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O menino, o velho e o mar

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Para Zilda Maria da Silva (Dona Nega)

André contou sua história de menino. Teve quem chorou, teve quem duvidou.

André é de Recife. “Do Recife”, como ele diz. Cresceu nas areias da Praia do Janga, de manhã a correr descalço, catando concha, tomando vento, mergulhando nas ondas verdes e bravas; de noite, a aprender com os adultos as danças nas rodas de coco nas noites de lua.

André disse do acontecido com seu avô, quando tinha 11 anos: que fazia tempo que o vô estava obcecado por um peixe. Prometia ao neto que um dia ele ia sair para o mar e pescar o tal peixe para trazer para ele, ah, se ia. Repetiu a promessa muitas vezes e meses. Detalhava o formato, o peso, o brilho ao sol, bem como as técnicas com as quais ele ia ser fisgado. E ensinava a André do seu jeito simples, tosco até, que a vida sem sonho, sem lutar pelo que se quer, não é vida coisa alguma.

E o menino, como o avô, também passou a sonhar com o peixe. Menino e avô vivendo noite e dia o mesmo peixe.

Um dia, madrugada ainda, André ouviu um barulho vindo da cozinha. Levantou-se, foi em silêncio e ficou vendo com olhos de sono o avô engolir um pão com café frio, enrolar uma marmita no pano de prato e sair no escuro, de mansinho, para não acordar quem o podia impedir. À distância, André ficou olhando.

O sol ia subindo à medida que o barco do avô avançava, saltando as ondas. O sol que mais tarde ia iluminar o peixe do jeito que o vô contava. O sol que tinha rasgado o rosto e as peles do vô.

Quando a casa acordou, a preocupação com o velho foi grande. Só foi aumentando quanto mais o dia ia e ele não vinha.

Preocupados, já tarde avançada, os outros pescadores decidiram mandar um barco para procurar. Em terra ficaram a espera e as orações. André não sabia rezar, mas rezou de olhos muito fechados.

Quase fim de tarde, o barco voltou. Aliás, dois barcos. O barco do avô sendo rebocado pelo que foi em socorro. Mas não havia avô. Expectativa imensa, interminável, o mar é grande e o barco vinha devagar; além disso, já soprava o terral, da terra para o mar, vento contrário que dificulta a chegada na praia.

Mais perto, André viu (e foi o primeiro a ver): o braço do avô pendurado para fora do barco, quase encostado na água, como se ele dormisse. Quando chegou, todos puderam ver que o homem tinha dormido o sono mais longo que alguém pode ter.

Estava morto – mas sorria.

Deitada no barco, presa nas divisões de madeira, estava a vara de pescar. Tinha a linha dentro d’água e, bem esticada, se movia lentamente. Os companheiros sabiam do ofício, puxaram a linha, deu trabalho, precisou de três homens. E da água, fisgado pelo anzol, tiraram o peixe. O peixe dos sonhos do velho e de André, majestoso como o vô tinha descrito. Estranhamente quieto, sem se debater, respeitoso. Devia ser a presença do avô e sua determinação de pescador que o intimidava. As valentias se reconhecem. Bom o avô estar ali para ainda mandar na vida do jeito dele.

Explicaram para André que o coração de homem velho, no esforço de enfrentar, puxar e lutar em alto mar com o peixe, não aguentou e parou.

Pela primeira vez, André soube da morte. Mas não se assustou: entendeu que se pode morrer cumprindo o grande sonho da vida, se pode morrer de cansado, feliz, sorrindo.

Criado pela avó, a quem este texto é dedicado, André, 26, é hoje bailarino da Cisne Negro Companhia de Dança. Um grande bailarino, pessoa querida e admirada. Contou sua história no intervalo de uma apresentação, numa roda de gente que mal piscava os olhos.

Teve quem duvidou, teve quem chorou.

 

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