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Leonardo

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Ê, menino desejado, sonhado, esperado, aí está você. De pele cor de rosa, tufos que prometem cabelos e olhos à procura. Não tenha pressa, durma nos braços do tio-avô. Você só está aí há dez minutos, tão aconchegado, em paz, fique mais um pouco. Mas a boca já faz bico, logo vai querer mamar. Comida é uma coisa boa de estar vivo.

Não se assuste, você nasceu perfeito. Tem mãos e pés, não consegue vê-los porque é tão pequenino que a roupa sobra. Onde deveria haver os dedos está a manga azul de sua roupinha.

Aquilo amarelo entrando pela fresta da janela e que incomoda seus olhos é um dos últimos raios de sol do dia que trouxe você. Já, já, ele vai se pôr atrás do morro do Cristo, espalhando o colorido pelo céu como um pintor que fosse dormir e, de tanto sono, deixasse as tintas escorrerem pela tela. Mas não acorde agora, a tudo você será apresentado a seu tempo.

A noite deve ser fria e você não está mais dentro do calor de sua mãe. Mas as cobertas estão a postos e o contato delas com a pele é doce. Todos estamos aqui para cuidar de vocês dois. Seu pai, primeiro vamos esperar que aterrise da nuvem em que está para então tomar as providências.

Não sei se seus ouvidos percebem a farra dos passarinhos lá fora. Eles não o acordam, ao contrário, você parece aprovar. Passarinho é uma coisa que você vai gostar muito de conhecer. Tem cores, voa e canta, cada um de um jeito diferente. Eventualmente a gente flagra algum bicando uma fruta. Mas estou me adiantando nas apresentações e por ora basta você dormindo nos meus braços.

Olha, você suspirou. Como seus bisavôs iam gostar de você, Leonardo. Meu lindo. Meu santo.

Cachorro é outro negócio de que você vai gostar. Flor. Chocolate. Sorvete. Bola. Praia. Amigo. Até naquilo que os grandes já não veem tanta graça, como vassouras e andar de ônibus.

Ah, e tem a música. Menino, música é tanta coisa. A gente pode cantar junto, tocar, dançar, até chorar com música a gente pode. Até parar o choro música consegue, já fiz isso com meus filhos cantando baixinho.

“Hoje eu quero paz de criança dormindo”, cantaria seu avô.

Seus olhos abriram, me viram (me viram?) e voltaram a dormir. Seu corpo deu um estremilique antes de sossegar. E isso foi o bastante para que eu o adore para sempre.

Amanhã voltaremos a São Paulo. Levando conosco a imagem da família em volta de sua figura tão poderosa e indefesa, todos bobos, todos perdoados e unidos por um amor mais velho que o mundo.

Ê, tico-tico que se mexe pra lá e pra cá. Choro forte, de menino mesmo, Leonardo, “valente como um leão”. Hora de mamar. Do seio da mãe já brota leite. O mundo está em paz. Por um segundo, mas em paz.

Pronto. Inventei um novo gênero: escrevi a primeira crônica que baba.

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