O presente o passado e o futuro

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Por Sonia Nascimento

Foto: Reprodução
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Sempre tive acesso à cultura, com revistas, livros e música. Muita música. Não consigo imaginar nenhum momento da minha existência sem ela.
Sou neta de músico. Embora não saiba tocar nenhum instrumento, cresci ouvindo a orquestra de Ray Conniff, e músicos como Ray Charles, The Platters, Chubby Checker, e Elis Regina, Tom Jobim, Cartola, Wilson Simonal…

Meu avô era maestro. É dele, o hino da cidade de Itapira, no interior de São Paulo. Ele dava aulas de piano, flauta transversal, violão, e diversos instrumentos. Foi professor de outros maestros também e tocava em alguns locais como o restaurante Bambu em Indianópolis. Dele, meu pai herdou o gosto pela música que naturalmente passava aos filhos.

Os domingos com meu pai, eram de cinema no cine Vila Rica para assistirmos Tom e Jerry (sim, nos anos 60 os desenhos passavam no cinema e não na televisão, que aliás tínhamos pouquíssimo hábito de assistir). Antes do almoço, sentávamos no chão da sala de casa e ouvíamos música.

Da minha mãe, herdei o gosto da escrita. Como ela foi criada em colégio interno, o diário era a sua companhia. E cadernos com receitas, histórias e leituras de “livros para moças”. Lembro que sempre tivemos muitos livros, e enciclopédias nas nossas estantes. Os vendedores de enciclopédias porta a porta tinham venda garantida em casa.  Só não tínhamos a Barsa, era algo caro na época. Mas, a nossa vizinha em frente tinha e completa. Era só atravessar a rua e usufruir daquela maravilha.

Meu pai, que trabalhava no Estadão, (como motorista dos imensos caminhões de entrega), tinha (e mantém até hoje) o gosto por ler jornais e revistas. Ele trazia para casa a Manchete, Realidade, Visão, Sétimo Céu. Com todo esse arsenal era difícil ficar alheia à informação.

No colégio, tínhamos uma biblioteca, que não frequentávamos. Os livros eram escolhidos pelas irmãs (freiras) de acordo com a série que estávamos. Todos os meses era passada uma lista com os títulos dos livros e podíamos escolher o que ler, para claro, fazer o resumo do mês. Era o dia mais aguardado, pois a lista não tinha uma ordem para percorrer a sala e, você poderia ficar “meses” esperando que “aquele livro” que você desejava, não fosse escolhido e pudesse finalmente ser seu por 28 dias inteirinhos. Li praticamente toda a obra de Monteiro Lobato disponível. Minha irmã, que estava em “outra série”, acima da minha, sugeria “As aventuras de Pedro Malazartes, cujo personagem foi imortalizado por Mazzaropi, pois assim poderíamos trocar os livros entre nós. Eu e minha irmã descobrimos juntas posteriormente, a Biblioteca Mario de Andrade, como incentivo, para lermos outros livros. Enquanto ela lia Stanislaw Ponte Preta, (Sérgio Porto), Millôr Fernandes, eu conhecia Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, José Mauro de Vasconcelos (com “Meu Pé de Laranja Lima”) e lia “Tistu, o menino do dedo verde”, de Maurice Druon.

Eu não sabia, mas a minha escolha profissional já estava ali. Desta miscelânea de informações e possibilidades tão presentes desde sempre, apresentada pelos meus pais, vindo do meu avô, e que repassei com naturalidade ao meu filho, levando-o a museus, como a Pinacoteca (por causa do espaço), MAM, no Ibirapuera, incluindo as exposições da OCA e muitas, muitas vernissages e livrarias, temos na família uma geração de admiradores de arte, música e livros. O exemplo vem mesmo de cima. É importante sim e, ele fez com que eu fosse o que sou hoje e tivesse o que eu tenho: cultura. Algo que ninguém tira.

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