Estou sendo acusado

em Cássio Zanatta/News & Trends por

 Foi então que, do nada, deram para me acusar. De coisas que levei a vida me acostumando, quando não esmerando. Escrevem manifestos, apontam os dedos, cravam as sobrancelhas e me diminuem a cada grito.

Acusam-me de comer carne. E têm razão. Como desde que me nasceram na boca uns caninos. Gritam “assassino”, dizem que não tenho compaixão por bois, porcos, frangos e peixes. Claro que tenho, não sou pedra. Mas adoro carne e sou fraco de dar dó. Mas ainda mais dó tenho de quem tem fome e não pode comer, não há escolha em seu cardápio nenhum. Mas não vou bradar por inocência nem explicar meus motivos, aprendi que os que têm certezas não querem ouvir razão alguma.

Criticam meus caminhos e me mandam fazer meditação. Afirmam que sou escravo de um mundo material e que fujo à tarefa de descobrir meu verdadeiro eu. Mas quem disso que quero conhecer meu eu? Já convivi tantos anos comigo mesmo, ando meio cansado das mesmas alegrias e decepções. Além disso, faço sim meditação, as calçadas são testemunhas. Medito sobre coisas muito mais interessantes do que minha pessoa. Sou um assunto meio aborrecido.

Do púlpito, gritam que não tenho fé. Confesso de joelhos que é verdade, ela já esteve mais por aqui. Ou melhor: até tenho, mas com constância ela me falha. Sou dos que negariam mais que 3 vezes. Daí me ameaçam com tridentes, enxofres e labaredas, e o que mais me incomoda é essa torcida.

Para eles, poluo demais a natureza, consumo muita água e (pior) tenho posições políticas que mudam a cada eleição. Um errado quando dou minha opinião; um omisso quando apenas ouço. Os acusadores de esquerda me desprezam; os de direita me ridicularizam. Tampouco sou popular entre os moderados. Sei que lá na frente um paredão de fuzilamento me espera.

Para os acusadores, sou o responsável pela pobreza, pela desigualdade, pela violência e pela extinção dos botos. Em suma, sou a sociedade, a culpa é dela. Tenho as minhas e não as nego, mas tantas cobranças me parecem injustas. Já é difícil tolerar meus enganos, não preciso de novos.

Só não entendo o tom. Eu adoraria saber de onde vem tanta superioridade. Por que se acham tão sábios, falam alto e articulado, assumem ares superiores, como quem tem certeza de alguma coisa nesta vida? Se falam de equilíbrio, por que elevar a voz? Se estão em paz, por que infernizar outras almas? Sentem-se deuses, os emissários escolhidos, porta-vozes das divindades. Por mim, podem ir catar coquinho – se isso não atrapalhar a concentração, não lhes quero mal.

Me identifico é com os perdidos, os errados (vide o pronome no começo da frase), os que têm dúvidas, os apaixonados sem esperança, os que gostam de beber com os amigos, os que riem e os que se deprimem, os que carregam uma música na cabeça e os sonhadores que escrevem cartas, mesmo que as cartas nem existam mais. São humanos, mais próximos de mim que dos deuses, prefiro assim.

Só sei que nada sei. E nem essa frase fui capaz de criar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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