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Não é possível

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não é possível que a casa da avó seja hoje apenas uma casa a mais, igual a todas as outras da cidade. Que o quarto seja tão menor do que aquele guardado na memória (cabiam 8 crianças, um cachorro, a guerra de travesseiro e as broncas das mães).

Que no quarteirão não haja um ipê, pitangueira, moita nascida sem querer ou qualquer outro pouso para passarinho que não seja um fio. Ou que o quebra-queixo esteja em extinção. Que alguém ache arco-íris a coisa mais normal do mundo.

Acreditar que nossas urnas eletrônicas sejam confiáveis e que o Primeiro Mundo esteja muito atrasado em não adotá-las.

Entender o motivo pelo qual um ser humano decide ser bandeirinha. Que alguém esteja vivo e não saiba quem foi Cafuringa ou Tia Harriot. Que os fósforos, óculos e guarda-chuvas tenham basicamente mantido o mesmo formato há séculos e que toda tentativa de mudá-los resultou em sonoro fracasso.

Achar que uma criança esteja entusiasmadíssima com uma aula que comece às 7 da manhã. Que alguém já tenha dado ao filho o nome de Risoleto. Que tão raras pessoas saiam de casa esquecidas de se vestir. Que exista um losango amarelo na bandeira e que o Hino Nacional não seja Tico-tico no Fubá.

Aceitar que ela não caia de amores por um sujeito sensacional como você. Que um torcedor fanático ache todas as torcidas contrárias um bandos de idiotas e que por isso merecem porrada. Sufocar os rios com lixo, os mares com lixo, computadores e despensas com lixo, não é possível.

Ver tantos pais deixarem as babás empurrarem o carrinho do bebê e assim perderem o Momento Supremo da Existência Humana. Supor que nosso Brasil se afirme sem um descomunal esforço em educação (como não é possível que você escute isso desde que nasceu e nada se resolva).

Que um homem não veja que em toda mulher mora uma divindade. Que exista pizza de carpaccio, feijoada em lata, praias particulares com guarita e quem acredite que as geladeiras sempre existiram. Que se exija o uso de gravata em Palmas do Tocantins.

Supor que o homem seja mais sábio que um gato. Que edifícios de alto padrão pulem do 12° para o 14° andar, eliminando o do meio para evitar azar. Entender como se ia para São José com pista simples e carros mequetrefes em duas horas e quarenta, e hoje, com estrada duplicada e carros potentes, continua levando duas horas e quarenta.

Que o mundo não tenha se curvado à superioridade brasileira pelo fato de aqui haver sagu, cuíca e paçoca. Que numa cidade com mais de 5 mil habitantes não haja ao menos uma, umazinha livraria. Que alguma autoridade não tenha se disposto a unificar de norte a sul as regras das peladas de rua. Que o Halley não nos apareça de 12 em 12 anos.

Que alguém com quem você falou a vida toda tenha se calado para sempre, não ligue uma vezinha só no celular, não mande um postal de três linhas, um emissário qualquer para contar, afinal, como é do outro lado e se andar em nuvens faz cócegas.

Não é possível, enfim, que alguém pense tanta bobagem. Depois quer ser levado a sério. Não é possível.

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