-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-

Lá vai Maria

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Nenhum pio no elevador. Um breve comentário sem necessidade ecoa na garagem vazia, antes de entrarmos no carro. No caminho, passamos por 18 sinais – a maior parte, abertos. A vida, sempre em frente, não pode, não quer e nem sabe se deter. Atravessamos as ruas ainda sem as pessoas, cruzamos avenidas, mais silenciosas que de costume. Nem o rádio ligamos, vai que toca alguma música que nos faça derreter.

É o último dia de vida escolar de Maria. Hoje, eu a levo pela última vez ao Colégio. Nem seria preciso, já sabe andar sozinha, pegar ônibus, trem, metrô. Já foi a Minas, à Serra da Capivara, Amazônia, Europa, já dormiu em barco no meio do rio, rede em casa de pescador, oca de índio, no meio da floresta (aí contou que pouco dormiu, tamanho o barulho que os bichos e insetos e sabe-se lá que criaturas faziam de noite)… vê se precisa deste pai para se virar.

Mas toda manhã insisto em trazê-la, é cada vez mais difícil durante o dia encontrar 20 minutos para conversar com os filhos e, para mim, este é um dos grandes prazeres de ser pai e estar vivo. Nem que seja para falar alguma bobagem como “li que a safra de abobrinha este ano será 15,1% menor” ou “você reparou que a gente encontrou mais sinais verdes do que vermelhos?”

Desta vez, pouco nos falamos. O momento é grave e estou meio assim. É minha filha, dando mais um passo no caminho que ela mesma vai escolher, do qual já fui a estrada, carro, combustível, acelerador, breque, guarda, placa de trânsito e hoje, sou cada vez mais uma mistura de juiz, conselheiro e tia velha que reza o terço. Ou aquele sujeito no banco de trás do carro, que de vez em quando deixa de pensar na vida e espicha a cabeça para conferir se o motorista está no rumo certo.

Diante da banca da esquina conhecida, cumprimento o amigo jornaleiro. Estranho que nenhuma manchete dos jornais destaque este dia. Mas confesso que não deu para procurar em todas as publicações, o sinal abriu e um carro atrás buzinou com uma insistência que não convinha à hora nem ao trânsito tranquilo. Não me deu raiva de sua tola impaciência. Há uma hierarquia de sentimentos, e a emoção de levar minha filha ao seu último dia de escola recolhe aos lugares de baixo as chateações menores.

Então este dia chegou. O último dia como todos aqueles outros. Não há trompas, espetáculo pirotécnico, não há raios fúlgidos, a vida parece indiferente, mas não me engana. As árvores estão floridas e Maria também. Vejo nos seus olhos uma mistura de orgulho de chegar até aqui, susto de chegar até aqui, alegria e alívio por ter se livrado de vez de acordar ainda noite, do impossível entendimento de Química Orgânica, das provas bimestrais e, por que não dizer, um pouco de tristeza por amigos, risadas, recreios, descobertas, partirem tão de repente – então é assim?

É, minha filha. A vida é esse atropelo, até as coisas demoradas passam rápido (não tão rápido quanto um mergulho no mar, mas é quase igual). Aproveite o momento, despeça-se de sua turma, abrace com emoção cada um, assine as camisetas dos amigos, encha a sua de rabiscos deles e guarde esse tesouro para sempre. Dê também uma longa e última olhada nos professores que lhe foram importantes, eles voltarão sempre à sua memória durante a vida, você não sabe disso agora, mas eles estarão sempre com e em você.

Chegamos. Paro o carro em frente ao Colégio. Reconheço o carro do pai de um colega, aceno para ele, não na expectiva de que ele me perceba e responda, tão somente para fazer algum gesto que me esconda do turbilhão do momento.

Pode descer, filha. Não é para vir te buscar, você vai sair com as amigas? Então tá. Tchau, Maria. Um beijo. Ah: e manda também um beijo para aquela menina magrela, de cabelo curtinho e tão menor que você, que eu comecei a deixar nesta mesma porta há sete anos. Diga a ela que seu pai está orgulhosíssimo. E vai ligar o rádio para fingir que está emocionado por causa da música, assim que virar a esquina.

loading...
Tags:

Comentários no Facebook

Últimos de Cássio Zanatta

Escrevo porque

Escrevo para ver se aprendo. Para poder conversar com você, mesmo que

Passaredo

Bem-te-vi usa máscara para cortejar no anonimato. Tucano só voa com aquele

Eis o problema

O problema não é ficar sabendo que o mundo é milhares de

Da hora

Chega uma hora em que não é mais desconcertante rever o grande
Voltar p/ Capa