Já sei!

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não me venham com essa história de que um sonho dura poucos segundos. Balela lascada. O meu de há pouco durou ao menos 40 minutos. Dos bons.

Eu andava pelos lados do corguinho, em São José, quando fui coberto por uma sombra de assustar. Era a copa de uma árvore que cobria boa parte do pasto, cheia de galhos e flores vermelhas. Pulando entre os galhos, um bando de maracanãs narravam os acontecimentos. Corri para dentro da casa (coisa que, aí sim, em sonho é um pulinho), chamei o pessoal para ver, corremos de mãos dadas e me deitei na grande sombra, encostando a cabeça no colo de alguém que não vejo há décadas, só apreciando.

O importante é que, ao acordar, eu descobri tudo. Tudo, meus irmãos. Daquelas epifanias que a gente grita pela janela, assustando o pessoal na rua: Já sei! Descobri enfim o que acontece depois que a gente empacota. Agora tudo faz sentido. Estão me acompanhando?

Depois que a gente baubau, o que vem a seguir não é uma escuridão vazia, o fim de tudo, o sem sentido, nada para sempre. Também não é a vida eterna, onde viveríamos em nuvens cercados de anjos tocando harpa. Muito menos o sono ininterrupto, sem despertador, sem reforma no apartamento do vizinho nem cachorro lambendo a cara para nos acordar.

O que existe, atenção: é, e tão somente é, um sonho sem fim. Sonho, não pesadelo, olha que notícia boa. Por anos, séculos, milênios, passaremos a emendar sonho bom com sonho bom.

Assim, abriremos uma porta e sairemos no recreio do colégio. Lá estarão os amigos e a menina sardenta que finalmente nos dará bola. Num sonho, marcaremos um gol de placa no futebol, no outro saberemos solar guitarra feito Jimmy Page.

Daí, pularemos na piscina que logo se transformará no mar cheio de ondas e espumas e siris nas tocas e, na areia branca, espetinho de camarão com caipirinha. Vamos poder ficar ao sol o tempo que quiser, que não ficaremos da cor do crustáceo acima citado. Ergueremos castelos na areia que serão habitados por nós mesmos, príncipes e princesas, alimentaremos os jacarés do fosso jogando calabresa acebolada das torres e celebraremos a paz entre os reinos nas ladeiras de Olinda, num Carnaval infinito, em fantasias de astronautas que nos serão úteis em nossa viagem espacial a Saturno.

Seremos capazes de respirar debaixo d’água, flutuar no céu, moldar nuvens, sobreviver à queda da cachoeira e até aos capotamentos dos carros de corrida. E seremos incapazes do menor egoísmo.

Nesses sonhos, todos os queridos lá estarão, ninguém adoeceu, ninguém se foi, as avós seguirão fazendo tricô e bolinhos de chuva e os avôs voltarão a ser meninos e brincar de pique saltando nas poças. Nossos pais serão jovens e alegres como sempre foram e nos encorajarão a fazer as coisas mais destemidas.

Cada um terá sua sequência de sonhos. Que, no fim, não difere muito de pessoa para pessoa. Ninguém quer ser vice-presidente de empresa alguma, não quer dar ou assistir a palestras, nem ser um vencedor, pagar seguro de vida ou descer a Serra só no feriado. O que nos leva a perguntar por que a gente se preocupa tanto.

Viva com menos peso. E não se esqueça de ir estocando sonhos. Se por algum motivo não houver tempo ou jeito de realizar algum, não se preocupe. Lá na frente, você terá todo o tempo do universo, até o fim dos tempos, para isso.

Consta que, só de sonhos com aquela menina, serão dezoito séculos.

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