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O amor tem dessas coisas

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Eles se conheceram em uma roda de amigos. Não tinham muito em comum não, é verdade. Mas criou-se, ali, uma curiosidade. Uma vontade de saber um pouquinho mais, entender melhor, mesmo sem concordar, como quando a gente assiste a um filme até o fim, mesmo falando mal do roteiro.

E no final, o filme nem foi tão ruim assim. Apesar de discordarem de muitas coisas, concordavam em muitas outras. E não é assim com todo mundo, afinal?

Acharam as concordâncias mais simpáticas que as discordâncias, a companhia mais prazerosa que a ausência, a distância mais sofrida que a proximidade, e quando as evidências já eram maiores do que eles conseguiam negar, começaram a namorar.

Os amigos, claro, comemoraram. Mas com aquele pezinho atrás de quem sabe que eles não foram feitos um para o outro como os casais de Hollywood.

Mas talvez o cinema nacional aceitasse um casal daqueles. Diferente nos detalhes, mas iguais naquilo que interessava. E era só isso que interessava.

A evolução não poupa ninguém mesmo. De desconhecidos a conhecidos. De conhecidos a amigos. De amigos a ficantes. De ficantes a namorados. E, agora, futuros marido e mulher. Eles pularam o noivado, sim. Mais um ponto para as semelhanças entre eles.

Uma cerimônia pequena. Mas nem tão pequena assim. Com os convidados mais íntimos. E alguns mais distantes, mas que não dá pra não convidar. Um jantar simples. Mas com sobremesas sofisticadas. Só parentes como padrinhos. E um casal de amigos, pra representar. Nada de funk na festa. Só um pouquinho, pra animar a pista, mas sem baixaria. No fim, combinaram tudo. E tudo ia bem. E bem depressa. Até que chegou a notícia. Ele não tinha ido trabalhar. Ninguém sabia o que tinha acontecido. Ela ligava, mas ele não atendia. Ela chamava, mas ele não respondia. Ela chorava, e ele não se mexia. Enfarte. Fulminante. Ainda tão jovem. Comoveu a todos. A festa foi cancelada, o vestido encaixotado, os convites descartados e só os lencinhos de papel tiveram utilidade para ela.

Chorou por quase 3 meses. Cena triste de se ver. Só parou quando ele apareceu.

Um outro ele, não o ele que tinha morrido, claro. Jogou fora as fotos antigas, os presentes, o vestido de noiva e conheceu o novo homem da sua vida.

Afinal, se o outro que nem tinha tudo pra ser o homem certo, ela acreditou que era, por que ia desconfiar desse, que era ainda mais parecido com ela do que o anterior?

Decidiram não casar. As coisas tão dando certo assim, pra que mudar? é o que diziam. Alguns acusam de ser medo da tragédia se repetir. Talvez até seja. Mas melhor não arriscar, não é?

Claro que algumas pessoas ficaram chateadas. Acharam que foi rápido demais. Que se ela esqueceu do outro tão rápido, é porque o amor não era verdadeiro. Que se ela amasse mesmo, teria esperado mais. Que três meses não é o bastante pra esquecer.

Mas é que é muito mais fácil torcer pelo sofrimento quando quem sofre não é você.

E três meses é muito tempo. Tanto que, hoje, ela já está a um semestre de ter o primeiro filho e resolveu contar pra todo mundo que está grávida.

E a vida continua. Menos pro ex-namorado-quase-marido. Feliz ou infelizmente.

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