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O cara que toca tímpanos na orquestra

em Cássio Zanatta por

Já se foram dois movimentos e o cara que toca tímpanos na orquestra ainda não fez nada. A não ser ficar esperando sua hora na última fila da orquestra, um espectador privilegiado, paralisado naquele fraque, fingindo concentração.

Em que pensa esse tempo todo?

Seu olhar é fixo na partitura, mas quem garante que, enquanto espera sua hora de brilhar, ele não pensa nas chances do time no Brasileiro, se pagou mesmo o seguro do carro ou, coisa mais séria, na boca e cabelos daquela morena sumida.

Por que ela sempre volta aos seus pensamentos, vontade de dar com essas baquetas na cabeça para ver se ele esquece. Mas a música sobe, os violinos, as violas, para contribuir para o devaneio. Que chega a um ponto em que ele não sabe se está vivendo mesmo aquilo ou se é um personagem de uma crônica já escrita, talvez do Veríssimo.

E se ela estiver na plateia, no escuro, assistindo ao concerto? Qual a probabilidade disso acontecer? 1%? Menos. E vai saber se ela gosta de Brahms. Mas como na loteria, sempre se pode sonhar. Quem dera assim ela reparasse nele. Ah, então ele tocaria esses tímpanos fora de hora e bem alto, num solo desvairado, como um baterista em concerto de rock. Seria expulso pelo maestro, levaria vaias, tomatadas, mas, quem sabe, também o coração dela.

Está chegando sua hora. Ele se concentra e ergue as mãos ao ar. Olho na partitura. Que beleza as clarinetas nessa hora. Falta mais Brahms nesse mundo. Qual a probabilidade de surgir outro Brahms? Menos de 1%.

O maestro olha para ele com o canto dos olhos, como se avisasse que falta pouco. Agora não é o pianista o mais importante, nem o spalla: é ele. Um segundo antes ou depois do tempo exato e ele põe o concerto todo a perder. E como a gente se perde nessa vida.

E se ele travar bem agora? E se nada fizer, ignorar o tempo da percussão? E se vier a revelação clara, inapelável, de que nasceu mesmo para ser paleontólogo ou mágico? Se a morena esperou o concerto inteiro, para justo agora ir ao banheiro?

Seja como for: é agora.

Ele bate com vontade e precisão, um toque forte, outros num crescendo que fazem tremer a sala. Pronto. Executou com precisão seu papel, fez o pessoal do sopro acompanhar com a cabeça, o maestro abre um sorriso que só ele percebe.

Agora é aguardar o final do último movimento, daqui a doze minutos.

Ou jogar a baqueta na testa desse maestro, arrancar esse fraque apertado, bater um tiro de meta na harpa, sair pulando feito vocalista de banda de rock e ir atrás, rendido, entregue, ele sabe muito bem de quem.

A culpa é do Brahms.

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