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O arroto

em Monocotidiano/News & Trends por

Ah, o filho tinha deixado ele assustado, ô se tinha. Não dava pra disfarçar. Desde a primeira vez que ouviu a notícia de que seria pai. E com o passar do tempo as coisas só tinham piorado. Eita moleque que ia dar trabalho. Mas se antes tinha medo do futuro, da criança ser mal educada, crescer mimada, não saber se comportar, ou outras culpas que os pais jogam sobre os pequenos, agora era um medo real e imediato.

E olha que no começo ele até tinha gostado quando a médica falou que era função dele fazer o menino arrotar.

Riu, todo feliz, como um macho alfa-ogro, imaginando seu filho arrotando. Falando o alfabeto inteiro em um arroto só, como ele fazia no colegial. Que beleza. Já imaginava os vídeos que faria com o menino arrotando e a legenda “puxou o pai”. Seus amigos iam adorar.

Amamentar devia ser dureza, já arrotar era um prazer.

Tudo ia bem até a médica completar a frase: você sabe que o bebê arrota bem baixinho.

Bom, já não seria tão divertido, não teria vídeos para os amigos, não ia treinar o menino para arrotar o hino nacional, como fez com o papagaio. Mas ainda estava tranquilo.

Só que a médica, sádica, continuou, bem devagar: e você sabe que o se o bebê não arrotar, ele pode até morrer.

O tempo parou. A luz ficou cinza. Ele ele desmontou.

Não sabia que fazia parte das atribuições de um pai recém chegado impedir que o filho morresse. Achou que era pra arrotar só pelo prazer. Ficava até feliz de saber que o filho era obrigado a arrotar quando pequeno, sendo que ia ser tão duramente punido por fazer isso quando já conseguisse andar sozinho.

Mas de repente, o que aconteceu? Ele se tornou um guardião? Um salva-vidas, cuja principal missão era não deixar o moleque virar um John Bonham mirim?

Como é que ele ia dormir sem ter certeza que o menino tinha arrotado? E como o menino ia dormir se não tivesse arrotado? E se o menino dormisse pra sempre, por não ter arrotado?

Ficou bravo com Deus. Que tipo de projeto de humano era esse que precisava de uma atitude nojenta dessa pra se manter vivo? Sem contar a história do dente do siso, mas isso podia ser discutido depois.

Que coisa mais sem graça. Ficou de cara fechada. Menos pela raiva do que pelo medo.

Não se conformava com aquilo. Passou uns dias em claro. Pensando com que cara explicaria pra mulher que não escutou ele arrotar e por isso o menino não podia dormir. Ou pior: explicar que não escutou ele arrotar e por isso o menino não podia acordar.

Assim que nasceu, ainda no hospital, chegou a hora de sua primeira missão. Era caso de vida ou morte. Esperou. Andou. Balançou. Tremeu. E nada. Não sabia mais o que fazer. Segurou o menino em frente ao rosto e olhou fundo nos olhos dele, conversando por telepatia.

“Ei, filho, me dá um sinal…. você já arrotou e eu não escutei?”

Foi quando um pequeno jato esbranquiçado e gosmento acertou seu rosto.

A médica não tinha falado sobre isso. Mas descobriu que, quando arrota, o menino também pode dar uma vomitadinha no pai.

Ah, Deus, você vai ter muito o que explicar para aquele pai.

Mas só depois. Agora ele vai dormir um pouco. E em paz.

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