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O sucesso do sertanejo pós-graduação

em Coluna por

CarlosCastelo

O sucesso do sertanejo pós-graduação

Ele era um produtor musical experiente. Mas, mesmo com todo  seu conhecimento, a ideia que tivera, de cara, parecia um pouco fora dos padrōes. Ficou digerindo-a por um tempão. Até que começou a sentir que ela fazia sentido. Mais: que podia bombar.

O sucesso do sertanejo universitário, sem dúvida, era um ponto de partida para a sua aposta. Ele sentia que existia um segmento de público que, por menor que fosse, entenderia o significado do novo formato de música do campo que ele iria propor.

Foi então que, antes de convocar uma dupla, começou a esboçar possíveis canções para o novo movimento musical: o sertanejo pós-graduação.

Um dia, no estúdio de gravação pegou uma folha de papel e escreveu a livre adaptação de uma conhecida canção. Ficou assim:

“Toda vez que eu viajava pela estrada de Ouro Fino

De longe, eu avistava a figura de um filósofo

Que corria abrir um livro e depois vinha me pedindo

‘Leia pra mim, seu moço, que é pra eu ficar ouvindo’

 

Quando a boiada passava e a poeira ia baixando

Eu jogava uma moeda e ele saía sofismando:

‘Obrigado, boiadeiro, que Platão vá lhe acompanhando’

Pra aquele sertão afora meu berrante ia tocando

 

Na minha viagem de volta qualquer coisa eu cismei

Vendo a porteira fechada, o filósofo não avistei

Apeei do meu cavalo e no ranchinho à beira chão

Vi a dona Simone chorando, quis saber qual a razão

‘Boiadeiro veio tarde, veja a cruz no estradão

Quem matou meu Jean Paul Sartre foi um boi sem coração’

 

Quando passo na porteira até vejo a sua figura

O seu rangido tão triste mais parece uma loucura

Vejo seu rosto sagaz desejando-me boa leitura

 

A cruzinha no estradão do pensamento não sai

Eu já fiz um juramento que não esqueço jamais

Nem que o meu gado estoure, qualquer coisa assuceder

Neste pedaço de chão vai ter Casa do Saber.”

O que era para ser apenas uma letra que servisse de modelo ao sertanejo pós-graduação, tornou-se imediatamente um ‘hit’.

Ele havia pedido à uma dupla, ainda sem nome, que gravasse uma ‘demo’ de ‘Filósofo da Porteira’. Mas a música acabou vazando no Youtube e tiveram de oficializar tudo às pressas. Já no primeiro dia, os ‘views’ bateram a casa do milhão.

Logo veio a primeira dupla do movimento: “Materialista e Metafísico”.

Foi logo seguida por muitas outras, na mesma linha, como “Marx e Niestsche “, “Hanna e Heidegger”, “Trio Existencialista” e “Gurizada Dialética”.

O sertanejo pós-graduação estava virando uma realidade.

O show no saguão da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP representou para o gênero o que o espetáculo do Carnegie Hall foi para a bossa nova. Acorreram ao megaevento de bandas famosíssimas de country norte-americano a seguidores da Escola de Frankfurt.

O ponto alto da noite foi a homenagem a Jürgen Habermas. A orquestra de 117 berrantes e o coral de cowboys de Barretos entoou trechos escolhidos de sua obra “O pensamento pós-metafísico” emocionando a plateia de lavradores, criadores de gado Nelore e pós-doutorandos em Matemática Pura da Escola de Estudos Filosóficos Avançados de Brandenburgo.

No final houve disputa de touro mecânico entre pensadores pós-modernos e construcionistas.

Por tudo isso, pode-se dizer que o sertanejo pós-graduação prepara-se para conquistar o país com suas letras que misturam questões éticas, morais e existenciais ao melhor do capim gordura e da bosta de vaca.

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Carlos Castelo. Escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. © 2014.

 

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