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No céu não tem facebook

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Certo, é um pensamento besta. Se a gente for mais besta e se embrenhar no assunto, imagina que essas modernidades não devem impressionar muito o povo de lá. Para quem tem a eternidade pela frente, algo de novo é assunto por 300, 500 anos e todos ainda estão maravilhados com a descoberta do avião. E como será que o pessoal faz para aproveitar o tempo? Se para a gente alguns domingos de chuva demoram a passar, imagina ter todo o tempo do mundo. Se ficam a conversar, que tanto assunto eles têm? Há livros no céu? Baralho? Cinema, a obra completa de Victor Hugo, Programa Silvio Santos, War?

Mesmo algo não tão moderno como os Correios, parece não ter chegado por lá. Telefone, então. Imagino o pessoal de barba e bata branca passando trotes nos mortais. Telefonando uns aos outros para desejar feliz 480o aniversário. Pedindo pizza de calabresa sem cebola ou fazendo doações para o Criança Esperança.

Ah, você não acredita em céu, anjo, harpa, nada disso. Entendo. Pena. É um jeito de encarar as coisas. Fato é que esse lugar deve ser tão divertido que o pessoal até se esquece de tentar alguma comunicação conosco. Sei lá, para saber as últimas, como andam os netos, perguntar a função de tal tecla do controle remoto e se a gente se lembrou de incluir o terreno na declaração de renda.

Tudo isso porque sonhei com minha mãe. No enredo meio confuso, subi correndo as escadas da casa de São José, irrompi na sala, meus pais ainda dormiam no quarto de sempre. Encontrei um amiga que não vejo há muito tempo, veio nos visitar. Nos sonhos, as pessoas ainda se visitam, olha que coisa mais antiga. Batemos um papo de segundos, quando a luz do quarto acendeu e a porta abriu.

Minha mãe veio direto para mim como se não houvesse mais nada na casa, no mundo. Beliscou de leve meu queixo, como fazia quando eu a contrariava, e me abraçou forte. Ficamos os dois ali, alguns segundos ou toda a vida.

– Você precisa vir mais, meu filho.

A porta continuava aberta, a luz, acesa, do quarto eu só ouvia meu pai, sentia seus movimentos, sua presença, mas ele não chegou a aparecer, plim, acordei antes. Vamos com calma, um de cada vez, que um só já faz esse fuá nos sentimentos. E acordado estou, quero dizer, acho.

Não lembro se o piano, que ficava ao lado da porta do quarto deles, estava no sonho. Eu o trouxe para São Paulo para restaurá-lo e morar em casa (muito difícil subir um piano para o céu). Deve ficar pronto ainda este mês. Vai ficar debaixo do relógio que também era dos pais. Um fará companhia ao outro, assim eles podem conversar sobre outros tempos.

Queria poder contar esses e outros acontecidos para eles. Mas no céu não tem facebook. Nem correios, telefone, nem fofoqueira na janela para espiar a gente aqui embaixo e sair espalhando. A gente que desencavuque esses sonhos para mexer com as lembranças. E nos deixar meio pensativos, recolhidos pelo resto do dia em silêncio e batucando no braço da cadeira.

Acho que vou começar a aprender piano.

 

 

 

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