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O que dizem e não dizem as estatísticas

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Deu no Estadão: 71% das fotos do Cristo Redentor postadas no Instagram repetem apenas 3 ângulos. Olha isso: quase ¾ das fotos procuram um único enquadramento. É muita coisa, vamos admitir. É turista estrangeiro, família do interior de Goiás, colegas já meio briacos comemorando a formatura, ninguém em busca de originalidade, e sim tão somente registrar que lá estiveram.

Eu ia me levantar para comer uma banana, mas, diante de tal revelação, não o faço. Estaria sendo banal, contribuindo para essas estatísticas que existem para confirmar como somos previsíveis e desinteressantes.

A primeira coisa que me espantou foi esse setenta e UM por cento. Por que não 70% ou 75%? Certo que esse 1% dá mais credibilidade à coisa toda. Números exatos são muita coincidência, fabricados demais para serem verdade. Além do mais, quem sou eu para duvidar dos dados, se nas 5 vezes em que visitei o monumento (uma das 7 Maravilhas do Mundo Contemporâneo, segundo sei lá que votação de não me lembro qual concurso realizado por um importante sei lá o quê) também busquei o tal  ângulo.

E quanto aos 29% que optaram por outro enquadramento, onde estão? Por que não se manifestam? São os heróis do nosso tempo, lutadores incansáveis contra o conformismo e a automação do mundo moderno. No entanto (sou bom de ler nas entrelhinhas), a matéria lhes dá um ar de contrafeitores, gente torta que não se enquadra no sistema. Temo que, se houver um golpe militar e a coisa ficar feia, eles estarão na primeira fila dos paredões. Se você não está a fim de problemas, lembre-se da próxima vez de fotografar o Cristo seguindo a maioria, nada de ângulos subversivos.

Pobre Cristo. Tanto fez pela humanidade e agora não pode nem virar um pouquinho a cabeça para oferecer um novo ângulo, mais favorável. Ou quem sabe Ele (deve uma estátua, ainda que do Nosso Senhor, vir em maiúscula?) prefere ser fotografado de frente, de lado seu queixo ficaria muito saliente, lembrando mais um retirante caipira do que uma divindade feita monumento?

O fato é que, repetindo a mesma foto, banalizamos a imagem do Redentor. Vamos nos acostumando a Ele, sua imagem nada traz de novo, como na milésima vez que ouvimos “Garota de Ipanema” ou pegamos o ônibus de sempre para Santos e não nos maravilhamos mais com a paisagem. Somos uns ingratos, essa é a verdade. Não me surpreende tantos testes nucleares, o sucesso do brega-sertanejo e que tenham mudado o gosto do Chicabon.

Sugiro então ao visitante fotografar, não a estátua, mas a paisagem do ponto de vista dela. Primeiro, porque é uma bela paisagem, com vista para o Pão de Açúcar ou para a Pedra da Gávea ou para os lados do Maracanã. Depois, porque o cidadão pode ter a mesma visão do Cristo, o que, seja o leitor católico ou não, é sempre interessante, ter o mesmo olhar para o mundo de um deus.

Só não exagere na busca de um ângulo diferente. Você pode despencar lá de cima – o compositor Assis Valente (“Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel” e outras maravilhas) tentou se suicidar pulando do alto do Corcovado. Não foi bem sucedido, ficou preso em alguma árvore. Mais tarde obteve sucesso com formicida, mas nem por isso virou estátua.

Enfim, não pule lá do alto, não seja subversivo, não procure ângulos ousados. Contente-se com o belo cenário. E se der um tempinho, procure um canto silencioso, afastado da multidão de turistas. E reze para o sujeito da estátua que olhe pelo Rio e pelo nosso Brasil. Andamos precisados.

 

 

 

 

 

 

 

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