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Ninguém trabalha, não?

em Cássio Zanatta/News & Trends por

A agência está bombando. Faço uma pausa no trabalho e vou até a janela. Espio a avenida, centenas e centenas de pessoas passam pela calçada. Sério: é uma multidão andando pra lá e pra cá. São três e vinte da tarde. Como é que tem tanta gente andando na rua a essa hora?

Esse povo não tem nada o que fazer? Por que veste uniforme, avental, terno e gravata, roupas de trabalho? Não devia estar nas salas de aula, nos escritórios, em reuniões, firmas, repartições públicas, hospitais ou até em casa, que tocar uma casa dá um trabalho danado?

Não. Parece estar todo mundo na rua. Fazendo o quê? Vamos lá: compras. É preciso comprar o guarda-chuva que vai chover, alface e tomate para o jantar, a pasta de dentes, o pó de café, a aspirina, o presente para o aniversariante. E depois, alguém tem que pôr o dinheiro para circular e a economia para funcionar. Justo. Mas e aquele ali, paradão, nem andar ele anda, fica só ali, mirando o movimento. A desculpa das compras não cola no moço.

Será que todos vão ao cinema, ao museu, à exposição, à biblioteca? Seria ótimo, essas coisas abrem a cabeça e dão rumo à vida. Quem sabe tanta gente não andasse tanto por aí, sem orientação?

Alguns podem estar indo pagar conta no banco. Começo de mês, vamos acertar os papagaios enquanto o dinheiro não some da conta, faz sentido. Mas cada vez menos isso é necessário, pode-se fazer quase tudo pela internet. Bom, tem o café. O café que a gerente serve pra gente e é coisa fina. Mas não sei se vale a pena andar até o banco por ele, são quatro quadras, se ao menos viesse junto um pãozinho de queijo.

Pode ser também que, com esse calor, todos estejam procurando um lugar com ar-condicionado para se refrescar um pouco. Aí o sujeito entra, finge que procura alguma coisa, senta-se num sofá, checa o celular, aproveita o fresquinho. Só que, no choque do calor com o frio, a garganta vai pro saco e o jeito é ir até a farmácia. Há uma reportagem sobre esse assunto numa revista de saúde, recomendo uma passadinha na banca. Vejam que só com algumas linhas eu pus a moçada pra andar bonito.

Aqueles meninos não deviam estar ou na escola, ou cada um no seu quarto, estudando ou brincando? Aquele padre, não devia estar na sacristia ou no confessionário? O chapeiro, na chapa? O médico, medicando? E o cidadão de gravata ali, sentado na sombra? Fugindo do trabalho, hein? Legando a alguém a solução das pendências, talvez até o pobre tenha que fazer hora extra. Bonito. Deixa o chefe saber.

Bom, falando em chefe, deixa eu reassumir meu lugar e voltar ao trabalho. Alguém tem que tocar este país. Da janela aceno a todos lá embaixo para que sigam meu exemplo. Vamos, cambada. Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil, mas há limites.

Ninguém me vê. Minto: o sujeito de gravata, agora refastelado ao sol, olha para cima e repara em meus sinais. Levanta-se e vai embora, um tanto constrangido. Tomou vergonha na cara e não legará a ninguém o que é de sua responsabilidade. Faz bem.

Se eu correr, até pego o seu banco e aproveito o solzinho.

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