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No caso

em Cássio Zanatta/News & Trends por

No caso de chover, vou me lembrar do guarda-chuva: lembrar que o larguei no táxi. Se acaso fizer sol e a luz mais divina, a reunião jamais vai terminar: haverá defesas de pontos de vista intermináveis e, de toda maneira, as persianas não nos deixarão saber da lindeza lá fora.

No caso do encontro ser importante, você terá vestido as meias trocadas. No de ir ao jogo, o cara mais chato entre os milhares de torcedores do seu time se sentará ao seu lado e vai comentar cada jogada em voz alta, cutucando seu braço.

Na hipótese do meteoro vir em nossa direção, ele chegará num dia particularmente feliz.

Se por acaso as coisas baixarem de preço, será devido a um defeito na pistola da remarcação, mas que logo será corrigido. Se você não tiver dólar, ele vai subir. Se cair, haverá um casamento, uma febre, um novo emprego – e será impossível qualquer viagem.

Pode ser que você tenha o dinheiro – nesse caso, não haverá mais lugar na plateia. Quando houver, a atriz principal terá resolvido se alistar na Marinha e mudar de vida. No caso do cavalheiro ter um desafeto, ele fará amizade ou vai namorar com alguém que lhe deixará mordido da silva.

Na hipótese de ela telefonar, você não vai poder atender por estar no banho, lamentavelmente ensaboado, ou terá esquecido o celular na mesa do boteco. Mas se for para ouvir “vai catar coquinho” ou algo impublicável, ah, aí ele vai estar ali, à mão, e tocará com uma determinação que acordará o vizinho três andares acima.

Sempre há a possibilidade de estar onde não foi chamado, de dar o passo em falso, de ser enquadrado por falta grave, mas também de chutar a bola no ângulo, mesmo tendo mirado no outro canto.

Pode ser que o sacana triunfe, que o mau-caráter se dê bem, que o patife ria no fim e que depois de tudo a gente se sinta um imensíssimo trouxa. Pode ser o caso, aliás, é mais provável que seja assim, fazer o quê?

Enfim: no caso de eu bater as botas ou desaparecer como certas pessoas que entram e saem da nossa vida sem aviso ou previsão, confio em você para seguir na luta, essa lida diária de desconsiderar as importâncias, tropeçar e insistir, de saber-se ao mesmo tempo ridículo, único e susto (ia dizer milagre mas isso podia reacender as vaidades).

Força nessa rede, põe balanço nisso, siga em frente na beirinha do mar, chapinhe a água, devolve a concha à água, enfrente as ondas que quebram no peito. Em terra, tire o sapato, pise na lama, jogue a pedra no rio. Daí encare o almoço sem pressa e depois um cochilo para ser acordado por aquele sorriso que é toda a maravilha da vida.

No mais, a maior parte das urgências é de mentirinha. Se for ver, nunca é o caso.

 

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