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In memoriam (Parte 2)

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A Dona Paula foi a primeira mulher veterinária a se formar no Brasil. Teve quatorze filhos de treze gestações, pois um foi adotado. De origem belga, foi matriarca de uma família composta de personalidades únicas: inteligentes, inquietas, sublimes… Seu olhar era puro acolhimento. Administrou a longa lista de descendentes para, acima de tudo, transmitir cidadania aos filhos, netos e bisnetos.

A Vovó Lavinia, depois de viúva, adorava viajar com as amigas. Utilizava todos os meios de transporte possíveis para isso – ônibus, avião… mas o preferido eram os navios em cruzeiros. Mesmo depois de ver os filhos crescidos e encaminhados , ainda se dedicava a viver com servidão e cuidado frente toda a descendência – às Quintas-Feiras recebia os filhos, netos, bisnetos e agregados que estivessem na região de sua casa para um delicioso almoço, onde o cardápio era padrão: peixe, arroz e purê de batatas. Pintava lindamente também.

Ambas se foram este ano e, até onde eu sei, nunca se encontraram por aqui. Em comum tiveram como o principal legado nesta vida a família que construíram. Uma empreitada de longuíssimo prazo, administrada com muitos percalços. Optaram pela mais desafiadora de todas as missões – uma que envolve entendimento profundo das contradições humanas, das orientações sutis, entendendo verdades pessoais conjugadas às aceitações de singularidades e decisões de cada membro da família. Elas sabiam que, até mesmo dentro de casa normalmente existem imensas diversidades. E a aceitação e apoio precisa começar aí mesmo: no seio do lar.

Que energia é esta que, surfando nossas próprias lembranças, nos faz visualizarmos as pessoas queridas sorrindo? Talvez todo o bem que proporcionaram transcendeu. Quem sabe não foi este o propósito do trabalho de suas vidas? As jornadas sempre variavam de seis, oito, doze horas ou plantões integrais por meses. Não importa o tempo que se dedica ao trabalho quando se faz com propósito. Quem encontra isso na vida, consegue entrar para um seleto grupo de homens e mulheres: aqueles que vivem em um envolvimento diário com e para o amor.

Hoje, Dona Paula e Vovó Lavinia jamais entenderiam conceitos de “jornada de trabalho”. O propósito que está por traz da escolha que fizeram sucumbiram o sacrifício. A produtividade é a importante lição complementar. Como disse o ex-presidente Uruguaio José Mujica: “Não compramos coisas com dinheiro. Compramos com o tempo. Ou seja, o tempo de trabalho remunerado e necessário para este desembolso.”

Nem todos podemos ter a sorte de construir obras primas como fizeram Dona Paula e Vovó Lavinia. Entretanto todos devemos encontrar nossos propósitos – para que o tempo de trabalho deixe de ser importante e possamos coletar mais alegria e realização, e porque não, buscar deixar um razoável legado. Inteligente é aquele que compreende e respeita essa condição humana de singularidade não apenas nos outros, mas principalmente em si mesmo.

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