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Gratifica-se

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Tenho uma amiga que encontrou sua cadelinha depois de duas semanas que o pet-shop à havia perdido. Pudera! Tamanho o ativismo que empregou no Facebook, talvez  até o Zuckerberg tenha compartilhado algum de seus posts. Um batalha vencida em nome desta relação transcendental que a gente tem com os nossos “melhores amigos”.

Mas nem sempre as redes sociais estiveram aí para ajudar. Sei que São Francisco, o santo protetor dos animais, sempre trabalhou bastante. Então vou contar uma história de resgate incrível que aconteceu antes destes novos tempos de comunicação virtual em massa.

O tio Ted mudou de uma casa com terraço para um apartamento em prédio com elevador. Eram localidades próximas, no mesmo bairro da Capital. Entretanto, essa mudança colocou fim a permanência de um membro da família: a Isabor – uma cadela pastor alemão muito gente boa. Mas não houve trauma. Como todos naquela família – a tia Naza e as filhas Má e Cacá – viam a Isabor como o quinto membro, resolveram levá-la para um lugar onde ele pudesse seguir uma vida feliz.

Tio Ted tinha um irmão que morava em uma fazenda a cento e vinte quilômetros dali. Era o lugar perfeito, afinal Isabor sempre adorou espaços mais amplos.  Acertaram então que ela iria morar na fazenda do irmão. No início a adaptação foi meio tumultuada. A Isabor, como muitos dos seres que viveram a vida toda na cidade grande, não sabia a diferença entre carrapatos e carrapichos. Mas não demorou muito para ela perceber que a liberdade que a acompanhava numa vida no campo era pura alegria. Logo se enturmou com os outros cães da fazenda, aprendeu que galinhas não eram uma ameaça e pode finalmente, após as primeiras chuvas de prenuncio do verão, sentir nos próprios pelos, o real cheiro de cachorro molhado.

E foi numa noite destas de Dezembro, quando São Pedro resolveu descarregar as nuvens com requintes de final dos tempos – com direito a muitos raios, fortes trovões e tanta água que mais parecia um dilúvio – que a Isabor desapareceu. No dia seguinte pela manhã, o irmão do tio Ted logo percebeu a sua ausência. Pediu aos funcionários da fazenda que a procurassem por todos os cantos da propriedade. Montaram nos cavalos, nas motos e carros. Pelas estradas só se escutava assovios e chamados pelo seu nome. Tudo isso sem sucesso. Ao final do dia, ligou para o irmão da Capital e avisou do ocorrido.

Na manhã seguinte a família apareceu em peso na fazenda. Todos os quatro determinados a encontrar a Isabor. Rodaram por três dias por toda a fazenda e nas propriedades vizinhas. Conversaram com todos que encontraram pelo caminho. Foram nas emissoras de rádios e colaram cartazes na cidade mais próxima. Ofereceram uma gratificação bastante tentadora para aquele que por ventura pudesse encontrá-la. Neste momento, a Cacá lembrou do filme gravado em meados da década de 90, o “Ace Ventura” – o “detetive” de animais literalmente seqüestrava os bichos, para então esperar pela divulgação das recompensas pelos donos. Daí era só devolve-los e receber o dinheiro.

Nada adiantou. Voltaram bastante tristes para a Capital e seguiram suas rotinas nas próximas três semanas. Mas não sem que o Tio Ted e a Má (esta última o humano da família que Isabor havia escolhido como dona. Evidente que todo cão escolhe um dono) deixassem de passar os finais de semana na fazenda em busca de notícias da Isabor. Nada.

Mas o destino reservava ainda muita emoção para essa família. Já era Ano Novo, quase um mês depois do sumiço, quando a tia Naza voltando do trabalho em plena Quarta-Feira no final da tarde, por uma via bastante movimentada da Capital, avistou um cachorro preto quase sendo atropelado. A freada  brusca do carro da frente não deixou de assustar o bicho, que correu para as ruelas que faziam o acesso às casas muito simples na beira da via. Tia Naza não teve dúvidas, virou o carro no sentido do cão enquanto gritava pela janela: “Isabooorr!!”

Quanto mais a tia Naza corria e gritava, mais a cadela se assustava. Ela parou o carro no meio de uma daquelas vielas e resolveu seguir a perseguição a pé. Foram uns dez minutos de muita adrenalina e angústia até que a cadela foi contida por um homem que passava na rua.

Tia Naza colocou em seu carro um animalzinho muito debilitado: repleto de parasitas, cortes por todo o corpo, pelos queimados pelo sol e psicologicamente bastante abalada. Estava tão triste que não reconheceria mais os humanos. Muito arredia foram dias até se alimentar normalmente. Por outro lado, Tia Naza e as filhas eram pura alegria com a aventura de Isabor em percorrer mais de cem quilômetros para voltar para casa. Como ela poderia saber qual direção seguir? Certamente teria passado por profundas dificuldades na trajetória – haja vista todas as mudanças físicas que a mesma apresentava. Nem parecia a mesma Isabor.

Passaram-se semanas. A cadela foi se restabelecendo. Os pelos passaram a adquirir a tonalidade real. Os parasitas a deixaram em paz. Numa bela manhã de Domingo, após repor a ração da heroína, a Má quebra o gelo: “Tem algo que preciso falar para vocês, pessoal!”. “Já sei!”, se antecipou a tia Naza. E continuou: “Ela está grávida!”. A Má respondeu com um sorriso amarelo, suspirou, e afirmou assertivamente: “A Isabor que temos aqui não é a original.”

Era incrível demais para ser verdade. Então não era verdade. Tratava-se de uma outra cadela pastor alemão. Muito parecida mas nada além disso. Mudaram a maneira de chamá-la. Deixou de ser a “pastora” Isabor, passando simplesmente a “Impastora”. Muito melhor para ela, que acabou gratificada com um novo lar!

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