-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-

O sumiço dos telhados

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Erguem um prédio aqui, outro mais adiante e quando a gente vê, a quadra virou que é só prédio. Ou edifício, que parecer ser mais chique, ainda mais precedendo algum nome bacana como Avignon, Positano Palace ou Golden Garden (ai como somos jecas).

Entendo que muita gente quer morar por essas bandas e é preciso acomodar todo mundo. Mas o problema não só é o fim das casas e dos jardins das casas, mas é, igualmente grave, o sumiço dos telhados.

Há cada vez menos telhados, constatem. De telhas unidas no heroico esforço de proteger as famílias do vento, da chuva, dos bichos e das coisas que (ô, desânimo) as janelas dos prédios insistem em atirar lá de cima. Pelo visto, as telhas andam tão obsoletas quanto a boa educação, e isso merece ser um assunto para o Plano Diretor da cidade. Não sei ao certo do que cuida o Plano Diretor, mas o tema é urgente.

Os telhados têm funções importantíssimas. Por exemplo: amparar as bolas que os garotos pernas de pau chutam por cima do gol. Sem os telhados, as bolas caem direto na rua, atingem os carros (e no desigual confronto de forças, são destroçadas por eles), quando não a cabeça de um pobre que passa e quase morre de susto – quando não empacota mesmo. Aí o sujeito se queixa aos pais do perna de pau e este fica de castigo no quarto, e moleque trancado costuma dar em coisa que não presta, como rabiscos nas paredes, experiências com fogo, bombril e aerosol ou usar as cortinas como redes que se estufam nos chutes fortes.

Prejudicados também ficam os gatos que costumam passear no telhado, de lá vigiar as redondezas e, nas noites mais românticas, namorar nas telhas como motéis a céu aberto. Depois a população de gatos diminui, os ratos fazem a festa e é aquele fuá.

Menino que nunca subiu em telhado deixa de aprender um parte importante da vida: como caminhar medindo os passos, o equilíbrio, atento ao peso e à medida das coisas. Tenho um primo que, nos idos cada vez mais idos, calculou mal a relação peso/altura/resistência e desabou com as telhas quebradas no meio do quarto da dona da casa. Em vez de socorrer o pobre, a senhora andava de um lado para o outro, se lamentando aos berros: “Meu telhado! Meu telhado!”

Bons tempos quando os ladrões de galinha andavam sorrateiros por eles. Quando a gente descobria um ninho escondido num canto. Uma telha rachava e a água dos torós pingava na sala, era preciso colocar um balde e aquele som ainda martela na lembrança. Ou subia para fumar escondido e falar sobre coisas espantosas e proibidas em terra firme. Ou escrevia a giz um nome que o sereno da noite apagava.

Sem falar que as luas que nascem detrás dos telhados das casas são maiores e mais laranjas que as que nascem detrás dos prédios, que já surgem brancas, acesas. Os telhados (mesmo dos sobrados) respeitam o horizonte, diferente dos edifícios, cada vez mais imponentes e pretensiosos.

Tenho sorte. Estou cercado de vilas, onde é proibido construir prédios. Então convivo com vários telhados. Isso, se algum vereador não quiser mudar o Plano Diretor. Que continuo não sabendo bem pra que serve, mas deve proteger casas, telhados e quintais. E as bolas, gatos, ninhos, pingos, luas e sonhos que nascem entrem as telhas.

Quando menino, caí algumas vezes de telhados. Devo ter batido a cabeça, a que deve ser creditado perder tempo pensando tanta bobagem.

 

 

 

 

 

loading...
Tags:

Comentários no Facebook

Últimos de Cássio Zanatta

No escuro

Estou numa casa no meio do mato e não há luz. Andaram

Fronteiras

Foi algo do lado de lá que o chamou e você é

A mulher que ri

Nada de engraçado acontece numa fila de supermercado. Nada. Mesmo que você

Relâmpago de troco

Não acreditem nessa história, meu senhor e minha senhora, de que a
Voltar p/ Capa