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Fronteiras

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Foi algo do lado de lá que o chamou e você é curioso de dar dó. Vai até a fronteira, pleno de certezas erradas. Dá uma espiada no limite que julgava conhecido e leva um susto: aquele mundo que você achava que era, é muito maior. Atordoado, você volta, mas ficar não é mais possível. Só o tempo de arrumar a mochila para redescobrir onde aquilo vai dar.

Nove meias é o bastante? Para a água ou para o mato? É preciso olhar tanto o musgo como a onda, e que o vento decida. E ele sopra forte, você é carregado para longe, vê árvores douradas de folhas secas e águas que não molham, tão frias e impossíveis de entrar. Há coisas estranhas, como um sol que até aparece, mas não esquenta; ser noite às três da tarde; o silêncio sem passarinho e comprar banana não em cacho, mas por unidade. Sua cabeça roda, seus passos duvidam um pouco, mas caminham, sempre caminham, até chegar à próxima borda e ver que a coisas vão ainda além. As fronteiras não sossegam.

Caminhando na neve, descobrir que os pés também têm assunto.  Queimar a sola na praia de pedra se fazendo de areia. Avivar a mão com a fumaça quente que sai da boca. Ficar alegre feito bobo com um aviso no metrô e irremediavelmente deprimido ao sentir tal cheiro. Acompanhar a música que o degelo toca nas pedras. Tanta surpresa, bem que a foto assustada no passaporte tinha avisado.

Mas horizonte é bicho arisco. De quem tenta se aproximar, está sempre fugindo. Deixa alguns raios de sol furando a nuvem e brincando de Deus, só para conformar o viajante. Se ele tiver sorte, ganha o incentivo da Lua nascendo do outro lado. Segue a busca.

Pegar o trem que vai pra esquerda ou direita? O altão prateado, com cortinas nas janelas, ou aquele outro com uma bandeira desconhecida e um menino em cada janela? Um café no vagão-restaurante espiando a neve nos montes. Escrever uma carta pra vó, mesmo que ela não esteja mais aqui. Dormir sonhos bons nas piores camas.

Mas do que mesmo você veio atrás? Precisava vir até aqui, Goiás não estava bom? Nenhuma alma fala sua língua e todos acham normal secar os cabelos e usar luvas. Você ri imaginando esse povo tropeçando na palavra Itaquaquecetuba. A cada passo, um peso é deixado no caminho.

Até que, meses depois, puídas as meias, o nariz pingando de fastio, veias azuis feito rios nos braços, o sinal é claro: tempo de voltar. Você retorna, fechando os olhos diante do exagero de luz. Mas nunca volta. Seu olhar virou outro, há outros movimentos e cores nas ruas de sempre. A explosão da jabuticaba na boca e você parece ser de novo aquele. Mas as músicas e tortas de sempre não funcionam. E você estranha o calor, o barulho, o excesso de vida, algo em você que é sozinho grita.

Você não é mais de cá, nem de lá. É de um lugar estranho, cujos limites são a todo momento apagados por uma borracha que, no entanto, deixa algumas linhas visíveis. Um pé em cada terra, um querendo pisar mais forte na paz do outro. Você foi picado, está perdido. A busca de uma fronteira para sempre adiada.

Mais uma despedida de mim.

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