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Nó Borromeu

em Poética Urbana por

NÓ BORROMEU
(Rogério Duran)

– Sim, eu ouvi!
Não sou surdo,
por mais que possa lhe parecer absurdo!
Não sei se entendi;
era mais certo que sim.
Mas vi pouco a dar em seu olhar
e muito a jogar.
Então passei a vez.
Tinha mais o que fazer.
Olhava seus dedos finos no ar
(delicadeza prometida)
apontando detalhes em Almodóvar.
Minha pele estava fria;
eu pensava em carícias…
Rancière, Mallarmé,


Sartre, Bourdieu,
Lacan, Beauvoir…
você singrava o mar da França
e eu olhava seu cabelo mal arrumado;
imaginava um pente ou tranças
(ou se sente algo quente e certa moleza
quando tocam em seus seios fartos.
Sob lençóis procurar estrelas e sóis;
achar o ponto G; em nós).
Seu discurso, quase um curso
(chato, muito chato), nó borromeu:
infeliz infinito.
Cansei desse mito
de amor de Orfeu.
Melhor Baal – vinho e sal.
O medo do frio
também gela a alma.
Fechar a mão não guarda o quente em sua palma.
Calma? Que calma?
Que parte do mundo
escapa do fundo de sua fala?
De sua falta?
Não há arte nisso.
Perdi noites em seu niilismo.
Sobraram dias mais mudos.
Dois comprimidos
controlam riscos mas anulam o mundo.
Toma-se estrelas, digere-se o tempo?
Tão assim, tão assim que nem sei por que vim…
O diabo de Goethe,
o inverso do evangelho…
em sua voz queixosa
isso tudo é muito velho,
avant guard da idade média.
Torna sangue em água rosa,
tragédia e glória em triste comédia.
Quem desama seu passado (mesmo odioso)
tem um duro futuro.
Mesmo que preencha com nomes cultos
o vazio entre os ossos.
Só à carne cabe esse destino.
A carne, minha cara, a carne:
o que esquenta, esfria, cresce,
retorce, dói, envelhece
e arde, infernalmente arde,
mais ainda quanto mais fica tarde.
… …
CARTA A UM AMIGO
(Rogério Duran)

Não lhe peço desculpas; nem as espero.
Comecemos esta conversa por sua razão última:
o bem que lhe quero.
Fui sempre sincero.
Sua ausência, o que lhe oculta,
foi escolhida. Seu certo.
Não sei onde encaixo meus braços.
O que se assunta é que certo preparo a seu ato,
publicado de uns dias, permeado de fatos, razões, bússolas, rastros e mapas destinados…
isso bastaria.
Eu sei, não lhe bastaria; acho que sei.
Mas por que não haveria
eu de imaginar seu lance nesse xadrez,
nessa mais uma partida,
sua partida?
Deste lado, aprendi que não há destro
dentre o emaranhado de arremedos,
sexo, medos, nexos,
nem canhoto,
sinistro, canhestro.
O que está feito está feito.
Agora é cuidar de nossos próximos arrependimentos.
… …
PORTA
(Rogério Duran)
Abra essa porta, camarada!
Não trago tristeza nem a guarda armada.
Só um copo transbordante de nossas histórias tortas,
mal contadas…
Também virei um elfo sem pote de ouro
(como prometemos um ao outro).
Bem por isso descobri:
o gato de Alice não sorri.
Mania é um jeito de tentar não sentir.
Abre essa porra, canalha!
Eu trago bazucas e as necessárias bombas
prá continuardes a compor tua música que avacalha
e tudo de que zombas.
Não, não morras…
Meto o pé nessa muralha
e a derrubo! Sim, a murros!
A corte de navalha,
a berros e urros.
Entroniza, espalha,
acredita ainda que o mundo
é só uma falha,
ruptura.
Tínhamos a sutura;
trouxe a linha, o dedal e ainda a crença na cura.
Se fossemos desistir…
houvera um tempo.
Sem lembrança ou lamento.
É tarde, seu pulha!
Eu tenho uma velha veia,
alguns minutos e uma agulha.
Vire a chave, seu louco
e em breve, em pouco,
sorvamos a vida.
Nesta ampola a trago, a Vida:
era assim tão simples e nem percebemos…

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