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No escuro

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Estou numa casa no meio do mato e não há luz. Andaram caindo uns trovões brabos na redondeza e isso assustou a eletricidade. Escrevo à luz de velas como faziam Cervantes, Eça e Shakespeare, mas a iluminação dos gênios definitivamente não me alcança.

Li em algum lugar que uma das principais causas da recente descrença dos homens em Deus é a luz elétrica. Na claridade, somos racionais e céticos, temos certezas absolutas e parece não haver precisão do sagrado. No escuro, não: somos indefesos, temos pavores, vemos coisas terríveis, assombrações, fantasmas pela casa, e fica mais fácil e necessário contarmos com algum espírito superior.

No escuro, voltamos a ser umas crianças medrosas, cremos na existência dos sortilégios e juramos que os olhos no retrato antigo do bisavô nos perseguem. Falamos baixo (só gritamos nos sustos) e nos movemos lentamente, com medo de acordar alguma alma dormindo pela casa.

Não sei por que nos portamos como num ritual quando acendemos uma vela. Deixar pingar cera no pires quase antecede uma oração. Estranhamos a ausência do coro beneditino. Então a chama se ergue com calma e sua dança lenta nos hipnotiza. Um homem e uma mulher iluminados por velas dificilmente não se apaixonam, assim como é impossível impedir que uma criança assopre a chama. Achamos a luz tão linda, prometemos acender mais velas no dia-a-dia, mas é só a energia voltar para nos esquecermos e acharmos a ideia de uma tolice sem fim.

Sob a luz de velas, nossa sombra ganha contornos assustadores. Os olhos saltam e ficam curiosos que é uma coisa. Os silêncios são mais convictos e mesmo o tempo parece outro. A luz elétrica é muito pobre de imaginação.

Um vento vindo da janela apagou a chama. Ela lutou, lutou para prosseguir, mas a Física já nos ensinou que PV = NrT e, mesmo que a fórmula não se aplique ao caso, não há nada a fazer. O breu é total, mas tateio a mesa, acho a caixa de fósforos e reacendo a vela. No entanto, isso durou nove segundos e, nesse tempo, a bruxa atravessou a sala em sua vassoura às gargalhadas e claramente as almofadas viraram sapos carnívoros gigantes.

O escuro é tão favorável à incerteza que achamos que a luz jamais voltará (ou talvez seja apenas torcida). No entanto, plim: ela volta feito milagre, fere os olhos e queima alguns eletrodomésticos. Revela um amarelo diferente na camisa, um castanho mais seco nos olhos. Ficamos alegres, estranhamente falantes e apagamos sem gratidão as velas, que deixam na casa um cheiro de sacristia antiga e voltarão ao fundo da gaveta tão logo os pavios esfriem. Discutiremos futebol, alguns assuntos do dia e acharemos graça em histórias que não têm nenhuma.

Filhos da luz, somos uns ingratos.

 

 

 

 

 

 

 

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