita que chega de mala e cuia quando você estava de saída para o cinema. A sensação quando a roda gigante enguiça, sua cadeira para no alto e você fica balangando no ar. Um prato que o garçom traz por engano e insiste em que é seu.

Essa coisa brincando de Pollock no meu cérebro fez da calçada uma pinguela. Das paredes, sustos e alguns roxos. Encheu os pés de formigas e agora toda noite acontece da perna querer sair da perna.

Contra tudo o que você deixa cair no chão (tadinha das chaves, canetas e colheres), aprender piano para mostrar aos dedos. Contra os olhos que vão cada um para um lado, óculos escuros para inventar nova luz. Convencer o mundo de que pratos e xícaras lascados são um novo conceito de viver sem luxos. Em cada canto da casa, um post-it para não se esquecer do tanto que ainda quer fazer.

Durante os surtos, ser capaz de trocar as sensações: sentir calor com gelo, dor com o toque de uma pena, frio em Realengo, cócegas com vento. Meio Cássio, meio faquir.

Nos dias normais, ser ultrapassado por todo mundo nas caminhadas, inclusive pelo velhinho cego de bengala. Não achar na gaveta uma camiseta sem uma lembrancinha de alguma refeição passada. Terminar o capítulo para então recomeçar, porque foi como se não o tivesse lido.

Ter pouca resistência à bebida – e você era bom nisso. Atrapalhar-se mais do que o costumeiro com os botões. Esquecer um nome que seria inesquecível. O cansaço da noite no meio da tarde. O carro que cruza sua frente no susto, mas que na verdade está muito à direita. E a visão que, dependendo do ângulo, duplica as coisas – ótimo no caso dos agapantos e cocadas, péssimo no das injeções.

O pânico de nunca lembrar onde deixou a carteira, o celular, o juízo. O calor que derruba, há que considerar janeiro em Oslo. Um sono súbito, que se resolve em 15 minutos. Para, inexplicavelmente, acordar com gana em escrever e escrever e escrever até sangrar e se sentir vingado.

Meu corpo inventou essa coisa, mas não guardo rancor. Como, se ele me levou a Roma, ao D’Orsay, Cabrália e Tiradentes, preencheu meu oco de Mozart, Chagall, Pixinguinha e Rodin; me deitou no meio de um rio no Pantanal, na Rodoviária de São José, numa rede na Bahia; me embalou com Drummond e Calvino (alguns não lhe deixaram dormir mais, é verdade); providenciou manga, mariscos, garoas de mãos dadas e a divindade do amor. É verdade que retribui: tantos brindes à sua saúde, da cachaça mais amarga a um Calvados 76.

Então, corpo meu, sigamos nessa jornada tão linda sem priorizar essa… coisa, me recuso a dizer o nome pavoroso. Essa coisica, coisela, coifoca, coisufa, coileca, coilhofa, coitoca, o que mais a constranger. Aceito sugestões.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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