O que acontece quando você viaja

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Então o cidadão decide viajar. Está cansado do dia-a-dia, aborrecido com o trabalho e sem paciência para os colegas do trabalho, irritado com a demora do sinal em abrir, achando macaco, carro, jornal, tobogã, tudo isso um saco. Portanto, uma viagem cairia bem. Então ele decide para onde ir, compra a passagem, reserva o hotel, comunica a decisão a quem deve ser comunicada, manda uma banana para as obrigações.

E pensa que isso é tudo. Quando, na verdade, algo de extraordinário está prestes a acontecer. Não tem nada a ver com o destino, quanto dinheiro vai levar, se seu estômago é fraco para comidas exóticas, nada. Explico.

Ocorre que o cidadão que decide viajar logo se separa em dois. Um, chamemos de corpo, fica no mesmo lugar, em sua cidade de sempre, com suas dores e coceiras, até chegar o dia da ida marcado na passagem. Mas há um outro dele mesmo (alma, âmago, cabeça?), que já sai de viagem, parte semanas antes do corpo dito matéria, não espera malas nem carimbos, já está em outro mundo, respirando, saboreando, vivendo a viagem por antecipação.

Por isso é tão difícil para o corpo que fica encarar os compromissos, levantar cedo, sorrir para o chefe (a quem, como diz o primeiro parágrafo, já foi destinada a primeira banana da viagem).

Se a jornada dura 20 dias, por exemplo, ao menos 10 dias antes metade do cidadão parte. Eles só vão se encontrar alguns dias depois do corpo embarcar, e juntos, reunidos, passam a gozar as férias (se esse “gozar” levantou imaginações no leitor, não foi minha intenção, mas é sempre bom saber que o leitor divaga alegremente enquanto lê umas bobagens).

Agora vem o mais espantoso: o mesmo fenômeno, agora em sinal invertido, ocorre ao fim dos 20 dias de viagem.

Também o corpo (sempre ele) volta antes. Regressa cansado de ver tanta novidade, sentir tantos cheiros e gostos diversos, fusos diferentes do seu, morrendo de saudade do seu travesseiro, do chuveiro, do pijama com cinco furos e dois botões faltando.

Mas a alma ainda não voltou, a sapeca. Continua lá, se maravilhando, dançando rumba, comendo abacate na salada, andando 10 km a mais do que suas pernas estão acostumadas, fumando coisa que não devia, falando com a desenvoltura de quem acha que domina a língua estrangeira, mas está dando vexame internacional.

Isso explica a dificuldade do corpo em refazer as tarefas tão conhecidas. Ele precisa do empurrão da alma, que neste momento está ocupada se deslumbrando em como a noite demora a chegar por aquelas bandas. Só uns 10 dias depois do corpo retornar, ela embarca de volta. E assim, ao fim de todo esse ciclo, um belo dia eles se reencontram, não sem um certo espanto.

Penso se a palavra “partida” vem desse estranho acontecimento.

(Esta tese de alma que vai antes e corpo que fica e vice-versa, em verdade, não é minha. É do meu amigo José Carlos Lollo, artista e mestre na arte de saber quando deve começar ou acabar tal traço.)

Daí vem o cotidiano dos boletos, dos carimbos, dos check-ups, das multas por furar o rodízio, acontece às vezes de corpo e alma não se entenderem – um discute feio com o outro, não se falam, até que uma foto da viagem guardada no celular sela a paz.

Então, meses depois, a alma começa a ter lá umas ideias que faz o corpo ficar todo assanhadinho.

 

 

 

 

 

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